Excesso de efeitos especiais enterra "Harry Potter e a Câmara Secreta"

Mick Lasalle
San Francisco Chronicle

"Harry Potter e a Câmara Secreta" é dirigido a uma audiência específica e enorme -- composta de indivíduos que adoram os livros da série "Harry Potter". Como tal, não se trata de um filme comum, e sim de um guia visual para uma experiência que a platéia já vivenciou em suas mentes.

A situação lança uma enorme responsabilidade sobre os ombros do diretor Chris Columbus e do roteirista Steve Kloves e, desta vez, o peso sufoca o filme. Cenas que deveriam ter sido cortadas estão incluídas, de forma a não desapontar ninguém. Aquilo que poderia ser um filme pequeno, agradável e genuinamente assustador terminou por ficar uma hora inteira mais longo e vários milhões de dólares mais caro.

Ainda é possível, às vezes, afirmar que "A Câmara Secreta" possui, como base, um trabalho de extraordinária imaginação e de generosidade espiritual. Mas, por outro lado, o filme também é monótono e exasperador, fazendo com que quem o assista se sinta como um passageiro que fica três horas em um avião, sem nada para ler além da revista de bordo.

O segundo filme da série revela Harry (Daniel Radcliffe) vivendo com a sua temida tia (Fiona Shaw) e com o tio (Richard Griffiths), enquanto conta os dias que faltam para o verão acabar, quando ele poderá voltar para Hogwarts, a fim de dar início ao seu segundo ano na escola de magia. É nesse ponto que Dobby, um elfo, aparece -- uma soberba criação de computador, que tem uma face cheia de astúcia e feiúra -- e o adverte para que não retorne a escola, já que algo de horrível está prestes a acontecer.

O primeiro "Harry Potter" dedicou algum tempo para apresentar os personagens e o universo em que se desenrola o filme. O segundo filme não pode fazer o mesmo novamente e, ao invés de encontrar outras formas de humanizar a trama, o diretor opta simplesmente por mergulhar de cabeça nas cenas de ação. Basta dizer que os elementos mais bem-feitos e agradáveis do filme dizem respeito principalmente a artefatos e objetos engenhosos -- um carro voador, uma carta que grita e um velho diário que suga tinta de suas páginas e envia mensagens de volta.

A profecia de Dobby mostra ser verdadeira, quando Harry e os seus melhores amigos -- Hermione (Emma Watson) e Ron (Rupert Grint) -- retornam a Hogwarts, apenas para descobrir que algo de terrível e misterioso está ocorrendo. Estudantes e animais estão ficando literalmente petrificados. Uma câmara secreta foi abeta e um monstro invisível foi solto, cujo objetivo é matar os alunos que não são bruxos "puro-sangue" -- ou seja, as crianças que não tem ambos os pais bruxos.

Isso movimenta aquilo que é essencialmente o enredo de um filme de ação (um monstro que precisa matar, um vilão que precisa ser descoberto), que o filme alonga e dinamiza com a tradicional fórmula das super-produções.

Harry e Ron saem para dar uma volta em um Ford voador e sofrem uma espetacular pane de motor. A cena de quadribol, um ponto alto do último "Harry Potter", é repetida neste filme. Mas trata-se apenas de uma correria frenética de efeitos de computador, na qual uma bola voadora persegue Harry, tentando matá-lo.

O pior exemplo de excesso é uma cena demasiadamente longa, na qual Harry e Ron precisam escapar de uma caverna escura, habitada por milhares de aranhas comedoras de gente. Com apenas uma pequena alteração na trama, a cena poderia ter sido completamente eliminada -- na verdade isso deveria ter sido feito. É nos leves toques de mágica que "A Câmara Secreta" brilha. Quando as aranhas estão atacando (ou, mais tarde, uma cobra gigantesca), o que se vê é apenas um filme comum de ficção científica com efeitos-padrão. Radcliffe é um ator infantil adequado, mas ele não é nenhum herói de ação, e nem necessitaria sê-lo.

Kenneth Branagh é a única faceta humana do filme que é encantadora. Ele faz o papel de Gilderoy Lockhart, um professor de magia negra, dono de uma perfeita cabeleira loura e um sorriso cativante. Ele não possui talento real para a magia, mas é especialista em fraudes e auto-promoção. Ver Branagh, no papel de Lockhart, retrocedendo continuamente e acobertando a sua inaptidão, é um dos espetáculos mais engraçados do filme.

Outros nomes famosos do elenco não tiveram oportunidade para se destacar. Richard Harris confere cansaço e grandeza ao papel do diretor Dumbledore, mas Maggie Smith e Alan Rickman mal aparecem. Na verdade, é chocante perceber que, com todo o talento britânico presente no filme (os atores e atrizes são todos britânicos), o filme não consegue ter uma atmosfera e uma personalidade inglesas. Não se capta a existência de uma estória, não há nenhuma sensação de mistério, e nenhum cheiro de fumaça de lenha no ar.

"Harry Potter e a Câmara Secreta" é como um velho couro inglês que foi transformado em plástico norte-americano, tão brilhante quanto um brinquedo em uma manhã de natal. E tão duradouro. É o mundo de "Harry Potter" que torna os livros especiais e, desta vez, tal mundo não veio à tona.

Tradução: Danilo Fonseca

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