Robin Williams interpreta um perturbado em 'Retratos de uma Obsessão'

Bruce Westbrook
Houston Cronicle
Em Los Angeles (EUA)

Ele pode ser o comediante mais engraçado dos Estados Unidos, mas como ator, Robin Williams não busca um riso desde "Flubber -Uma Invenção Desmiolada", de 1997.

Depois de ganhar um Oscar pelo drama "Gênio Indomável" naquele ano, ele interpretou papéis com poucos risos nos sentimentais e criticados "Patch Adams -O Amor é Contagioso", "O Homem Bicentenário" e "Amor Além da Vida". Neste ano ele deu continuidade em papéis sombrios de bandidos em "Insônia", "Death to Smoochy" e no recém-lançado "Retratos de uma Obsessão".

Estes são filmes melhores, mas sem gargalhadas. Por que as abandonar?

"Eu adoraria fazer uma comédia pura", disse Williams. "Eu só preciso encontrar a certa, e isto é difícil. Fazer uma boa comédia é um trabalho difícil".

Nos palcos ele retomou sua carreira como comediante. Robin Willians acabou de concluir sua primeira turnê em 15 anos, e ela claramente o inspirou.

"Você sabe, tragédia stand-up não funciona muito bem. Mas comédia stand-up é como rock and roll: você recebe este choque", disse Williams, cerrando ambos os punhos. "Você volta -a se apresentar ao vivo- e os risos alimentam você e estimulam você. Isto me energizou bastante".

Ele recebe um feedback diferente de sua esposa, Marsha, e dos três filhos.

"Meus filhos me mantêm na linha", disse ele. "O menor (Cody, 10 anos) parece um pequeno mórmon. Quando ele assistiu o especial da HBO (uma transmissão ao vivo de uma apresentação em Nova York), ele disse: 'Pai, você precisa estabelecer limites'".

"E minha esposa é insana. É como ter uma juíza de patinação da Alemanha Oriental. Se você receber uma nota perfeita dela, você diz 'Obrigado'. Mas ela é inteligente e honesta. A gente precisa de alguém na retaguarda".

Na sua turnê, Williams, 50 anos, gostou de explorar as cores -e escândalos- locais. "Meu empresário e eu tentamos passear e descobrir qual é o interesse das pessoas. Estava tão quente em Houston (em abril passado) que eu não saí. Mas eu sabia sobre a Enron. Era oportuno".

Surpreso ao saber sobre a recente edição "Mulheres da Enron" da Playboy, ele riu jubilosamente. "'Os hobbies de Susan são auditorias'", disse ele, explorando o tema.

Não há nada engraçado em "Retratos de uma Obsessão", um filme perturbador no qual ele interpreta um personagem alucinado. Ele é Sy Parrish, um homem solitário que se torna bizarramente obcecado pela vida aparentemente perfeita de uma família cujas fotos ele revela em uma loja estéril de shopping center.

"As fotos deles são ricas e bonitas, mas a vida de Sy é tão sem graça que ele se mistura com a loja. Ele é invisível", disse Williams. O filme também é estrelado por Connie Nielsen ("Gladiador") e Michael Vartan (da série de TV "Alias") como o casal perseguido por Sy.

Diferente da imagem de comediante incontrolável que Williams lapidou desde que se tornou astro do seriado de televisão "Mork & Mindy" em 1978, Sy é um "personagem reprimido que não consegue ser extrovertido", disse o ator. "Ele é muito banal, muito preciso".

Este é o motivo de Williams ser ideal para o papel, disse o diretor-roteirista de "Retratos", Mark Romanek. "Há uma tensão em ver um sujeito agitado como Robin interpretando um papel tão reprimido".

Até o momento, o Robin reprimido está voando alto. Em lançamento limitado, "Retratos de uma Obsessão" arrecadou US$ 45 mil por sala (superando "Sinais", que arrecadou US$ 4.158 por sala no mesmo fim de semana). E Williams tem recebido críticas excepcionais. Richard Roeper, do programa "Ebert and Roeper", disse que "pode ser a melhor atuação puramente dramática de Williams em um papel principal", enquanto Peter Travers, da revista Rolling Stone, o chamou de "realmente e profundamente assustador".

Custando modestos US$ 7 milhões, "Retratos de uma Obsessão" é um raro filme de Robin Williams lançado no circuito de arte.

"Quanto menor o orçamento, mais arduamente as pessoas trabalham", disse Williams.

Mas trabalhar mais e mais depressa "é bom. Mantém o ritmo. Pronto -próxima. Você não fica sentado esperando. Não que eu costume ficar sentado".

Ele gosta de entreter o elenco e a equipe entre as cenas. Ao invés de ficar imerso no papel o dia inteiro, Williams retoma seu jeito de ser nos intervalos. "Isto mantém meu fluxo de energia e os ajuda (o elenco e a equipe) a suportar as longas horas", disse ele. "Nós filmamos uma cena deprimente, e então eu começo a fazer piadas. Eu preciso -para o bem de todos".

"Para mim, eu preciso ficar solto e não preso demais ao personagem. Neste caso seria brutal. E você acaba se transformando em algo do Método", disse ele, cheirando o sovaco e dizendo com voz de Marlon Brando, "Eu ainda não cheguei 'lá'".

Robin Williams não parou de fazer filmes desde sua estréia no papel principal de "Popeye" em 1980. Co-estrelado por Shelley Duvall como Olívia Palito, ele foi produzido por Robert Evans, tema do novo documentário "The Kid Stays in the Picture".

"Se eu assisti?" disse Williams sobre o documentário. "Eu o vivi".

"Em 'Popeye' nós não sabíamos como terminar o filme. Evans estava completamente fora de si, e eu disse, 'Eu poderia andar sobre a água, como Jesus'. Eu só estava brincando, é claro, mas ele respondeu, 'Isto é fantástico!'"

O juízo de Evans estava turvado pela cocaína -o que Williams chama de "pó de marcha colombiano". O comediante já se envolveu com drogas, mas diz que tudo faz parte do passado.

Williams disse que nunca se divertiu tanto quanto durante as filmagens em 1996 da comédia gay "A Gaiola das Loucas". Ele também lembra com prazer de interpretar o disc-jóquei militar tagarela de "Bom Dia, Vietnã" e de fazer a voz do gênio exagerado em "Aladim".

Em "Retratos de uma Obsessão", ele se relacionou com seu personagem por meio de sua experiência como filho único. "Eu conheço um pouco da solidão". Williams disse que sua atuação "é provavelmente a minha melhor em muito tempo".

Robin Williams nasceu em Chicago e viveu em São Francisco durante a maior parte de sua vida adulta. "Eu adoro viver lá", disse ele. "Há uma tradição de coisas anormais. As pessoas são legais, e eu não destôo. Você pode estar em um ônibus e ver um anão fantasiado de freira e achar normal".

Ele também gosta de Austin, Texas, onde às vezes ele vai visitar o amigo e ídolo do ciclismo Lance Armstrong. Williams foi para a França em julho para torcer pelo "irmão Armstrong" na sua quarta conquista da Volta da França.

"É como se fosse um jogo do Dallas Cowboys onde os torcedores têm acesso ao campo", disse Williams sobre o evento. "As pessoas gritavam as piores coisas na cara dele".

Austin foi uma das paradas da turnê de Williams, "e aquilo foi muito louco", disse ele. "Foi quando as irmãs Bush foram presas de novo". Com uma voz doce mas tensa, ele disse: "'Querida, você não pode usar mais esta identidade. Eles já conhecem você, e seu nome não é Louisa'".

Mesmo depois do retorno estimulante de sua turnê, Williams não espera se desanimar em suas atuações no cinema, apesar das longas horas e da falta de resposta imediata do público. "É algo totalmente diferente", disse ele. "Stand-up lhe dá uma liberdade que você pode usar nos filmes. O que você obtém dos filmes é uma concentração para criar um personagem. O processo é muito preciso -é tudo detalhe. Mas realmente, o contraste entre a comédia stand-up e a atuação é yin e yang".

Williams disse que obtém tanta satisfação nos papéis dramáticos quanto nos cômicos. Mesmo assim, ele gostaria de "criar um personagem como Mike (Myers) fez em Austin Powers. Mas eu não tenho talento para escrever, para desenvolver um roteiro ou um personagem".

Ao invés disso, ele se contenta em "viver" os personagens escritos para ele.

Incluindo o triste Sy de "Retratos de uma Obsessão".

"Ele é muito perturbado. Ele faz parte de uma cultura onde as pessoas se fixam nas vidas de outras pessoas".

Por mais orgulhoso que esteja de seu trabalho, Williams não deixará que seus filhos assistam o filme. "Eu não quero assustar meus próprios filhos", disse ele, adotando uma voz infantil: "Papai dá medo".

Williams encontra graça em quase tudo. Reconhecendo o apelo de mercado limitado de "Retratos de uma Obsessão", ele brincou a respeito.

"Como você vende solidão?" ele perguntou, em seguida empregando uma voz bombástica: "O filme para se sentir mal! Após um verão de 'Scooby-Doo', é hora de ficar tenso! Uma hora que mudará sua vida! Quando você imaginava que já era seguro voltar ao shopping!"

Seja divertindo a equipe de filmagem ou o entrevistador, Williams não consegue se conter. Ele pode estar explorando seu lado sombrio nas telas, mas no palco e pessoalmente, seu humor incansável é sua própria vida. "Eu tinha esquecido o quão bom era me apresentar ao vivo", disse Williams.

Quanto ao trabalho de ator, ele disse que sua carreira "está recebendo novo plasma, nova energia".

"Qual é meu legado?" Williams se recostou, se esticou e levantou as sobrancelhas. "Apenas continuar fazendo papéis interessantes. No momento, tudo está funcionado em todos os níveis. Minha vida está maravilhosa".

Tradução: George El Khouri Andolfato Houston Cronicle

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