Iraque atribui câncer a armas de urânio americanas

Robert Collier

BAGDÁ -- Alguma coisa está matando as crianças numa ala do Hospital Infantil
Al Mansour, em Bagdá, que apesar disso está sempre cheia de pequenos
agonizantes. O dr. Emad Wisam acompanhou um visitante pelos corredores do
hospital no último fim de semana, parando rapidamente junto às camas de seus
pequenos pacientes para confortá-los.

Depois de verificar Nur Badullah, de 5 anos, que tem um tumor na garganta,
Wisam virou-se com um olhar de tristeza. "Ele vai morrer logo", disse. "A
maioria dessas crianças vai morrer. E não há quase nada que possamos fazer".

O Iraque experimentou um aumento drástico nos casos de câncer infantil,
leucemia e defeitos congênitos nos últimos anos. Wisam, as autoridades
médicas iraquianas e um número crescente de ativistas americanos atribuem a
culpa às armas americanas contendo urânio empobrecido que foram usadas na
Guerra do Golfo em 1991 e nos ataques de mísseis em 1998 contra Bagdá e
outras grandes cidades. Eles também afirmam que essas munições -que foram
igualmente usadas por forças americanas na Bósnia, em Kosovo e na Sérvia em
quantidades bem menores- podem ser a causa das doenças da Guerra do Golfo,
que afetaram entre 50 mil e 80 mil veteranos americanos do conflito em 1991.

O Pentágono diz que estudos patrocinados pelo órgão não encontraram
evidências de que o urânio empobrecido, conhecido como DU, cause doenças
graves, enquanto muitos especialistas médicos internacionais continuam em
cima do muro, citando a falta de evidências científicas definitivas sobre o
assunto.

Mas, com a probabilidade de utilização de armas de DU pelos americanos no
caso de uma nova guerra com o Iraque, a polêmica está sendo reativada.

O urânio empobrecido é o dejeto com baixo nível de radioatividade que sobra
da fabricação de combustível e bombas nucleares. Ele é usado em projéteis e
mísseis pelos Estados Unidos, Grã-Bretanha, Rússia e vários outros
países -mas, segundo todos os indícios, não pelo Iraque.

Peritos militares consideram o DU um material de eficácia quase mágica. O DU
é 1,7 vezes mais denso que o chumbo, e quando uma arma feita com uma ponta
ou núcleo de DU atinge a lateral de um tanque ou bunker, ela o perfura e
irrompe em uma nuvem radioativa causticante. Além disso, a blindagem feita
de DU parece tornar os tanques muito menos vulneráveis no campo de batalha.

Durante a Guerra do Golfo, aviões e tanques americanos dispararam munições
contendo 320 toneladas de DU. Segundo estatísticas do Iraque, o recente
aumento dos problemas de saúde no país se concentra nas áreas que sofreram o
grosso dos ataques americanos: Bagdá, a cidade portuária de Basra, no sul, e
as cidades meridionais de Mosul e Kirkuk.

Não há registro de problemas semelhantes no Kuwait, onde o DU também foi
usado, porque essas armas foram empregadas principalmente longe dos centros
populacionais e porque após a guerra o Kuwait realizou uma abrangente e bem
financiada limpeza de munições gastas e detritos de combate.

Entre as crianças do Iraque o número de casos de câncer aumentou cinco vezes
desde 1990, e os defeitos congênitos e a leucemia triplicaram, segundo
autoridades de saúde. Os índices de câncer totais entre os iraquianos
aumentaram 38%, diz o governo. "Existem milhares de casos de intoxicação por
DU no Iraque causada por americanos e britânicos", disse o ministro da
Saúde, dr. Omeid Mobarik.

O "Wall Street Journal" relatou no início deste mês que setores das forças
militares americanas estão procurando alternativas para o DU, mas as
autoridades se recusam a dizer publicamente se as armas de DU serão usadas
em uma nova guerra contra o Iraque. A porta-voz do Departamento de Defesa,
Barbara Goodno, admitiu: "O urânio empobrecido é um componente importante do
arsenal americano".

"Apesar de ter sido usado freqüentemente [durante a Guerra do Golfo], muitas
vezes de curta distância, por tanques iraquianos e armas antiblindagem", ela
acrescentou, "nenhum tanque americano protegido por blindagem de DU foi
penetrado ou derrubado por fogo inimigo."

Especialistas dizem que a vantagem da tecnologia de DU é eficaz demais para
se desprezar. "Assim, certamente os Estados Unidos vão usá-lo", disse John
Eldridge, editor do prestigioso livro "Jane's Nuclear, Biological and
Chemical Defense".

Christopher Helman, um experiente analista do Centro para Informações de
Defesa, em Washington, disse que os planejadores militares americanos e
britânicos provavelmente serão mais influenciados pela eficácia do DU do que
por possíveis preocupações de saúde.

"A visão deles é muito simples", disse Helman. "Isto é uma guerra, e um
tanque inimigo destruído é menos perigoso que um disparando contra você,
sejam quais forem os efeitos residuais do DU."

Mas há um forte debate sobre quais poderiam ser esses efeitos para a saúde.
Oficiais do Pentágono negam quaisquer ligações com civis iraquianos ou
veteranos da Guerra do Golfo. Eles rejeitam os relatos iraquianos de aumento
de câncer, defeitos congênitos e leucemia, dizendo que seus números
anteriores a 1990 são inconfiáveis.

Eles apontam especialmente para uma análise da literatura científica sobre
câncer e DU financiada pelo Pentágono e realizada pela Rand Corporation em
1999. Ela concluiu que não havia ligação. Estudos preliminares da
Organização Mundial de Saúde e da Comunidade Européia também não encontraram
ligação. Mas o relatório da Rand, que se baseia principalmente em pesquisas
sobre os efeitos relativamente brandos do urânio convencional, admite que
"poucos estudos até hoje ... se concentraram diretamente no DU".

Enquanto a Administração de Veteranos conduziu estudos limitados com alguns
veteranos expostos ao DU e não encontrou ligações com doenças graves,
ativistas americanos salientam que nenhum dos estudos publicados testou um
grande número de americanos ou iraquianos doentes que foram expostos ao DU.
Os militares americanos realizaram vários desses estudos, que continuam
secretos. Os militares iraquianos se recusam a comentar se seus veteranos
sofreram doenças ligadas à Guerra do Golfo.

Um americano com a experiência pessoal do DU é Doug Rokke, ex-diretor do
Projeto de Urânio Empobrecido do exército americano. Ele chefiou uma equipe
de cerca de cem soldados que examinaram e limparam tanques iraquianos e
veículos americanos atingidos por projéteis de DU durante a Guerra do Golfo.
O trabalho foi terrível -as explosões de DU queimavam tanto os soldados
dentro dos tanques que as equipes os chamavam de "crocantes".

Os membros da equipe, desinformados sobre o perigo dos resíduos de DU,
também foram contaminados. A maioria sofreu graves problemas de saúde nos
anos seguintes, e "demasiados" morreram, diz Rokke, segundo o qual ele não
dá um número exato devido à dificuldade de se provar uma ligação direta com
a exposição ao DU.

Rokke, que é Ph.D. em física e até recentemente lecionava na Universidade
Estadual de Jacksonville no Alabama, diz que tem "5 mil vezes o nível de
radiação recomendado" em seu corpo, e considera os problemas de saúde dos
moradores do sul do Iraque e de seus colegas "uma conseqüência direta" da
exposição ao DU.

Em uma entrevista no sábado, Rokke disse sobre sua própria saúde: "Estou um
lixo". Segundo ele, oficiais do Pentágono costumam dizer a ele e a outros
que foram contaminados no Golfo que os elevados níveis de urânio em seus
corpos são "apenas causados por suas dietas".

Mas organizações fora dos Estados Unidos têm criticado as munições de DU:

- Em 1999 o Parlamento Europeu votou a favor de exigir que a Otan
suspendesse o uso de munições de DU até saírem os resultados de um estudo
independente. O pedido foi ignorado.

- Em agosto passado a subcomissão da ONU sobre Promoção e Proteção de
Direitos Humanos autorizou um estudo sobre os perigos do DU, que o painel já
tinha rotulado como arma de destruição maciça. A medida -apesar das objeções
dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha- foi uma vitória significativa de Karen
Parker, uma advogada de San Francisco que trabalha com o Projeto
Internacional de Desenvolvimento Educacional/Direito Humanitário e faz
campanha contra o DU há vários anos.

- Um estudo de 1991 da Autoridade de Energia Atômica britânica descobriu que
o uso de armas de DU na Guerra do Golfo poderia eventualmente causar 500 mil
"mortes potenciais de câncer". O relatório foi omitido pelo governo
britânico até 1998.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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