Pesquisa indica vantagem de Sharon sobre Netanyahu

San Francisco Chronicle
Danielle Haas
Em Jerusalém (Israel)

O primeiro-ministro Ariel Sharon e seu histórico oponente Benjamin Netanyahu se enfrentarão nesta quinta-feira nas eleições primárias do Likud que provavelmente definirão quem será o líder político israelense pelos próximos anos.

As pesquisas apontam que Sharon, 74, mantém uma folgada vantagem de 16 pontos percentuais sobre seu vistoso e eloqüente ministro do Exterior entre os mais de 300 mil filiados deste partido de centro-direita que terão direito a voto.

Além de garantir o comando do maior partido do parlamento israelense, o vitorioso poderia ainda ser beneficiado pela tendência direitista que predominou junto à opinião pública durante os dois últimos anos de violência para a disputa contra Amram Mitzna, líder do partido trabalhista, nas eleições gerais do dia 28 de janeiro.

Sharon obteve sucessivos e elevados índices de aprovação desde sua ascensão ao poder em fevereiro de 2001, ainda que não tenha cumprido a promessa eleitoral de garantir a segurança aos israelenses, que foram duramente atingidos por uma onda contínua de ataques palestinos.

Turbulências internas e ausência de comando entre os trabalhistas frente à atual intifada debilitaram o partido israelense de centro-esquerda e impediram que ele pudesse representar uma ameaça real ao predomínio parlamentar do Likud nos próximos anos, reconhecem os analistas.

A consistente vantagem de Sharon frente a Netanyahu surpreendeu muitos que acreditavam que o carismático candidato de 53 anos de idade, educado nos Estados Unidos e conhecido como "Bibi" tomasse a dianteira na batalha pelo comando do Likud.

Mestre do discurso incisivo, Netanyahu ocupou o cargo de primeiro-ministro entre 1996 e 1999, quando declarou que tiraria "uma folga" da política após a derrota para o trabalhista Ehud Barak.

Muitos passaram então a julgar que ele passou a aguardar o momento certo antes de seu inevitável regresso à política como candidato natural ao trono do Likud, agora ocupado pelo guerreiro ancião Sharon.

A relativa juventude de Netanyahu e seu estilo ameno abriram espaço para comparações com o ex-presidente Bill Clinton, com quem ele partilhou um contato privado amigável em algumas ocasiões.

A imprensa israelense se regalou no passado com histórias jocosas sobre a esposa de Netanyahu, Sara, e sua obsessão por limpeza - bem como pela infidelidade do marido, que em 1993 declarou publicamente ter sido ameaçado com a divulgação de um vídeo em que ele aparecia em situações comprometedoras.

Netanyahu sobreviveu às armadilhas do amor, mas as novas tendências eleitorais e a intifada comprometeram sua sorte.

Seus modos suavizados e a mensagem de sua "nova política" da década de 90, quando defendeu a liberalização e a privatização como condições necessárias para que Israel se tornasse um país influente na economia mundial lhe valeram a imagem de uma nova força política.

Netanyahu é hoje um produto bastante conhecido, e ainda que poucos políticos israelenses possam rivalizar com ele, muitos israelenses hoje consideram seu estilo mais ambíguo do que inteligente.

"A nova política da grande sedução ao estilo Bibi é coisa do passado", afirma Yehudit Orbach, um analista da Universidade Bar Ilan de Tel Aviv. "As pessoas percebem que enfrentam problemas reais e necessitam de algo além de um competente Relações Públicas. Neste sentido, é possível afirmar que houve um amadurecimento".

E embora Sharon talvez seja demonizado em todo o mundo árabe, sua figura paternalista atrai eleitores temerosos que mais do que nunca se preocupam com a segurança e o terrorismo. Há também um amplo apoio à disposição manifesta de Sharon em firmar "compromissos dolorosos" em nome da paz.

Desta vez, Netanyahu não ficou alheio à mensagem enviada pelos eleitores.

No princípio ele elegera a vulnerabilidade da economia israelense como o tema principal de sua plataforma. Ao ver que não atraíra o eleitorado, ele recorreu novamente à denúncia radical contra os palestinos, na esperança de conquistar a simpatia dos direitistas para quem Sharon não teria agido com a devida firmeza.

"Netanyahu irá restaurar a segurança", proclamam os cartazes de sua campanha espalhados pelo país. "Ele já fez isso no governo de 1996/1999: quatro ataques suicidas em três anos".

Ao contrário de Sharon, Netanyahu defende a expulsão do líder palestino Iasser Arafat da região e se opõe à concepção de Sharon, que defende um acordo em que os Estados israelense e palestino existam lado a lado.

"O apoio à criação de um Estado palestino é reconhecido em diversos círculos", afirmou Netanyahu nesta semana. "Na minha opinião, trata-se de um erro fundamental. Ficaríamos submetidos a um terror muito mais grave e a ameaças reais contra nossa existência".

Netanyahu aparentemente perdeu força por sua decisão de aderir ao governo de Sharon após a saída do Partido Trabalhista da coalizão governista no mês passado.

A popularidade de Sharon não permite que Netanyahu se contraponha a ele sem correr o risco de espantar os eleitores fiéis ao Likud, enquanto sua atual condição de Ministro do Exterior o torna vulnerável a acusação de deslealdade por agredir seu superior -- o adversário Sharon.

É pouco provável que algum dos candidatos venha a redefinir radicalmente o quadro da política israelense após as eleições de janeiro, mas Netanyahu possui uma margem de manobra mais estreita.

"Bibi será mais refém de seu eleitorado direitista", afirmou Orbach. "Sharon é mais velho, mais experiente e irá para o segundo mandato, o que significa que ele terá maior liberdade embora não haja nenhuma grande diferença ideológica entre os dois".

Na hora da eleição, entretanto, será feita uma escolha entre dois radicais. Ambos provavelmente formarão uma coalizão de base direitista, e ambos defendem a idéia de formar "duas personalidade em uma", com a promessa de nomear o derrotado para o ministério do exterior caso seja eleito.

Eles ainda enfrentarão a mesma pressão americana para dar seqüência a um plano de paz -- uma meta que fica comprometida pelo apoio dos dois candidatos aos acampamentos judaicos na Cisjordânia e na Faixa de Gaza.

Embora as chances de Netanyahu para quinta-feira não sejam grandes, é pouco provável que seu nome caia no esquecimento, após ter declarado recentemente que havia "retornado à política para sempre".

Agora que novos adversários no comando do Likud, como o prefeito de Jerusalém Ehud Olmert, alçam seus vôos, o passado vem nos advertir: Bibi voltará.

Tradução: André Medina Carone San Francisco Chronicle

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