George Clooney estréia na direção em"Confissões de uma Mente Perigosa"

Bob Strauss
The New York Times News Service

AFP
George Clooney prova que é um diretor de considerável talento, e Sam Rockwell nos mostra que é um ator de primeira classe com o filme "Confessions of a Dangerous Mind" ["Confissões de Uma Mente Perigosa"].

Charlie Kaufman, que escreveu o roteiro com base na nada confiável autobiografia de Chuck Barris, não tinha nada a provar, mas confirma que o cérebro que surgiu com as idéias de "Adaptation" e "Being John Malkovich" conta mesmo com todos os recursos que já presumíamos.

Para aqueles que ainda não sabem, Barris é um visionário dos programas de televisão de baixa categoria que concebeu atrações como "The Dating Game" ["Namoro na TV"] "The Newlywed Game" ["Jogo dos Recém-Casados"] e "The Gong Show" (um programa de calouros), tendo também trabalhado como apresentador deste último.

Personalidade o mais desagradável e mercenária imaginável, o Barris que Rockwell recria nas telas na verdade se revela um sujeito que exibe até uma certa classe, se comparado à poluição que surgiu nas telas seguindo seu rastro. Pelo menos ele tinha um senso de ironia relativamente sofisticado, já que colocava os idiotas na máquina de fazer idiotas. A teoria por trás do programa "The Newlywed Game" -a de que qualquer norte-americano venderia seu cônjuge por uma lavadora e secadora ou um cortador de grama- é só um de seus muitos aforismos sábios.

A mais gritante indicação do gênio de Barris no que tange à exploração é seu livro de 1980, no qual ele não só recapitula suas contribuições à cultura pop e se desculpa por elas como alega que ao longo de todo esse período ele trabalhava clandestinamente como assassino para a Agência Central de Inteligência (CIA) dos Estados Unidos. Clooney aceita as alegações exageradas do apresentador como se fossem verdade em seu filme, e emprega a improbabilidade de seu tom como uma espécie de guia estético para o trabalho.

Portanto, embora o diretor, o diretor de fotografia Newton Thomas Sigel (que trabalhou com Clooney no filme "Three Kings" - "Três Reis") e a figurinista Renee April brilhantemente recapturam o aspecto de um país visualmente definido pela televisão nos anos 50, 60 e 70, o filme também adota um surrealismo barato muito envolvente. O espião Chuck atinge pessoas (e não no sentido que a televisão dá ao termo) no México, saltita de um lado para outro da Cortina de Ferro (enquanto "segura a vela" para casais despercebidos que ganharam viagens em seu programa) e negocia as curvas de uma femme fatale muito especial (Julia Roberts, vestida para matar).

É um espetáculo incansavelmente alucinado, e às vezes sugere que por trás do filme temos um diretor estreante se esforçando demais por impressionar. Por exemplo, todo o material rodado para o filme foi manipulado por uma fase digital intermediária, o que pode gerar uma aparência diferente, mas, ainda, assim, para quê?

Clooney sustenta uma visão de soberba inteligência mesmo em meio aos seus saltos estilísticos mais exagerados. Quaisquer que sejam as camadas de fantasia e realidade, flashbacks ou alucinações que surjam na cena na qual ele está trabalhando, a linha narrativa do filme jamais se perde ou confunde.

O filme troca sua maluquice animadinha por uma escuridão depressiva na terceira parte, e esse trecho se alonga talvez um pouco demais. No entanto, é um desdobramento fiel às necessidades da história e do personagem, e só se pode aplaudir Clooney pela integridade que ele demonstra ao seguir essa linha de trabalho.

E o mesmo vale para Rockwell, que interpreta Barris persuasivamente ao longo de 30 anos de sua vida, e consegue o milagre de tornar um personagem completamente egoísta em alguém não só simpático como em um homem com quem os telespectadores podem se identificar.

Rockwell, um ator jovem e sem muito destaque que os leitores talvez tenham visto em "As Panteras", "Galaxy Quest" ou "Á Espera de um Milagre", nos conduz ao interior da cabeça de Rockwell, nos faz perceber sua ambição, nos torna cúmplices de sua amoralidade e amargura nossos pensamentos com a culpa que ele sente, sem nunca deixar de exibir a falta de escrúpulos que caracteriza o personagem. Isso talvez não o torne o protagonista mais simpático ou admirável do cinema, mas com certeza cuida do trabalho que o filme propõe. Todos desejamos que Barris tenha sucesso e torcemos por sua felicidade.

Embora ninguém o considere um ator excepcional, Clooney faz o esperado ao se tornar diretor e obtém bons desempenhos de todo o elenco -começando consigo mesmo, como o severo contato de Barris na CIA, Drew Barrymore, que permite que seu talento cômico floresça no papel de Penny, a namorada hippie de Barris, um espírito livre que, embora muito tolerante, se recusa a ser um capacho para o grande homem. E Rutger Hauer (lembram-se dele?) surge inesperadamente convincente como um espião que volta do frio e descobre que o aquecimento foi desligado também do seu lado da cortina.

Outra das metamaravilhas de Kaufman, "Confessions of a Dangerous Mind" tem todo o humor, os jogos de referências e a criatividade generalizada que esperamos de um roteiro de Kaufman.

Mas é igualmente uma estréia na direção que indica, e quase sempre demonstra, uma promessa considerável vinda de uma fonte até surpreendente. E o trabalho oferece a um ator de talento a chance de demonstrar todo seu talento, não importa o que um filme louco e avesso a compromissos como esse possa fazer a uma carreira.

Em resumo, o enérgico e divertido filme de estréia de Clooney na direção nos leva à imaginação alucinada de Chuck Barris, criador do "Gong Show" e assassino profissional da CIA (segundo ele diz). Diversão inteligente via distorção da realidade.

Ficha Técnica:

Diretor: George Clooney. Com: Sam Rockwell, Drew Barrymore, George Clooney, Julia Roberts, Rutger Hauer. Censura R (para maiores): violência, nudez, sexo, palavrões, uso de drogas) Duração: 1h55

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