Vítima de terrorismo supera o ódio e advoga a paz

Cary Clack
San Antonio Express-News
San Antonio (EUA)

Muita gente não vai aceitar tais palavras. São palavras simples, pronunciadas claramente no ritmo africano da voz de Douglas Sidialo. Mas muitos não compreenderão a racionalidade e o sentimento contidos na sua mensagem.

Quatro anos atrás, Sidialo perdeu a visão. Mas, a respeito do homem responsável pela sua cegueira, o queniano de 32 anos diz: "Perdoei de todo o coração Bin Laden e os seus cúmplices. Não tenho ressentimento".

Na manhã de 7 de agosto de 1998, Sidialo, vendedor de uma companhia de motocicletas, estava em uma esquina em Nairóbi, no Quênia, quando a embaixada norte-americana voou pelos ares. No mesmo dia, a Embaixada dos Estados Unidos na Tanzânia também sofreu um atentado a bomba.

As explosões, atribuídas a Bin Laden, mataram 224 pessoas, entre elas 12 norte-americanos, e feriram mais de 5.000, incluindo Sidialo, que viu o caminhão que carregava a bomba rumando para a embaixada, segundos antes de explodir.

No dia em que perdeu a visão, Sidialo ganhou um entendimento mais claro sobre como as pessoas devem viver umas com as outras.

"O meu coração sangra e a minha cabeça gira quando penso que há gente tão ruim a ponto de matar pessoas inocentes", diz Sidialo. "Espero pelo dia em que as pessoas tenham uma paz enorme. Um dia em que os Estados Unidos possam viver em paz".

Ele se tornou a principal voz das vítimas de atentados a bomba, e é diretor da organização Vision Seventh August, que ajuda os sobreviventes a entrarem em contato uns com os outros.

Sidialo está criando uma rede de vítimas de desastres. Ele se encontrou com vítimas e famílias do atentado de Oklahoma City e dos ataques de 11 de setembro.

Ele está nos Estados Unidos para promover o lançamento de um novo livro sobre o ataque à embaixada no Quênia, When Blood and Tears United a Contry ("Quando Sangue e Lágrimas Uniram um País"), escrito por Elijah E. Akhahenda, um queniano que estava em Nairóbi no dia do atentado.

Sidialo se tornou um vigoroso defensor da paz e da não-violência. É por isso que ele perdoa Bin Laden.

"O perdão é a paz definitiva; paz além da compreensão humana", diz ele. "Se uma vida é perdida, não é possível recupera-la. Se alguém fica aleijado ou perde uma orelha ou um olho, a situação é definitiva. Como eu poderia seguir em frente ou ajudar aqueles que passaram por experiências similares, ou lutar para que ninguém tivesse que passar por tais experiências?".

Akhahenda diz que o espírito e a alegria de Sidialo são originários da sua terra natal.

"É esse o seu jeito; é dessa forma que ele se sente", diz Akhahenda. "Em geral, os quenianos não culpam os muçulmanos pelo que aconteceu. Eles não acham que as pessoas que atacaram a embaixada o tenham feito devido ao fato de serem muçulmanas, mas sim porque eram más".

Sidialo acredita que havia um motivo para que ele estivesse naquela esquina na manhã do atentado e que tivesse sobrevivido.

"Deus me amparou através dessa tragédia", diz ele. "Quero dar a minha contribuição, deixando de lado o ódio e promovendo a paz". A última cena presenciada pelos olhos de Sidialo foi a de seres humanos expondo o seu pior lado. Agora, tudo que ele deseja visualizar são pessoas mostrando o que têm de melhor. "A minha grande visão consiste em me tornar parte de um movimento global pela paz".

Tradução: Danilo Fonseca San Antonio Express-News

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