Luta dos EUA contra o terror se aproxima da encruzilhada entre a guerra e a religião

Edward Epstein
San Francisco Chronicle
Em Washington (EUA)

O presidente Bush, defendendo a guerra contra o terrorismo de seu governo, se vê apanhado entre os conservadores proeminentes que cada vez mais lastimam a ameaça do islamismo e o mundo muçulmano, no qual vem subindo a maré de sentimentos anti-americanos.

Bush e funcionários de seu governo, quase todos os dias agora, enfatizam repetidamente que os inimigos na guerra do presidente contra o terrorismo são a rede Al Qaeda de Osama bin Laden e Saddam Hussein, do Iraque, e não uma religião que conta com quase 1,2 bilhão de fiéis no mundo.

Falando em uma mesquita de Washington na quinta-feira para marcar o final do Ramadã, o mês sagrado do islamismo, o presidente disse que "o espírito que embasa esse período festivo é um lembrete de que o Islã traz paz e conforto a mais de um bilhão de pessoas em todo o mundo. O Islã afirma a Justiça de Deus e insiste na responsabilidade moral do homem".

Enquanto Bush prepara uma invasão para expulsar Saddam Hussein do Iraque, a política norte-americana se vê apanhada na potencialmente explosiva encruzilhada entre a guerra e a religião. Uma invasão do Iraque poderia alimentar ainda mais sentimentos anti-americanos, e mais ataques terroristas como os de 11 de setembro de 2001 alimentariam o sentimento anti-islâmico nos Estados Unidos.

E o impasse que continua entre os israelenses e os palestinos alimenta os sentimentos anti-americanos entre os muçulmanos que vêem Washington como o principal esteio de Israel.

Um coro de acadêmicos apóia a advertência feita pelo estudioso Samuel Huntington, da Universidade Harvard, no sentido de um confronto iminente entre a civilização ocidental e a islâmica. Para esses pensadores, as linhas de frente desse confronto já estão em chamas --na Nigéria, Sudão, no território contestado da Caxemira e na Indonésia. A disputa entre Israel e os palestinos também poderia se enquadrar nessa categoria.

Classificando a situação como "uma nova Cortina de Ferro", Philip Jenkins, da Universidade Estadual da Pensilvânia, disse que "as forças norte-americanas se envolveram no que, teoricamente, é o conflito mais significativo de nossa era, a luta para determinar as fronteiras entre o islamismo e o cristianismo em todo o mundo".

Escrevendo em "American Outlook", a revista do Instituto Hudson, uma organização conservadora, Jenkins afirma que "os governos norte-americanos podem em breve ter de enfrentar uma difícil questão política que até recentemente pareceria muito excêntrica: será que os Estados Unidos devem adotar uma política externa abertamente pró-cristã?" Uma política como essa visaria à proteção das comunidades cristãs em países do Terceiro Mundo.

Uma crítica mais específica é dirigida à Arábia Saudita, que abriga a bem financiada seita fundamentalista wahhabita, ligada à casa real do país. A seita estaria difundindo o extremismo muçulmano, mesmo que os governantes sauditas vivam sob ameaça de Bin Laden. Os líderes sauditas, embaraçados pela revelação de que uma princesa saudita talvez tenha fornecido dinheiro a dois dos seqüestradores envolvidos nos atentados de 11 de setembro, anunciaram que estavam reforçando a vigilância dos fundos de caridade.


"Concordo com o presidente em que uma grande religião foi tomada refém, mas entre os agressores está o mesmo povo que gerou 15 dos 19 seqüestradores do 11 de setembro, o saudita", diz Stephen Schwartz, autor de "The Two Faces of Islam: The House of Saud From Tradition to Terror" ["As Duas Faces do Islã: Casa de Saud, da Tradição ao Terror"].

Mas Schwartz, antigo repórter do "Chronicle", disse que as críticas genéricas ao islã representam um sério equívoco. "Se queremos que os muçulmanos respeitem os cristãos e os judeus, precisamos respeitá-los", diz. "Nenhum homem de Deus deveria fazer propaganda contra o islamismo".

E pronunciamentos contra o Islã atraíram repetidas denúncias do presidente Bush.

"Alguns dos comentários que foram pronunciados sobre o islamismo não refletem os sentimentos do meu governo ou os sentimentos da maioria dos norte-americanos", disse o presidente esta semana. "O islamismo, tal como praticado pela vasta maioria das pessoas, é uma religião pacífica".

As declarações do presidente conflitam com as dos conservadores religiosos que dizem que ele está cometendo um erro por não definir a guerra em termos de hostilidade ao Islã.

Importantes líderes evangélicos cristãos como Pat Robertson, Jerry Falwell e Franklin, filho do reverendo Billy Graham, atacaram a base do islamismo, definindo o profeta Maomé como homem intolerante e pregador da violência. Outros críticos, menos veementes, dizem que o Ocidente enfrenta uma nova guerra cria contra os ramos intolerantes e expansionistas do islamismo que desejam destruir o cristianismo e o judaísmo.

"É uma religião violenta em seu cerne", disse Robertson, no domingo, no programa "This Week", da rede de televisão ABC. "Não é uma religião pacífica. Mas muitos seguidores do islamismo são cidadãos pacíficos e cumpridores da lei".

Ismail Rover, diretor de comunicação da Sociedade Muçulmana Norte-Americana, criticou Robertson como parte de "uma multidão irritante de extremistas açulando o Ocidente e o mundo islâmico a um conflito que, comparado às maneiras alternativas de resolver nossas diferenças, não interessa a ninguém a não ser aos grupos de interesses especiais e a movimentos extremistas".

Na quarta-feira, Bush foi perguntado sobre os resultados de uma nova pesquisa do Pew Global Attitudes Project que constatou que 75% dos jordanianos pesquisados tinham opinião desfavorável dos Estados Unidos, bem como 69% dos egípcios e paquistaneses e 59% dos libaneses. "Espero que a mensagem de que não combatemos uma religião, mas sim um grupo de fanáticos que a tomaram refém, esteja chegando às pessoas", respondeu ele.

"Precisamos compreender que as máquinas de propaganda estão funcionando a pleno vapor na comunidade internacional e pintam nosso país sob uma luz desfavorável", disse. "Faremos tudo que pudermos para lembrar aos povos que jamais fomos uma nação de conquistadores; somos uma nação de libertadores".

Na quinta-feira, o porta-voz de Bush, Ari Fleischer, se viu respondendo pergunta semelhante, dessa vez sobre a opinião islâmica contrária a ações no Iraque. Fleischer ressaltou que a Síria, vizinha do Iraque, havia aprovado a resolução dura e unânime do Conselho de Segurança da ONU quanto à volta dos inspetores de armas ao Iraque.

"A Síria conclamou o Iraque a se desarmar", disse Fleischer, que como seu chefe repetiu muitas vezes que Bin Laden tentou tomar o islamismo como refém e que Hussein não hesitou em invadir o Irã e o Kuwait, outros países islâmicos.

"E lembro a vocês", acrescentou Fleischer, "sobre todos os esforços que os Estados Unidos fizeram para levar a liberdade aos muçulmanos de todo o mundo, incluindo a Bósnia, incluindo o Afeganistão".

O analista James Pike, da GlobalSecurity.org, que está convencido de que o governo Bush planeja ação militar no Iraque, disse que o presidente fez um cálculo simples quando se trata de avaliar a opinião pública islâmica.

"O cálculo é de que uma vitória rápida justifica a si mesma", disse Pike. "Eles acreditam que depois disso os críticos silenciarão".

Tradução: Paulo Migliacci San Francisco Chronicle

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