Derrubada de Saddam pode favorecer companhias de petróleo

Dave Montgomery
The New York Times
Em Washington (EUA)

Uma invasão ao Iraque liderada pelos Estados Unidos poderia abrir as vastas reservas de petróleo do Iraque para empresas de energia americanas, caso o líder iraquiano Saddam Hussein seja derrubado do poder, disseram especialistas internacionais de energia.

Apesar da derrubada de Saddam ser o principal objetivo de um ataque militar, o petróleo está despontando rapidamente como um motivo importante. Os produtores americanos de petróleo, apesar de professarem cautela, já estão contemplando um enorme potencial no Iraque pós-Saddam.

"Seria considerada uma nova fronteira significativa e uma nova oportunidade para as companhias internacionais explorarem", disse John Kingston, um analista da Platt's, uma agência de notícias que cobre o setor de energia.

O Iraque possui a segunda maior reserva de petróleo do mundo, atrás apenas da Arábia Saudita, mas o desenvolvimento está estagnado há mais de uma década devido às sanções da ONU. Apesar do Iraque ser autorizado a exportar o produto dentro do programa petróleo por alimento, supervisionado pela ONU, seus campos de extração estão em séria decadência após anos de abandono e métodos ineficientes de recuperação.

Uma invasão militar teria efeitos diversos sobre os preços mundiais do petróleo, disseram os analistas de energia. O conflito poderia causar turbulência nos mercados mundiais, reduzir o fornecimento e elevar os preços.

Mas uma mudança na liderança iraquiana poderia abrir as reservas inexploradas do país, aumentar a oferta mundial e colocar "uma pressão para baixo" nos preços, disse Kingston.

O Iraque, que grande parte do mundo considera um Estado pária, poderia se tornar um elemento influente na economia mundial do petróleo, rivalizando com a Arábia Saudita.

Kingston disse que o potencial de crescimento das reservas de petróleo do Iraque é "tão grande" que a Arábia Saudita e outros membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) poderiam ser forçados a reduzir a produção para evitar uma oferta excessiva de petróleo.

Com uma invasão ainda no estágio de planejamento e sem a certeza de que Saddam será derrubado, a maioria dos cenários sobre os efeitos potenciais nos mercados de petróleo é altamente especulativa e cheia de "ses".

Mas a simples menção de uma nova era no Iraque está agitando a indústria petrolífera.

"Certamente está na minha tela de radar", disse Edward W. Blessing, diretor administrativo do Blessing Petroleum Group, em Dallas, uma companhia de petróleo independente com interesses no Mar Cáspio, que é rico em petróleo. "Eu imagino que todos na nossa indústria estarão de olho".

Se Saddam for substituído por um governo amistoso em relação a forasteiros, o Iraque poderá se tornar um imã para exploradores de petróleo de todas as partes do mundo. Rússia, França e China já assinaram acordos para desenvolver as reservas de petróleo iraquianas quando as sanções da ONU forem retiradas.

A Rússia já tem uma vantagem que data de era soviética, quando o Iraque era um cliente soviético. No final dos anos 90, a Rússia negociou um acordo com o Iraque para desenvolver um grande campo de petróleo com reservas de até 15 bilhões de barris.

A França possui um acordo ainda maior com o compromisso de desenvolver dois campos, um com reservas de até 20 bilhões de barris.

Apesar de concorrentes de outros países estarem disputando a vantagem, as empresas americanas têm ficado de lado devido ao embargo americano que as proíbe de negociar com o Iraque.

Mas um cenário encorajador para os Estados Unidos é a possibilidade de que um novo governo iraquiano possa descartar os acordos existentes e abrir uma nova rodada de negociações.

Mas por outro lado, existe a possibilidade de que um novo governo iraquiano possa ser tão hostil aos interesses americanos quanto o de Saddam.

"Se Saddam morresse amanhã, ainda assim haveria 15 outros Saddams atrás dele", disse Henry Groppe da Groppe, Long and Little, uma firma de Houston que faz previsões sobre a oferta mundial de petróleo. "Não mudaria muito".

Grouppe enfatiza que fácil "simplificar exageradamente e gravemente a situação", e apontou que o clima social e político do Iraque pode se mostrar hostil para os desenvolvedores ocidentais de energia. O país está dividido entre pelo menos 12 tribos, e a população muçulmana do Iraque está dividida entre a maioria xiita e a minoria sunita.

Além disso, os desenvolvedores de energia presumivelmente enfrentarão um enorme desembolso de capital para restaurar a infra-estrutura de petróleo do Iraque. O Iraque produzia 3,5 milhões de barris por dia antes da Guerra do Golfo Pérsico, mas seus campos agora produzem não mais do que 2,8 milhões devido a danos e falta de manutenção.

"O problema é que você precisa de um enorme investimento inicial", disse Groppe, "e assim que você fizer isto, você não conta com a garantia de que o partido do governo vai honrar o acordo anterior".

John Felmy, um analista do Instituto Americano do Petróleo, disse que a incerteza em torno do futuro do Iraque está mantendo a maioria das companhias de petróleo americanas assistindo e esperando. "As companhias teriam que ter muita cautela para atuar lá", disse ele.

Mas para alguns empreendedores de petróleo americanos, o potencial pode tornar o risco válido no momento oportuno. O Iraque tem comprovadamente 113 bilhões de barris em reservas, menos da metade dos 265 bilhões de barris da Arábia Saudita. Mas alguns especialistas estimam que o Iraque pode ter até 220 bilhões de barris além das reservas comprovadas.

"Se você presumir que a situação se estabilizará, sem dúvida haverá muito interesse", disse Ken Miller, vice-presidente da Purvin & Gertz, uma firma internacional de consultoria de energia de Houston. "Há um bom número de empresas diferentes aqui e ao redor do mundo que podem ter algum potencial lá".

Tradução: George El Khouri Andolfato

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