Instável, Venezuela atinge ponto crítico

Robert Collier
Houston Chronicle

No momento em que as atenções mundiais se deslocam para a ameaça de uma guerra contra um gigante do petróleo -- o Iraque --, turbulências se anunciam em outra nação produtora de petróleo: a Venezuela.

O desafio é extraordinariamente grande para o governo Bush, pois a eclosão da violência na Venezuela poderá gerar uma forte alta dos preços mundiais do petróleo.

Nos últimos dias, o conflito entre o presidente esquerdista Hugo Chavez e uma coalizão formada por partidos políticos de oposição, entidades empresariais e sindicatos atingiu seu ponto mais elevado.

Atentados à bomba danificaram redações de jornais, centenas de milhares de pessoas tomaram as ruas das cidades e mais de 100 oficiais do exército acamparam em uma das principais praças de Caracas, capital venezuelana, declarando-a território livre e convocando os militares para um golpe contra Chavez.

Na segunda-feira os aliados de Chavez no alto comando do Exército tomaram a decisão inédita de assumir o controle da polícia de Caracas, antes fiel ao prefeito Alfredo Pena, um dos mais ferozes adversários de Chavez.

Na quinta-feira, líderes de oposição convocavam uma greve geral e um locaute de empregadores a partir do dia 2 de dezembro.

Embora não tenham revelado detalhes, diversos líderes afirmam que esta greve não teria prazo definido, numa repetição da paralisação quase insurrecta de abril, que culminou em um golpe civil-militar que temporariamente retirou Chavez do poder.

Observadores em Washington e na Venezuela apontam que a hipótese de um violento derramamento de sangue -- ou mesmo uma guerra civil -- não está descartada.

"A Venezuela claramente cruzou um limiar de violência nos últimos três ou quatro dias", afirmou Riordan Roett, diretor do programa para o Hemisfério Ocidental da escola de Estudos Internacionais Avançados na Universidade John Hopkins, em Washington.

"A Venezuela enfrenta uma divisão mais profunda e corrosiva do que a de qualquer outra nação das últimas décadas, exceção feita à América Central da década de 80 e ao Chile de 1973", quando um golpe militar depôs o presidente esquerdista Salvador Allende. "Trata-se de um acontecimento incomum para a América Latina".

A instabilidade venezuelana poderia ainda causar um abalo sísmico na economia americana. A Venezuela é a quarta principal fonte do petróleo importado pelos Estados Unidos, e o governo controla diversas das principais refinarias americanas, além da cadeia de postos Citgo.

Uma interrupção do fornecimento do petróleo venezuelano poderia gerar uma elevação repentina dos preços internacionais.

A maior parte dos especialistas em petróleo acredita que uma guerra contra o Iraque elevaria temporariamente o preço do barril para US$ 40. Portanto, uma crise simultânea na Venezuela poderia lançar este valor ainda mais para cima.

No mês de agosto, uma pesquisa realizada pela firma venezuelana Keller e Associados revelou que 62% entre mil entrevistados acreditavam que o país caminhava para uma guerra civil,e 25% se diziam dispostos a tomar parte nesta guerra -- 13% contra Chave e 12% a seu favor. De lá para cá, a maior parte dos analistas avalia que as paixões se tornaram ainda mais intensas.

A oposição, que no quadro geral representa as classes média e alta, alega que Chavez comanda a Venezuela ao estilo da ditadura cubana.

Chavez, um ex-oficial do Exército que foi eleito em 1998 e reeleito em 2000, conta com o amplo apoio da população mais carente por ter elevado a receita de programas de combate à pobreza.

A oposição exige que Chavez renuncie e convoque novas eleições. Ele se recusa a abandonar o poder e argumenta que a Constituição Venezuelana autoriza novas eleições somente após a conclusão da primeira metade de seu mandato de seis anos -- isto é, após agosto de 2003.

Há duas semanas o Secretário-Geral da Organização dos Estados Americanos, Cesar Gaviria, supervisiona as negociações entre governo e oposição, mas a convocação da greve nesta quinta-feira aparentemente foi um golpe letal contra as esperanças de paz.

"Tenho muito, muito medo de que uma decisão tão drástica (a greve geral) não nos permita dar seqüência ao nosso trabalho de negociação, especialmente à busca de uma solução eleitoral para a crise", afirmou Gaviria.

Os oposicionistas radicais aparentemente estão ávidos pelo confronto, e acusam Gaviria por ser muito condescendente com Chavez.

"Dissemos ao senhor Gaviria que a falta de pulso de sua missão torna praticamente inevitável a guerra civil, e que isso pesará em sua consciência", afirmou Rafael Poleo, editor do "El Nuevo Pais", um jornal de Caracas que exerce uma feroz oposição a Chavez, após um recente encontro com o líder da OEA.

Roett afirma que as negociações são inúteis, e acrescenta: "O problema será resolvido nas ruas. Esta é a melhor solução com a qual podemos contar por enquanto. No final, creio que Chavez tentará conquistar um poder total e os militares, com o apoio da sociedade civil, tomarão a dianteira e irão depô-lo".

Embora o governo Bush não morra de amores por Chavez, o temor de uma interrupção do fornecimento de petróleo levou diplomatas americanos a tentar convencer os oposicionistas a não cruzar a barreira do conflito.

Na segunda-feira, a Embaixada Americana em Caracas divulgou um claríssimo pedido por moderação. "Os Estados Unidos reitera novamente seu repúdio a ações ilegais, especialmente aquelas contra a pessoa ou a propriedade, com a intenção de alterar a ordem constitucional -- seja para a deposição de um governo ou para sua manutenção inconstitucional".

A maior parte dos venezuelanos acredita que o interesse de Washington pelo Iraque será o ponto crucial para a sobrevivência de Chavez.

"O governo Bush não está interessado em lutar contra Chavez agora porque necessita do petróleo da Venezuela", afirmou Margarita Lopez Maya, uma professora de história e economia da Universidade Central da Venezuela. "O governo irá aguardar até acabar com o Iraque, e depois verá se Chavez está causando problemas".

Para aproveitar ao máximo esta vantagem, Chavez se dispôs a assinar um tratado com Washington que garantiria um fornecimento irrestrito de petróleo aos Estados Unidos por um preço fixo durante vinte anos.

Ele destacou ainda que a Venezuela fará o possível para manter reduzido o preço do petróleo durante uma guerra contra o Iraque -- "um recado extremamente importante para Washington e para o mercado petroleiro", segundo afirma Mazhar Al-Hereideh, diretor da Petroanalysis, uma firma de consultoria para a indústria petroleira.

"Historicamente, a Venezuela sempre foi uma fonte constante e confiável de petróleo em tempos de paz e guerra. Hoje os Estados Unidos necessitam mais do que nunca da Venezuela".

Tradução: André Medina Carone Houston Chronicle

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