A esquerda latino-americana está cada vez mais forte

Dudley Althaus
Houston Chronicle
Em Quito (Equador)

Um coronel afastado do exército, que derrubou um presidente, deve conquistar a presidência do Equador no domingo (24), dando continuidade à onda populista de esquerda que está varrendo a América do Sul, onde os governos democráticos e as economias de livre mercado falharam para milhões de pessoas.

Com apoio do poderoso movimento de direitos indígenas do país, dos bairros urbanos pobres e dos círculos políticos de esquerda, Lucio Gutiérrez, 45 anos, está mais de 30 pontos à frente de seu oponente, o homem mais rico do Equador, em algumas pesquisas. Mas os eleitores daqui são notoriamente volúveis, muitos estão desiludidos com suas opções, e alguns analistas alertam que a aparente barbada de Gutiérrez pode tropeçar nas urnas.

Mas independente de sua vitória ou derrota no domingo, a força dos números de Gutiérrez é interpretada por muitos aqui como uma expressão da rejeição dos eleitores tanto à política tradicional quanto ao modelo de livre mercado, chamado de globalização, promovidos por Washington e Wall Street.

"É um modelo econômico que não deu muito para ninguém", disse Antonio Posso, o vice-presidente do altamente fragmentado Congresso do Equador, que foi eleito nas eleições de 20 de outubro que colocaram Gutiérrez e Álvaro Noboa, o barão da banana de 52 anos, no segundo turno.

A mais recente inclinação para a esquerda na região teve início na eleição de 1998 do atualmente ameado presidente da Venezuela, Hugo Chávez, cuja revolução ainda não realizada prometia favorecer a maioria pobre do país rico em petróleo e afastar os tradicionais detentores do poder.

Em 2000, o socialista Ricardo Lagos conquistou a presidência do Chile e preside com uma coalizão de governo. Em agosto, um líder indígena que é contra a globalização quase venceu a eleição presidencial da Bolívia, e permanece uma poderosa força política lá.

No mês passado, o líder sindical socialista Luiz Inácio Lula da Silva conquistou a presidência do Brasil com ampla margem de votos, e os partidos esquerdistas e antiestablishment dominaram as eleições regionais do Peru no domingo passado.

Ainda assim, a maré esquerdista atual parece um reflexo pálido do passado, quando Fidel Castro de Cuba, os Sandinistas da Nicarágua e outros revolucionários armados lutaram para transformar a sociedade e a política da região à força.

Apesar de forças semelhantes em suas próprias sociedades terem conduzido cada um dos líderes ao poder, suas plataformas não foram coordenadas a nível regional. Lula, Gutiérrez e outros mantiveram o instável Chávez à distância.

Os novos líderes, dizem alguns analistas, encontram suas chances de implementar profundas reformas obstruídas pela dependência de seus países de financiamento e mercados externos, pela necessidade de negociar com outros partidos dentro de suas sociedades democráticas e pela desconfiança dos Estados Unidos e outros países.

O governo americano, que ajudou a derrubar o presidente eleito socialista do Chile, Salvador Allende, em 1973, e financiou as guerras civis contra os movimentos esquerdistas centro-americanos nos anos 80, abrandou. Neste ano, após aparentemente aprovarem a breve derrubada de Chávez na Venezuela, as autoridades americanas manifestaram publicamente que não aceitam golpes de Estado.

Lula, que assume em janeiro, modificou sua retórica de luta de classes para atrair os eleitores moderados e conquistou a presidência em sua quarta tentativa. O Fundo Monetário Internacional (FMI), vilificado por muitos esquerdistas e populistas na região, elogiou na semana passada o programa econômico proposto por Lula.

Apesar de Chávez ter vencido duas eleições presidenciais separadas e uma série de referendos, seus sonhos revolucionários têm sido frustrados por um crescente movimento de oposição. Chávez foi brevemente derrubado em um golpe militar em abril e enfrentou protestos de rua e persistentes pedidos para sua derrubada nos últimos dias.

Gutiérrez tem trabalhado arduamente desde sua passagem para o segundo turno para se distanciar de sua base esquerdista e tranqüilizar Washington, Wall Street e os eleitores equatorianos de que ele não planeja nada radical demais como presidente.

"É uma esquerda que não pode ser diferente demais dos conservadores", disse o sociólogo Simon Pachano de Quito, que estuda tendências políticas no país. "Em um governo democrático eles não podem ser muito diferentes".

Desde meados dos anos 80, sucessivos governos americanos têm promovido um programa de democracia e economia capitalista na América Latina. Conhecido como Consenso de Washington, o modelo político e econômico foi abraçado em quase toda parte nos anos 90 como a salvação para uma região abatida pela pobreza, desigualdade social e governos autocráticos.

Mas as coisas não saíram exatamente como prometido.

Enquanto a América Latina se tornava mais receptiva ao investimento internacional e ao empreendimento privado, os críticos dizem que os habitantes da região ficaram em uma situação pior do que antes. E apesar de todos os países latino-americanos, com exceção de Cuba, agora terem governos eleitos livremente, a confiança dos eleitores na democracía provou ser menos sólida.

"Com a democracia, os pobres afundam mais enquanto os ricos ficam ainda mais ricos", disse Luiz Jimenez, que luta para ganhar um parco sustento vendendo peixe e camarão em uma barraca improvisada em um bairro pobre de Guayaquil, na costa do Pacífico do Equador.

No caso do Equador, a eleição de domingo ocorreu em meio a um quadro de crise econômica e caótica política nacional. A economia entrou em colapso em 1999, levando a severas medidas de austeridade e à adoção do dólar americano como moeda nacional. A instabilidade política produziu cinco presidentes na mesma quantidade de anos no final da década de 90.

"As pessoas estão muito frustradas", disse Fernando Bustamante, um analista político de Quito. "As instituições democráticas têm um prestígio muito baixo. Os líderes tradicionais têm um índice muito elevado de rejeição".

A cada dia durante a campanha, os simpatizantes de Gutiérrez se amontoavam em um prédio de dois andares em um cruzamento movimentado perto do centro velho de Quito. Muitos pareciam esperançosos de que desta vez, de alguma forma, as coisas seriam diferentes.

Era uma multidão caleidoscópica: índios de aldeias distantes nos Andes e das florestas tropicais da Bacia Amazônica; lojistas, operários e professores de bairros pobres; estudantes universitários bêbados, empresários de aparência bem cuidada e donas de casa; revolucionários habituais, pseudo-revolucionários e os defensores de interesses próprios".

"Nós precisamos de um líder com coragem, convicção, que deseje pôr um fim à corrupção e ajudar os pobres", disse Gisela Diaz, 21 anos, uma estudante bem vestida da Universidade Central de Quito, que veio com cinco amigos para organizar um debate político no campus.

"Com suas políticas econômicas", disse Gisela, "os políticos de antes nos deixaram em um buraco profundo do qual ainda não conseguimos sair".

Gutiérrez, um oficial de carreira do exército que serviu como assessor militar de vários presidentes, ganhou projeção nacional quando ajudou a liderar a revolta contra o governo de Jamil Mahuad em janeiro de 2000. Mahuad, que já tinha completado quase metade de seu mandato presidencial, foi acusado por muitos de corrupção desenfreada, um escândalo bancário e do atual colapso econômico.

O que teve início como um protesto popular liderado pelo radicalizado movimento indígena do Equador, se tornou um golpe quando Gutiérrez e outros oficiais do exército deram seu apoio aos índios. Mahuad foi forçado a renunciar, e foi formada uma junta de três membros, incluindo Gutiérrez e um líder indígena.

Mas os altos comandantes militares do Equador intervieram, dissolveram a junta e promoveram o vice-presidente Gustavo Noboa -- que não tem nenhum parentesco com o atual candidato -- para substituir Mahuad. Ainda assim, a força política de Gutiérrez, e do movimento indígena aliado dele, cresceu.

Forçado a deixar o exército devido à sua participação no golpe, Gutiérrez e vários outros oficiais formaram um movimento político, a Sociedade Patriótica, que inclui grupos indígenas e de esquerda, e que partiu para conquistar o poder por meio das urnas.

Nas eleições de 20 de outubro, Gutiérrez liderou a disputa envolvendo vários candidatos, ficando com cerca de 20% dos votos. Noboa, que quase conquistou a presidência em 1998, ficou em segundo com 17%.

Os discursos de comício de Gutiérrez neste mês se concentraram no ataque à política tradicional ao invés de apresentar qualquer programa político ou econômico coerente.

Suas promessas de combate à corrupção e programas antipobreza elevaram Gutiérrez ao status de salvador de muitos dos 12 milhões de habitantes de seu país.

Desde que chegou ao segundo turno, Gutiérrez mudou muitas das posições públicas em relação às dos esquerdistas que o apóiam.

"Se vamos distribuir riqueza, nós temos que gerar riqueza", disse Gutiérrez em uma entrevista na televisão. "Eu não vou atacar a riqueza. Eu vou atacar a pobreza".

Logo após as eleições de outubro, Gutiérrez voou para Nova York, Miami e Washington para se encontrar com políticos americanos, membros do Fundo Monetário Internacional e investidores privados. Ao mesmo tempo em que pediu a reestruturação da dívida externa do Equador, que em US$ 15 bilhões quase eqüivale ao rendimento econômico anual do país, ele deu garantias de que não haverá surpresas.

"Nós temos que ter credibilidade internacional", disse Gutiérrez na oportunidade. "Os acordos que o Equador assinou serão respeitados".

Mas agradar aos credores estrangeiros quase certamente alienará os simpatizantes de Gutiérrez em casa, especialmente o movimento indígena.

"Gutiérrez tem uma margem muito pequena de ação", disse Juana Ordóñez, diretora de uma firma de consultoria econômica em Quito. "A probabilidade de haver um levante contra ele nos primeiros meses é muito grande".


Tradução: George El Khouri Andolfato

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