Para alegria americana, a Copa do Mundo acabou

Steve Campbell
Albany Times Union

O jogo do zero a zero chegou ao fim. Os hooligans retornaram para suas cavernas. O último bocejo foi abafado. Com o sono atrasado, os americanos fanáticos pelo futebol já podem dar um descanso ao seu esporte -- e a si mesmos.

A Copa do Mundo de 2002 chegou ao fim. Este festival de surpresas foi encerrado com uma vitória do ofensivo time brasileiro por 2 a 0 contra a Alemanha. A equipe americana fez sua melhor campanha na Copa em mais de sete décadas, e impôs aos alemães um árduo teste nas quartas-de-final. O comportamento dos hooligans desta vez foi melhor do que há quatro anos, embora ladrões tenham aproveitado os jogos alemães para realizar três assaltos a banco em Berlim.

Mas o melhor de tudo -- e vale a pena repetir -- é que a Copa do Mundo acabou.

O problema da Copa do Mundo -- além do fato de que os gols são tão frequentes quanto uma bela atuação cinematográfica de Keanu Reeves -- é que ela desperta fanáticos e missionários que pregam esse esporte como uma religião. O frenesi dos cruzados do futebol durante a Copa faz os infiéis futebolísticos ansiarem pela presença de multidões de Testemunhas de Jeová e Hare Krishnas em suas portas.

Não deixe que os pastores do futebol te intimidem ou amedrontem. Na opinião da intelligentsia futebolística, qualquer outra atitude que não seja a reverência pelo esporte revela uma grave falha de caráter e problemas mentais. O que é uma bobagem. O futebol é um esporte, um vício ou uma virtude que não é maior ou menor do que rir com os Três Patetas, cantar músicas de Barry Manilow ou gritar para Jerry Collins nas manhãs de domingo. O fato de algumas pessoas rejeitarem o futebol como forma de entretenimento não significa que elas não o "compreendem".

Significa apenas que não gostam. Se o futebol fosse tão complicado como, digamos, a memorização da tabela períodica, por que se diz então que ele é o esporte mais popular do mundo?

Sim, o resto do mundo considera o futebol inventado na Inglaterra como "o verdadeiro futebol". Sim, o futebol é um excelente jogo para as crianças, especialmente se comparado a aulas de acordeão ou a roleta russa. O futebol concede às crianças que não sabem jogar -- ou não gostam de jogar -- futebol americano, basquete, beisebol e hóquei a oportunidade de participar de um time. O futebol não demanda equipamentos requintados e caros, nem privilegia a força e a altura como outros esportes.

Lembremos, porém, que os cruzados do futebol antecipam desde a década de 70 o crescimento do esporte nos Estados Unidos. Ele cresceria quando Pelé chegou aqui. Cresceria após a jogadora Brandi Chastain ter tirado sua camisa após o gol da vitória da Copa do Mundo feminina em 1999.

Ele não ultrapasará o nível da preferência questionável ou de um esporte secundário na América. Sejamos honestos: no futebol são poucas as oportunidades de gol para a sensibilidade americana. Em sete jogos da Copa do Mundo, o Brasil sofreu 33 chutes a gol. Os americanos estão mais sintonizados com jogos mais velozes -- ou mais violentos -- que demandam habilidade com as mãos e com os olhos. O que nos separa da maior parte dos animais? Polegares opositores.

Além do mais, a paisagem do esporte americano já está congestinada por futebol americano, basquete, beisebol, corridas de automóveis, hóquei, golfe, corrida de cavalos, tênis e boliche. Quem sabe se o futebol tivesse se tornado parte da cultura americana antes, ele talvez fosse hoje a mania nacional. Que sejam abençoados aqueles que enxergam beleza num esporte em que o placar de 1 a 0 geralmente é irreversível. Apenas não queiram nos convencer disso.

Com todo o respeito que se deve ao esporte mais popular do mundo, foi uma sorte que ele não tenha se integrado à cultura americana. Se os Estados Unidos fossem uma potência do futebol, o resto do mundo apenas teria mais um pretexto para nos odiar.

Tradução: André Medina Carone

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