"O Crime do Padre Amaro" desperta protestos de católicos americanos

Sandra Barrera
Los Angeles Daily News

O diretor mexicano Carlos Carrera sabia que, em meio aos escândalos sexuais da Igreja Católica Romana, seu filme "O Crime do Padre Amaro" despertaria polêmicas.

Entretanto ele não esperava que o protesto reacionário que emergiu no verão do México (um país predominantemente católico) cruzaria a fronteira ao norte, onde seu filme estreará na sexta-feira.

"As pessoas estão profundamente indignadas", disse recentemente este cineasta de 40 anos ao promover seu filme no Hotel Four Seasons, em Beverly Hills. "Um jornal pode tranqüilamente publicar a história de um padre que desvia dinheiro ou abusa sexualmente de uma criança. Creio que na verdade as pessoas se sentem incomodadas por ver tudo isso exposto em um filme".

Este filme que retrata uma Igreja Católica corrompida e alguns padres infratores, claramente indignou diversas pessoas. É narrada a história de um jovem padre (representado por Gael Garcia Bernal, de "Amores Brutos" e "...E Sua Mãe Também") que seduz uma adolescente. Entretanto a relação sexual explica somente uma pequena parte das ondas de protestos que hoje inundam a Samuel Goldwyn Films, distribuidora norte-americana da obra.

Os escritórios da distribuidora recebem algo entre 200 e 300 cartas diárias em Los Angeles e Nova York. O número mal pode ser comparado aos protestos muito mais violentos do verão mexicano, quando a Igreja Católica conclamou um boicote ao filme.

Algumas igrejas distribuíram folhetos para afirmar que o filme defende o uso de drogas e a prostituição, o que é inverídico. Entretanto a controvérsia despertou o interesse do público.

"O crime do Padre Amaro" tornou-se o maior sucesso de bilheteria do cinema mexicano e recentemente foi o indicado nacional para a disputa pela indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Ninguém espera que o filme bata recordes em solo americano, mas grupos como a Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos querem garantir que as pessoas conheçam todos os detalhes do filme -- inclusive o final. Para tanto, basta ligar um computador. Na Internet é possível encontrar milhares de denúncias como esta feita por Gerri Pare, diretora do escritório da Congregação dos Bispos dos Estados Unidos para cinema e mídia. Ela reduz o filme a "uma visão corrosiva da Igreja Católica, especialmente de seus padres".

De modo similar, a Liga Católica dos Direitos Civis e Religiosos considera o filme "inteiramente fictício" e "perverso".

"Quando o clero não é desonesto e corrupto, eles são vis e corrompidos", escreve Louis Giovino, diretor de comunicação da liga, ao comentar o filme. Para incitar ainda mais a discussão há o fato de que esta adaptação moderna do romance escrito pelo português José Maria Eça de Queiroz em 1875 surge no momento em que a Igreja Católica tenta restaurar sua credibilidade após meses de escândalos por abusos sexuais cometidos por seus padres.

O filme nada contribui para a defesa desta causa, mas seus defensores acreditam que ele faz com que as pessoas pensem.

"Há muitas, muitas pessoas que foram ofendidas pela Igreja Católica, e algumas entre elas são artistas", afirma Frances Kissling, presidente do grupo "Católicos por uma Livre Escolha". "Trata-se de uma expressão artística que reflete dor e temor profundos, além de revolta e inconformismo. É um filme duro", ela prossegue. "Ele é blasfemo, mas a blasfêmia merece seu espaço. Blasfemar não é crime".

"O Crime do Padre Amaro" acompanha os passos de um jovem clérigo que segue até para sua nova paróquia em um remoto vilarejo mexicano. A Igreja é comandada por um padre corrupto que faz a lavagem de dinheiro do narcotráfico e dorme com sua empregada.

É com a filha desta empregada, Amélia, que Amaro mantém um caso de amor que resulta em uma gravidez indesejada.

Em um de seus primeiros encontros, Amaro veste a moça, interpretada por Ana Claudia Talancon, em um manto azul de seda pertencente à Nossa Senhora de Guadalupe e diz que ela "é mais bonita do que a Virgem".

Esta cena, ao lado de uma outra na qual uma mulher idosa deixa um gato comer sua hóstia, não agradou críticos como Pare, da Congregação dos Bispos, que considera a blasfêmia "especialmente danosa".

"O tratamento superficial do filme apenas destaca a perspectiva pervertida do filme, que nos deixa ao mesmo tempo infelizes e indignados por suas distorções", escreve Pare. Muitos destes argumentos são retomados nas cartas de protesto e nos panfletos que não param de chegar à Samuel Goldwyn Films.

"A idéia elementar é a de que há cenas sacrílegas no filme -- a relação sexual e, obviamente, a gravidez -- que, do ponto de vista católico, não deveriam ser apresentadas", afirma Meyer Gottlieb, presidente da Samuel Goldwyn Films. "É evidente que as pessoas se sentem incomodadas apenas por ouvir falar sobre o filme. Se elas querem se sentir incomodadas, seria melhor que ficassem assim após tê-lo visto ao invés de simplesmente antecipar que há um problema". Esta crítica cega não é novidade para o diretor Carrera, cuja própria família se sentia dividida antes que o filme fosse lançado.

Ele diz que até mesmo sua mãe "católica e ultraconservadora" estava "muito preocupada".

"Mas ela gostou do filme após tê-lo assistido", afirma Carrera com um sorriso. "O que você queria? Ela é minha mãe".

Tradução: André Medina Carone Los Angeles Daily News

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