Nutricionistas culpam a indústria de alimentos pelo problema da obesidade

Don Finley
San Antonio Express-News


San Antonio - Marion Nestle emprega algo mais do que a simples aritmética para explicar a crescente epidemia de obesidade que atinge os Estados Unidos: a indústria de alimentos produz aproximadamente 3.800 calorias por dia para cada homem, mulher e criança do país. Isso representa aproximadamente o dobro do que é necessário para a manutenção de um peso saudável.

"Com tanta comida assim disponível nos estoques de alimentos da nação, as empresas de alimentação precisam competir para conquistar a porção calórica do dólares norte-americanos gastos no setor", afirma Nestle, autora do livro "Food Politics" ("Política de Alimentos"), uma análise crua da forma como a indústria de alimentos utiliza seu poder e influência para moldar a política nutricional do país. "Cada indústria específica quer que devoremos as calorias que oferecem, e não aquelas oferecidas por uma outra. Também é uma meta dessas empresas fazer com que a população consuma mais calorias."

Assim, essas companhias investem mais de US$ 30 bilhões por ano (cerca de R$ 108,6 bilhões) na venda de seus produtos, sem contar aquilo que gastam fazendo lobby junto ao governo para obterem políticas favoráveis e apoio.

"Isso, creio eu, é a raiz do problema", disse Nestle na última sexta-feira, em uma conferência sobre obesidade patrocinada pelo Departamento de Saúde do Texas e pela Associação de Saúde Pública do Texas.

Basta dar uma olhada na famosa pirâmide nutricional de alimentos do governo para descobrir o que a população está realmente comendo - muita gordura e açúcar e poucas frutas e vegetais - e isso reflete a proporção de dólares gastos com a propaganda desses produtos, diz Nestle.

O resultado disso é que a campanha patrocinada pelo governo e pelas indústrias para estimular a população a consumir cinco refeições diárias compostas por frutas e vegetais conta, no seu auge, com apenas um quinto do orçamento anual para a propaganda de um único produto açucarado: as pastilhas Altoids.

"Quando ouço alguém dizer que a educação nutricional não funciona, que os programas governamentais são inúteis, respondo que ninguém investe quantias decentes nessas iniciativas", afirma.

Nestle, chefe do departamento de nutrição da Universidade de Nova York, vem falando sobre o problema há algum tempo. Tendo sido editora do Relatório Federal de Nutrição e Saúde de 1988, ela já fez parte de vários comitês de assessoramento governamental sobre esses tópicos antes de escrever "Food Politics" (Editora University of California Press, 469 páginas).

Mas ela também é alvo de críticas. A indústria de açúcar ameaçou processa-la. Um artigo publicado na revista conservadora "National Review", no ano passado, a descreve como "a mais recente acadêmica liberal... procurando controlar tudo aquilo que comemos para o nosso próprio bem". O site patrocinado pela indústria, www.comsumerfreedom.com, descreve o seu trabalho como "uma diatribe anti-alimentos" e "propaganda".


Tradução: Danilo Fonseca

UOL Cursos Online

Todos os cursos