Algumas perguntas, senhor Shakespeare

A biblioteca Folger Shakespeare, em Washington, compilou quase 1.500 perguntas feitas no ano passado por estudantes de segundo grau, professores e leitores interessados. O jornal da biblioteca, o "Folger News", traz uma coluna chamada "Pergunte a um Bibliotecário", na qual os funcionários respondem a algumas dessas perguntas. Abaixo estão algumas das favoritas:



Pergunta: Recentemente assisti a uma adaptação para o cinema de "Titus Andrônicus" e fiquei chocada com o nível de violência. Como eu explicaria a aparente "indiferença shakespeariana para com o sangue" às minhas sobrinhas e sobrinhos?



Resposta: A incidência de episódios violentos nas obras de Shakespeare pode parecer alta para o público moderno, mas não era tão incomum no contexto da sua época. Aliás, Shakespeare era mais moderado do que muitos dramaturgos do final do século 17. Observe também que, quando os "bons cidadãos" de Londres não estavam assistindo a peças teatrais no Globe, havia uma grande chance de que estivessem vendo brigas de ursos, rinhas de galos ou execuções públicas. Aqueles que consideram a sociedade atual muito violenta provavelmente se apavorariam ante a idéia de passar uma tarde de entretenimento assistindo a um espetáculo de enforcamento ou decapitação. (Pelo menos, esperamos que essa fosse a reação!). Para mais informações, leia "Shakespearean Tragedy" ("A Tragédia Shakespeariana")/1992, uma antologia na qual o editor John Drakakis inclui seções denominadas "Tragedy and the Social Order" ("A Tragédia e a Ordem Social") e "Tragedy and Violence" ("A Tragédia e a Violência"); o capítulo "Crimes and Accountability" ("Crimes e Responsabilidade"), escrito por Theodor Meron, no seu livro "Bloody Constraint: War and Chivalry in Shakespeare" ("Restrição Sangrenta: Guerra e Cavalheirismo em Shakespeare")/1998; e o livro de Molly Smith, "The Darker World Within: Evil in the Tragedies of Shakespeare and His Successors"("O Mundo Sombrio Interior: O Mal nas Tragédias de Shakespeare e dos seus Sucessores")/1991.



P.: Otelo e Desdêmona chegam a consumar o seu casamento? Eles parecem ter sido interrompidos na noite de núpcias.



R.: Esse tipo de pergunta é sempre difícil de responder. Por que Hamlet simplesmente não assume o poder após a morte do pai? Hamlet e Ofélia tiveram um caso amoroso? Parte do problema consiste em que imaginamos uma vida integral dos personagens de Shakespeare externamente às peças das quais fazem parte. Eles se tornam reais a esse ponto para nós.

No que diz respeito a Otelo e Desdêmona, a resposta curta e simples é que não sabemos. A peça nunca deixou essa questão clara, e é por isso que os estudiosos de Shakespeare se dividiram em dois campos no que tange a essa questão. O editor da recente edição Arden, E.A.J. Honigmann, acredita que o casamento foi consumado. Ele baseia tal suposição em uma cena no Ato II, na qual, antes de sair do palco com Desdêmona, Otelo diz: "Venha, meu querido amor,/A compra tendo sido feita, os frutos virão: "Aquele benefício ainda está para vir entre você e eu". Honigmann acredita que a consumação, a seguir, ocorre fora do palco. Outros críticos têm discordado, se referindo àquilo que chamam de "o casamento não consumado de Otelo" e ao seu "amor idolatrado". A estudiosa que é referência principal da Folger, Georgianna Ziegler, se alinha ao campo da consumação. "Creio que Shakespeare nos conduz a concluir que eles foram para o leito nupcial e devemos concluir que o casamento foi consumado quando os dois saem de cena no Ato II", diz ela. "Talvez isso aconteça depois que eles sejam interrompidos pela luta entre Cássio e Iago, e tenham voltado para a cama".



P.: Que palavras e frases foram cunhadas por Shakespeare?



R.: Entre as palavras e expressões da língua inglesa que parecem ter se originado a partir de Shakespeare estão "fathomless", "honey-tongued", "madcap", "flowery", "foul-mouthed", "time-honored", "exposure", "besmirch", "amazement", "countless", "useful" "radiance" e "lackluster". No livro "Brush Up Your Shakespeare" ("Atualize Seu Shakespeare"), o autor, Michael Macrone, confessa que nem sempre é fácil determinar quem foi a primeira pessoa a cunhar uma palavra, mas observa que o Oxford English Dictionary atribui todas as palavras citadas acima (e cerca de 500 mais) a Shakespeare.



P.: Como os homens escondiam suas barbas, caso fizessem papéis de mulheres em uma peça de Shakespeare?



R.: Geralmente eram garotos que interpretavam papéis de mulheres no palco, de forma que não havia problemas quanto a barbas. De fato, Hamlet faz troça com um dos atores que visita o reino da Dinamarca: "Vejo que tua face está ornamentada desde a última vez que te vi", o que significava que o garoto atingira a puberdade e passara a cultivar uma barba. Considerando que a sua voz mudaria à mesma época (Hamlet diz, "Reze a Deus para que a tua voz, assim como um pedaço de ouro ordinário, não seja rachada juntamente com o anel"), isso significaria o fim dos papéis femininos para o garoto. Homens mais velhos provavelmente atuavam como mulheres de vez em quando, fazendo figuras cômicas, como a ama de Julieta. Em tais casos, eles provavelmente raspavam a barba.



P.: Quem foi o ator mais jovem a interpretar um papel de Shakespeare?



R.: Aos 13 anos, William Henry West Betty (1791-1874) fez sucesso no mundo teatral londrino. O entusiasmo foi tão grande que os militares tiveram que ser chamados para manter a ordem nas ruas próximas ao teatro na noite de estréia. Master Betty, o "Jovem Roscius", foi o maior astro nos palcos de Londres durante a temporada de 1804/1805, interpretando papéis como Hamlet e Romeu. Gravuras, entalhes, medalhas e outros itens em homenagem a sua pessoa estavam presentes em todas as lojas. Após o seu curto, mas agitado, sucesso em Londres, a platéia se voltou com a mesma rapidez contra ele, fazendo com que saísse do palco debaixo de vaias. A sua tentativa de retorno, anos depois, foi praticamente ignorada.

Ellen Terry, no entanto, superou Master Betty. Ela fez o papel de Mamillius em "Conto de Inverno", aos oito anos de idade, em 1856.



P.: Quantas palavras Shakespeare escreveu?



R.: Esta é uma pergunta popular, e pode ser respondida ao se consultar a compilação de Marvin Spevack sobre os trabalhos de Shakespeare. Os trabalhos completos consistem de 884.647 palavras e 118.406 linhas.



P.: De que morreu o filho de Shakespeare?



R.: Realmente não se sabe como morreu Hamnet, o jovem filho de Shakespeare. Ele tinha uma irmã gêmea chamada Judith, que viveu até à idade adulta e se casou, mas Hamnet morreu aos 11 anos. A mortalidade infantil era alta no século 16, já que não havia antibióticos e muitas doenças da infância eram, portanto, fatais. Enfermidades como a escarlatina, coqueluche e até mesmo sarampo levavam à morte. Ele foi sepultado 11 de agosto de 1596.



P.: Qual é a mais longa e a mais breve obra de Shakespeare?



R.: A menor é "A Comédia dos Erros", com 1.787 linhas e 14.369 palavras. A mais longa é "Hamlet", com 4.042 linhas e 29.551 palavras.



Tradução: Danilo Fonseca Literatura

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