Luta contra a Aids tem algum sucesso na Ásia e na África

Richard A. Marini
San Antonio Express-News

O agressivo programa da Tailândia para promover o sexo seguro e reduzir a disseminação do vírus da Aids é um dos motivos pelos quais essa nação do sudeste asiático experimentou uma queda contínua da taxa de infecções no decorrer da última década.

Os especialistas dizem que a transferência das lições aprendidas na Tailândia para outros países poderia conter a disseminação da doença e salvar um número incalculável de vidas.

Há muito tempo a Tailândia instituiu um programa de sucesso para o uso da camisinha em 100% das relações sexuais, o que, para muitos especialistas, é o fator responsável pela redução da disseminação do HIV entre aquelas pessoas envolvidas em atividades sexuais de risco.

O resultado de tal pragmatismo é óbvio, segundo Tim Mastro, chefe de tratamento e prevenção do HIV do Programa Global da Aids, que faz parte do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), em Atlanta.

"No início dos anos 90, a Tailândia e a África do Sul tinham um índice semelhante de infecção por HIV", explica Mastro. "A Tailândia enfrentou o problema e o conteve. Já a África do Sul o ignorou, e a doença se expandiu rapidamente naquele país". Segundo o CDC, a Tailândia, o Senegal e Uganda tiveram uma diminuição nas taxas de infecção por HIV nos anos 90. O Brasil, por motivos diferentes, teve uma queda ainda mais significativa no número de casos de Aids.

Esses são pontos luminosos que se destacam contra um fundo sombrio. A Unaids, a agência das Nações Unidas responsável por coordenar a luta contra o HIV e a Aids, calcula que 40 milhões de pessoas em todo o mundo possuam a doença, e que 95% de todos os casos de Aids ocorram nos países mais pobres.

Ao final de 2000, o número de mortes provocadas pela Aids em todo o mundo se aproximava dos 22 milhões e, sem tratamento, mais 27 milhões podem morrer nos próximos cinco anos. O desastre vai além das vítimas imediatas da Aids. Existem, por exemplo, cerca de 13,2 milhões crianças que ficaram órfãs devido à Aids.

A experiência nesses países evidencia que as escolhas tomadas no início da epidemia determinam como esta vai se desenrolar, segundo especialistas como Stefan Wiktor, do Programa Global da Aids.

"A principal lição a se tirar desses quatro países é que é necessário um comprometimento político de alto-nível para combater a epidemia", afirma. "É claro que eles também contaram com um grande período de estabilidade política, o que não é comum em muitos dos países em desenvolvimento".

Essas lições serão particularmente importantes para países como Ucrânia, Rússia e China, que estão passando por um rápido aumento dos índices de infecção. Eles ainda contam com tempo para implementar programas no sentido de evitar o desastre que se abateu sobre grande parte do sul da África, onde um em cada cinco adultos é HIV positivo.

Porém, ainda não se sabe se os países citados levarão essas lições a sério.

"Desde o início, o presidente Yoweri Museveni e o seu gabinete estiveram na linha de frente da campanha de conscientização", afirma Ahmed Ssenyomo, ministro-conselheiro da Embaixada de Uganda em Washington.

A Aids causou um estrago terrível nessa nação africana. A Comissão Ugandense para a Aids estima que 9,5% dos adultos ugandenses, ou 1,9 milhões de pessoas, sejam HIV positivos. E Museveni recentemente anunciou que a doença custa ao país US$ 702 milhões anualmente, tanto em despesas diretas com saúde quanto em queda da produção, segundo a BBC News.

Mesmo assim, tudo indica que, sem a franqueza do governo em relação ao problema, a situação poderia ser muito pior.

"Não contamos com muitos dados comportamentais promissores de Uganda", afirma Wiktor. "Mas os estudos demonstraram que as mulheres estão adiando o início da atividade sexual por dois anos".

Isso pode não parecer muito, mas as pesquisas indicam que as mulheres estão mais susceptíveis ao HIV durante os anos de puberdade. Portanto, mesmo um pequeno adiamento pode implicar em grandes efeitos.

Ssenyomo dissse que as medidas do governo para combater a Aids não deveriam surpreender quem quer que tenha familiaridade com a cultura ugandense.

"Quando um leão ataca uma vila, é um hábito nosso soar um tambor para divulgar a mensagem de que existe perigo na área", afirma. "Portanto, quando vimos que tínhamos um problema com a Aids, o presidente assumiu a missão de liderar a campanha de conscientização pública".

Em parte devido a essas iniciativas, Uganda foi recentemente indicado como um dos 14 países que receberão parte dos US$ 500 milhões que o presidente Bush prometeu para ajudar a prevenir a transmissão do HIV de mães para filhos.

Em outra região da África, autoridades no Senegal, incluindo o então presidente Abdou Diouf, começaram a falar sobre a Aids já em 1985, um ano antes do primeiro caso da doença ter sido confirmado no país. Após Diouf ter deixado a presidência, em 2000, o seu sucessor, Abdoulaye Wade, deu continuidade à campanha contra o vírus. No decorrer de todo esse período, o índice de infecção por HIV no Senegal se manteve constante, em torno de 1%.

"Esse tipo de resposta rápida ajudou a eliminar grande parte do estigma contra a doença, quando ela finalmente apareceu", diz Richard Marlink, pesquisador e diretor-executivo do Instituto de Aids de Harvard.

Além do apoio do governo, a experiência senegalesa incluiu pesquisas ativas e contou com o apoio da comunidade de saúde pública. Em 1985, por exemplo, foram pesquisadores senegaleses que, juntamente com colegas na França e no Instituto de Aids de Harvard, documentaram pela primeira vez a existência do HIV2, uma linhagem diferente do HIV.

Com o surgimento dos remédios anti-retrovirais (o chamado "coquetel anti-Aids"), há vários anos, o governo senegalês lançou um programa piloto para começar a tratar os pacientes HIV positivos. Quando financiamento estrangeiro não pôde ser obtido, o governo anunciou que alocaria US$ 400 mil para o programa -- o que não é muito para os padrões norte-americanos, sendo, entretanto, uma grande soma para uma nação africana.

Ao contrário de muitos países que fizeram vistas grossas para o problema da transmissão da Aids através da prostituição, o Senegal e a Tailândia adotaram abordagens bem mais pragmáticas.

No Senegal, onde a prostituição é tolerada, as prostitutas precisam ser registradas junto ao governo e passam por exames físicos regulares. Isso impede que elas partam para a "clandestinidade", para evitar serem presas, e permite que os profissionais da área de saúde as eduquem, as submetam a exames e as tratem, quando isso for necessário.

Tradução: Danilo Fonseca San Antonio Express-News

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