Solaris, nova ficção de Steven Soderbergh, está perdida no espaço

Glenn Whipp
Los Angeles Daily News

"Solaris", novo filme de Steven Soderbergh, pretende tratar de questões profundas como o amor, redenção e a vida após a morte. Mas, reduzindo a produção ao essencial, o filme parece dizer respeito à crença romântica equivocada de todo o homem de que haverá uma segunda chance, de que poderá retroceder no tempo e, de alguma maneira, salvar aquela ex-namorada maluca da sua neurose crônica e levá-la de novo para a cama, fazendo com que tudo fique bem.

Essa foi a minha leitura do filme. Pode ser que você tenha uma reação diferente. A julgar pela quantidade de gente que saiu coçando a cabeça e pelas explosões verbais de insatisfação presenciadas após uma recente pré-estréia do filme, pode-se afirmar que as reações mais típicas oscilaram entre a apatia e a fúria declarada. Esse é um filme para aqueles que acharam "Full Frontal" (EUA, 2002), também de Soderbergh, muito convencional, e ansiavam por uma obra artística que não precisasse se desculpar por ser estritamente (e clinicamente) cerebral.

O filme de Soderbergh é a segunda produção cinematográfica baseada no livro de ficção científica de Stanislaw Lem. O primeiro filme foi a pouco comentada e pouco vista obra do cineasta Andrei Tarkovsky, de 1972. O que há em comum entre o livro e os dois filmes é o roteiro básico em que um psicólogo ruma para uma distante estação espacial, próxima ao planeta Solaris, a fim de descobrir por que a sua tripulação interrompeu as comunicações com a Terra. O psicólogo Chris Kelvin (George Clooney, que força a barra em seu papel) nunca se recuperou da morte da mulher (Natascha McElhone) e encara a missão como mais uma forma de passar o tempo e de diminuir o seu pesar.

Assim que chega, Kelvin encontra a estação espacial quase deserta. O comandante se suicidou. Restaram dois membros da tripulação. Um deles, um cientista chamado Snow (Jeremy Davies), que fala por meio de charadas confusas, informando a Kelvin: "Eu poderia te dizer o que está acontecendo, porém, não posso te dizer o que está acontecendo". (Se alguma vez na história uma declaração de um personagem sintetizou um filme, estamos diante dela). A outra cientista (Viola Davis) não dá atenção a Kelvin, dizendo: "Até que comece a acontecer com você, não há sentido em discutirmos o assunto".

Uma noite, o fenômeno começa a acontecer com Kelvin. Ele dorme e sonha com o dia em que conheceu Rheya, que se tornaria a sua mulher. Quando Kelvin acorda, Rheya, ou algo que se parece com ela, está deitada ao seu lado, lhe fazendo carícias.

E daí? Não espere que Soderbergh conecte os pontos do enigma para você. E até aí tudo bem. Um artista de verdade (como, por exemplo, David Lynh) pode lidar com o indecifrável e torná-lo tanto belo quanto profundo. Porém, a julgar por "Solaris" e "Full Frontal", Soderbergh parece só ser capaz de proporcionar indagações óbvias e artisticamente iluminadas que não contam com aquele tipo de profundidade genuína capazes de torná-las aceitáveis.

O que Soderbergh acrescentou à sua versão de "Solaris" foram cenas na Terra, com Kelvin e Rhea, que mostram a trajetória de seu relacionamento, começando com a felicidade inicial e caminhando para um horrível pesadelo. Kelvin acredita que foi culpado pelo fim trágico do relacionamento e que Solaris estaria agora lhe proporcionando uma nova chance. Mas o espectador fica se perguntando por que o pobre tolo desejaria tal coisa. Ele pareceu estar arrasado quando o idílio terminou.

Seria melhor se ele voltasse à Terra e encontrasse uma garota legal que pudesse levar para casa e apresentar a sua mãe. E ainda melhor seria se Soderbergh deixasse que outra pessoa escrevesse o seu próximo roteiro, ou que pelo menos tirasse umas férias. O estresse decorrente de dirigir filmes parece que o está desgastando.

Tradução: Danilo Fonseca

UOL Cursos Online

Todos os cursos