Novo filme "Simone" fala sobre a criação de ilusões

Paula Nechak
Seattle Post-Intelligencer

Na comédia "A Primeira Noite de Um Homem" (The Graduate, EUA, 1967), o personagem interpretado por Dustin Hoffman recebe um conselho sobre a sua carreira: "Plástica". Se estivesse se formando hoje, ele poderia muito bem ouvir: "Imagens Geradas por Computador".

No mais recente filme de Andrew Niccol, o escritor e diretor neozelandês nos faz novamente viajar entre a fantasia, a realidade e as imagens geradas por computador. Foi ele que escreveu o roteiro de "O Show de Truman" (The Truman Show, EUA, 1998), e que escreveu e dirigiu "Gattaca - A Experiência Genética" (Gattaca, EUA, 1997), um filme que explora as conseqüências morais da replicação genética. Poderia-se muito bem pensar que Niccol estaria obcecado com o tema, caso os seus roteiros não fossem tão intelectualizados, estimulando a platéia a pensar, e, no caso de "Simone" (idem, EUA, 2002), dotados de um humor sombrio.

"Simone" é o trabalho de toda a vida de um gênio moribundo (Elias Koteas), que deixa a sua invenção como herança para o sortudo produtor Viktor Taransky (Al Pacino). Viktor havia terminado de retirar a sua atriz principal, Nicola Anders (Winona Ryder), do palco, e a sua ex-mulher, a executiva de estúdio, Elaine, (Catherine Keener) está prestes a acabar com o seu projeto cinematográfico quando um misterioso pacote chega às mãos do produtor. Viktor, percebendo que essa é a sua última chance para fazer com que o projeto dos seus sonhos se concretize, decide criar digitalmente uma atriz que substitua Nicola.

A criação é "Simone" (a australiana Rachel Roberts), a perfeita modelo loura que desperta a curiosidade de todo o mundo, devido a sua perfeição, o seu jeito reservado e a sua natureza aparentemente filantrópica.

Mas, da mesma forma que o Viktor de "Frankenstein" também acabou aprendendo, a falsa criação da vida gera conseqüências e, quanto mais popular se torna Simone, mais a vida de Viktor se enche de problemas. Não importa que Simone seja controlada por ele, a criação acaba parecendo ter vida e mente próprias -- em grande parte geradas pelos fãs e pela mídia, que não se cansam dessa mulher misteriosa.

Mesmo quando Viktor procura manchar a sua reputação, as ações de Simone são tidas como honestas e sensatas. Finalmente, Viktor decide que precisa destruir a sua criação para se salvar.

"Simone" não é tão imprevisível quanto "O Show de Truman", mas, ainda assim, o filme tem muito a nos dizer sobre a natureza da celebridade, o mundo perigosamente competitivo do show business, o preço que se paga pelas ilusões, e o nosso apetite insaciável pelos detalhes sórdidos das vidas alheias.

Pacino assume facilmente a personalidade de Viktor, e ele é sensacional em garimpar as nuances e a consciência mundana de um homem que parece ter controle da situação, mas que, entretanto, é incapaz de mudar o rumo da bola de neve que criou.

Keener também se sai bem em uma performance difícil, e a jovem Evan Rachel Wood faz um papel marcante, interpretando Lainey, a filha quase adulta do casal.

Para um filme que adverte que os nossos atores e locutores poderão ser obsoletos no futuro, o sucesso de "Simone" reside no seu elemento humano. Pode ser que em breve tenhamos que nos defrontar com um universo de clones e imagens, mas as advertências sobre cautela e verdades nobres ainda são mais bem veiculadas em carne e osso.

Tradução: Danilo Fonseca Seattle Post-Intelligencer

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