Movimento libertário iraniano merece nosso apoio

Jonathan Gurwitz

O Irã foi até 1979 uma das sociedades mais modernas e ocidentalizadas do Oriente Médio. Mas a revolução que levou ao poder a primeira república islâmica fundamentalista, sob o comando do Aiatolá Ruhollah Khomeini, e concedeu novo ânimo aos extremistas islâmicos em todo o mundo também devolveu a sociedade iraniana à idade das trevas.

Direitos individuais, direitos da mulher, direitos políticos e liberdade religiosa desapareceram após a sharia -- lei religiosa islâmica -- ter suplantado as leis seculares, a substituição dos tribunais civis pelos tribunais religiosos e a ocupação dos postos de juízes e representantes eleitos pelo voto por mulás.

A elite empresarial e política, ao lado de várias outras classes profissionais, fugiu do país. A escassez de médicos, por exemplo, fez com que durante a guerra Irã-Iraque, dentistas e outras pessoas sem qualquer formação médica fossem convocadas para realizar cirurgias de extração de balas em plena linha de combate.

Hoje, após 23 anos sob a opressão do fundamentalismo islâmico, um número crescente de iranianos arrisca suas vidas para protestar contra seu governo. Milhares de pessoas tomaram as ruas nos últimos meses para exigir liberdade e democracia, em manifestações raramente noticiadas no Ocidente. Os atuais protestos e os recorrentes conflitos com a polícia e o Basij -- um corpo de voluntários islâmicos -- acontecem na capital, Teerã, e ainda em outros centros regionais como Isfahan, Tabriz, Shiraz e Mashad.

A causa imediata destas manifestações foi a sentença de morte proferida contra Hashem Aghajari, um professor de história em Teerã que foi condenado por ter blasfemado contra o profeta Maomé ao questionar a autoridade dos tribunais religiosos.

Aghajari militou em defesa de Khomeini em 1979, e perdeu uma perna durante combate contra os iraquianos. Mas sua afirmação de que o programa islâmico seguiu por um mau caminho e sua defesa de reformas hoje o transformam em inimigo do regime.

Aghajari se nega a recorrer da sentença de morte, e desafia o governo do presidente Mohammed Khatami a executá-lo. As primeiras manifestações de alunos de Aghajari se alastraram por todas as universidades do Irã e passaram a contar com o apoio da população iraniana relegada à pobreza e à miséria pelos clérigos fundamentalistas.

Por causa das manifestações, o Aiatolá Ali Khamenei, sucessor de Khomeini e atual líder supremo do Irã, solicitou a revisão da sentença de Aghajari.

Embora o regime islâmico tenha insistido em disseminar a idéia de que os Estados Unidos seriam o "Grande Satã", uma pesquisa realizada por um instituto oficial de pesquisas no último mês revelou que 75% dos iranianos desejam melhores relações com o governo americano. Esta mesma pesquisa revela que o Aiatolá Khamenei é uma das figuras públicas mais impopulares do país. O chefe do instituto e o editor de um jornal que cometeram o equívoco de divulgar a pesquisa acabaram presos.

Este combate à dissidência representa a resposta mais imediata aos protestos. Detenções sumárias, enforcamentos públicos, apedrejamentos e torturas são cada vez mais freqüentes. Além da repressão, o outro método empregado pelos mulás consiste em desviar as atenções para o exterior. Israel e Estados Unidos são os alvos preferenciais.

O Hezbollah tem armazenado armas iranianas no sul do Líbano, região próxima à fronteira com Israel. O grupo terrorista, cujo nome significa "Partido de Deus", já possui um incentivo para atacar Israel e lançar o país em um conflito militar direto contra o Líbano. Seria aberta desta maneira uma segunda frente de apoio aos militantes palestinos e uma frente de mobilização do mundo árabe e islâmico contra os Estados Unidos. Caso os mulás de Teerã se sintam ameaçados pelo protesto, terão razões mais fortes para instigar o Hezbollah a agredir Israel.

Os críticos da política externa dos Estados Unidos censuram corretamente a tendência americana de apoiar sempre o status quo, contrariando o senso comum e princípios morais. Saddam Hussein, por exemplo, era um criminoso bem antes que invadisse o Kuait em 1990. Mas somente a invasão e a ameaça contra a Arábia Saudita, o atual regime do status quo na região, impulsionou uma mudança da política adotada pelo Departamento de Estado.

Se nos dispomos a iniciar uma guerra para retirar Saddam do poder, conceder apoio moral às pessoas que arriscam suas vidas para se opor aos mulás ensandecidos e defender a democracia no Irã seria o mínimo que se deveria esperar dos Estados Unidos.

Tradução: André Medina Carone San Antonio Express News

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