O anti-semitismo moderno parece estar aumentando

Cragg Hines
Houston Chronicle
Em Washington

Enquanto os extremistas palestinos continuam a explodir a si próprios, na tentativa de - de ônibus em ônibus - destruir Israel, no momento em que o presidente Bush aguarda a "hora certa" para revelar a sua mais recente abordagem reformulada com relação ao Oriente Médio, vamos examinar um dos motivos pelos quais os homens-bomba se sentem tão encorajados. Basta uma rápida viagem pela Europa.

Entre as informações aos visitantes contidas no guia turístico de 1929 para a Áustria havia uma, relativa a uma vila nas montanhas: "Schladming é mais visitada no verão e também por aqueles que gostam de praticar esportes de inverno (os visitantes judeus são indesejados)".

Isso foi três anos antes de Hitler chegar ao poder na Alemanha, e nove anos antes do "Anschluss". Os alegres burgos tiroleses eram perfeitamente capazes de cultivar o ódio por conta própria.

É claro que o anti-semitismo moderno (para não mencionar as antigas erupções regulares do fenômeno) não é novidade na Europa, não estando, infelizmente, morto. Na verdade, o ódio aos judeus parece estar aumentando.

Não é preciso que se procure muito para identifica-lo. "Sabe como é", me disse um alemão com toda a sinceridade no mês passado, "se os Estados Unidos não se preocupassem tanto com os judeus ou com Israel, os atentados de 11 de setembro nunca teriam acontecido".

Eu fiquei (e vocês podem achar difícil de acreditar) sem saber o que dizer, pelo menos momentaneamente.

Talvez tenha sido assim que se sentiu a anfitriã londrina, Barbara Amiel, no final do ano passado, quando um convidado, na sua mesa de jantar, Daniel Bernard, o embaixador francês, culpou "aquela porcaria de país, que é Israel" pelos problemas mundiais.

"Por que é que o mundo tem que encarar a ameaça de uma 3ª Guerra Mundial por causa dessa gente?".

"Essa gente". Que estranho, antiquado e revelador. A expressão parece ter sido proferida por um Goebbels. Como é repugnante. Talvez pelo fato de Amiel fazer parte "dessa gente" e do seu marido, Conrad Black, ser dono do jornal londrino "Daily Telegraph" (assim como de outras publicações), ela tenha se aventurado até os limites do que é aceitável na alta-sociedade para escrever sobre o incidente. Amiel citou apenas "o embaixador de um grande país da União Européia", mas Bernard foi em pouco tempo pressionado publicamente.

E com certeza ele foi chamado rapidamente a Paris e despedido? Bem, não. Ele continua no seu cargo. O seu governo não fez nada. Ele sequer se desculpou. É bom lembrar que não se tratava de um embaixador do Terceiro Reich. O embaixador em questão pertence à República Francesa, uma potência nuclear que possui um imenso prestígio e grande poder de decisão.

No início desta primavera européia, em Amsterdã, Gretta Duisenberg, mulher do presidente do Banco Central Europeu, pendurou uma bandeira palestina na residência do casal e teria afirmado que "as condições deploráveis de vida do povo palestino são culpa dos judeus ricos". A Federação Judaica da Holanda protestou, denunciando ao supremo tribunal do país que Duisenberg praticara um ato anti-semitismo e que incitara o ódio contra judeus.

E o grupo parecia ter razão.

O fenômeno não se restringe aos círculos de fofoca. A incidência de ataques contra judeus e sinagogas está aumentando em toda a Europa.

E por que escrever somente sobre esta ameaça virulenta entre os europeus, quando norte-americanos, com Ted Turner, estão também dando declarações anti-semitas? Porque vários europeus negam a existência do problema, porque é um problema palpável a cujo respeito pouco se tem feito.

Javier Solana, o chefe de política externa da União Européia, respondeu no mês passado àquilo que afirmou ser a falsa sensação nos Estados Unidos de que "a Europa se tornou mais ou menos um grupo de países anti-semitas".

"Temos que começar a levar essas coisas a sério e deixar de permitir que sejamos acusados de assumir posições que não correspondem à realidade", afirmou Solana.

É engraçado, mas não foi dessa forma que os ataques e os episódios de vandalismo - sem mencionar as declarações da classe alta - foram vistos pelo Senado dos Estados Unidos no início deste mês, quando ele aprovou unanimemente uma resolução para enfrentar o problema.

O senador Joseph R. Biden Jr., democrata de Delaware, chefe do Comitê de Relações Exteriores do Senado, disse que as medidas "exigem que os governos europeus enfrentem este mal crescente, que rejeitem qualquer desculpa para não agir e que utilizem todos os meios disponíveis para combater tais crimes e punir os criminosos".

Mas a ação do Senado traz uma outra mensagem importante, articulada por Abraham H. Foxman, diretor nacional da Liga Anti-Difamação: "Além de exigir que os líderes europeus levem o anti-semitismo a sério como uma questão vital de direitos humanos, a resolução traz uma outra exigência importante - que a política, incluindo as opiniões individuais sobre a situação no Oriente Médio, não deve ser utilizada como cortina de fumaça para que se deixe de prestar atenção no anti-semitismo".

Conforme lembrou recentemente Shimon Peres, ministro do Exterior israelense: "A Europa possui uma história em Isrel". E com essa história em mente, seria bom levar em consideração os comentários de Hermann Goring, um dos maiores colegas de Hitler: "Não se preocupem - chegará a hora em que o mundo vai enxergar estas coisas de forma diferente, e o povo alemão também as enxergará sob uma outra ótica... Quem sabe como as coisas serão em 50 ou 100 anos?".

Infelizmente, vemos claramente como os fatos estão se desenrolando.


Tradução: Danilo Fonseca Houston Chronicle

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