Ministros do Petróleo se dirigem à conferência; Opep se concentra em cota de oferta

VIENA - Apesar da possibilidade de que as ofertas de petróleo venham a ser reduzidas devido a um conflito com o Iraque e a uma greve debilitante dos trabalhadores venezuelanos do setor petrolífero, os ministros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) estão sendo consumidos por pesadelos relativos a um excesso de oferta do produto.

No momento em que ministros do petróleo da Opep se reúnem aqui nesta semana, os sauditas estão tentando fazer com que seja aprovado um plano para afastar a possibilidade de que o preço do petróleo despenque no segundo trimestre do ano que vem.

Os dez membros da Opep, que em tese concordam em acatar uma quota de produção, têm ultrapassado esses limites em cerca de 2,8 milhões de barris diários em novembro, segundo a Administração de Informação sobre Energia dos Estados Unidos.

Mas toda essa conversa sobre cortes na produção ocorre em um período de crise, tanto no Iraque, cujas exportações de petróleo são limitadas pelas sanções da ONU, quanto na Venezuela. Juntos, os dois países normalmente respondem por 5,3 milhões de barris de petróleo por dia, ou cerca de 7% da oferta mundial.

Os preços dispararam nos mercados futuros, à medida que a situação política se deteriorava na Venezuela e os sauditas falavam sobre cortes de produção.

Na bolsa de Mercadorias de Nova York, o preço do barril de petróleo para janeiro aumentou em US$ 0,55, fechando a US$ 27,75, enquanto que na Bolsa Internacional de Petróleo, em Londres, o barril do produto aumentou US$ 0,66, ficando a US$ 26,42.

Em Nova York, os contratos futuros da gasolina para janeiro aumentaram 2,66 centavos, chegando a 78,87 centavos por galão, e os contratos para o óleo combustível de aquecimento para janeiro aumentaram 1,37 centavos, chegando a 77,19 centavos o galão.

O ministro do Petróleo da Arábia Saudita, Ali al-Naimi, disse na terça-feira em Londres que a Opep deve concordar em reduzir a sua produção entre 1,5 milhão e dois milhões de barris por dia, segundo a agência Reuters.

Ele chegou após a meia-noite em Viena, mas não quis dar declarações públicas.

Essa redução do atual nível total, que está 13% acima das cotas estabelecidas para o período, ainda significaria que os limites de produção estabelecidos pela Opep aumentariam.

Ao aumentar as cotas entre um milhão e 1,5 milhão de barris diários, a Opep reduziria a lacuna entre produção e volume permitido para comercialização.

A Arábia Saudita, o maior produtor da Opep, tem alegado que a grande disparidade entre a produção real e aquela permitida está prejudicando a credibilidade da organização.

"Atualmente há uma necessidade de redução", teria dito Naimi a Reuters, acrescentando que a maior parte dos países também concorda em aumentar o teto de produção.

Outros membros do grupo têm pouco a dizer sobre o plano.

Chegando a Viena na terça-feira, o ministro do Petróleo da Líbia, Abdulhafid Zlitni, disse somente, "Há vários cenários que serão estudados nesta reunião".

Embora fizesse esses comentários, havia fatos em andamento do outro lado do Atlântico que poderiam mudar inteiramente o cenário relativo à oferta.

Um governo Bush cético está examinando mais de 12 mil páginas de documentos que supostamente trazem detalhes sobre o programa de armamentos de Saddam Hussein. A ameaça de guerra, embora talvez não sendo iminente, continua bem viva.

Na Venezuela, o presidente Hugo Chavez enfrentava na última terça-feira grevistas que exigiam a sua renúncia.

Havia notícias de longas filas nos bancos, já que as pessoas temiam uma retirada generalizada de dinheiro das suas contas, à medida que o impacto da greve geral de nove dias piorava.

Antes da greve, a Venezuela, o maior fornecedor de petróleo dos Estados Unidos, produzia cerca de 2,9 milhões de barris por dia.

"No momento, a Venezuela está mais ou menos fora do mercado", disse John Lichtblau, diretor da Fundação de Pesquisas da Indústria do Petróleo, com sede em Nova York. "Não sabemos quanto tempo essa crise vai durar... Obviamente, não pode durar muito... ou o país vai simplesmente quebrar".

"Se a greve se estender, poderá haver racionamento de petróleo", adverte Lichtblau. E isso poderia obrigar os Estados Unidos a utilizarem o seu estoque emergencial de petróleo, a Reserva Estratégica de Petróleo.

Devido a essas incertezas, muita gente está cética quanto à possibilidade de a Opep exibir nesta quinta-feira a vontade política para realizar cortes significativos na produção.

"A Opep pode simplesmente adiar a questão do realinhamento de cotas até a sua próxima reunião, atualmente marcada para março", observou o analista Erik Kreil, da Administração de Informações sobre Energia, em um relatório divulgado na última segunda-feira. "Atualmente existe suficiente incerteza nos mercados de petróleo... para que a Opep decida adotar uma postura de esperar e ver antes de fazer quaisquer grandes mudanças políticas".

A Opep pode ter menos a se preocupar sobre o segundo trimestre do ano que vem do que temem certos analistas. As reservas de petróleo nas nações industrializadas estão em patamares reduzidos, afirma Kreil, enquanto que o preço do produto continua na média da faixa alvo estabelecida pela Opep.

E, embora a maior economia do mundo, a dos Estados Unidos, pareça estar saindo da recessão, o clima dos negócios continua relativamente fraco. Os membros da Opep se lembram bem da decisão desastrosa, tomada cinco anos atrás, em Jacarta, na Indonésia, no sentido de aumentar as cotas em dois milhões de barris diários à medida que a demanda diminuía. A decisão ajudou a precipitar um desmoronamento dos preços do petróleo que os membros da Opep nunca mais querem presenciar.

A economia dos Estados Unidos deve crescer em cerca de 3% no próximo ano e responder por cerca da metade do crescimento da demanda de 1,4 milhões de barris, segundo a Administração de Informações sobre Energia. Mas os produtores que não são membros da Opep, como a Rússia e outros países da região do Mar Cáspio devem suprir grande parte dessa demanda, segundo a agência.

Porém, nesta semana, os ministros da Opep podem tentar chegar a um acordo sobre algo que podem controlar: as exportações.

Tradução: Danilo Fonseca Houston Chronicle

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