Pesquisadores identificam gene que afeta sanidade de portadores do HIV

Cindy Tumiel
San Antonio Express-News
Em San Antonio (EUA)

Pesquisadores identificaram uma "faca de dois gumes" no DNA humano. Por um lado, o gene parece deixar algumas pessoas menos propensas à infecção por HIV. Contudo, após a contaminação, o mesmo gene apressa o desenvolvimento de demência nos portadores.

O cérebro é um dos primeiros órgãos a serem afetados pelo vírus da Aids. Dias ou talvez horas depois da infecção, células carregadas de HIV chegam ao cérebro. Ali, se estabelecem e, eventualmente, criam confusão nas faculdades de memória e raciocínio.

Pesquisadores vêm estudando as razões por trás da demência associada ao HIV, atualmente um dos tipos mais comuns de demência no mundo.

Cientistas do Centro de Ciências da Saúde da Universidade do Texas, do Hospital Audie Murphy e do Centro Médico Wilford Hall dizem ter identificado uma mutação genética que parece ter um importante papel na demência associada ao HIV.

O estudo foi publicado recentemente, na revista Proceedings of the National Academy of Sciences.

Sunil Ahuja, professor de medicina do centro da saúde e coronel Matthew Dolan, do Centro Médico Wilford Hall, chefiaram o estudo. Foram examinadas amostras de sangue e de tecidos de 1.115 adultos HIV positivos e 592 crianças expostas ao HIV no útero.

Os pesquisadores concentraram-se no gene MCP1, que produz uma proteína chave, envolvida na regulação da resposta imune do corpo. A variação desse gene causa aumento na produção de suas proteínas, o que, inicialmente, ajuda o corpo a combater o vírus invasor. No entanto, depois de ocorrida a infecção, a proteína parece provocar a ação de monócitos e macrófagos, células essenciais do sistema imunológico. Essas células podem causar inflamação e dano aos tecidos, inclusive ao cérebro. A mutação também parece estimular a multiplicação do HIV, disse Ahuja.

"Não é a infecção direta do cérebro, mas a ativação dessas células especificamente que leva à demência", disse Ahuja.

Os pesquisadores descobriram que as pessoas com a mutação têm 50% menos risco de serem infectadas com HIV. No entanto, sugeriram que as mesmas pessoas tinham quatro vezes mais risco de desenvolver demência, uma vez infectadas.

Lynn Pulliam, professora de medicina da Universidade da Califórnia em San Francisco, salientou que estudos prévios identificaram outros fatores de risco genéticos. Essa nova informação poderá ajudar os médicos a identificarem pacientes com maior risco.

"Esse novo dado, junto com as informações publicadas anteriormente, pode sugerir um perfil genético de risco para demência de Aids. Os pacientes assim identificados poderão receber terapia adicional, quando disponível", disse Pulliam.

Ahuja observou que outros cientistas precisam duplicar seus resultados. Além disso, acrescentou que atualmente não há forma de desligar o gene, apesar de talvez ser possível desenvolver alguma terapia no futuro.

"Não podemos traduzir os resultados em tratamento clínico imediato", disse. "Este é mais um tijolo para a parede, que sugere como a infecção leva a sintomas como demência. Também fornece um instrumento para avaliar pacientes com maior risco de desenvolver a doença".

Aids é uma síndrome na qual o HIV enfraquece o sistema imune, sujeitando o corpo a sérias infecções. O vírus é mais freqüentemente transmitido por contato sexual, uso de agulhas contaminadas e produtos sangüíneos infectados.

Tradução: Deborah Weinberg San Antonio Express-News

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