Quimioterapia não é pior do que o câncer

Carol Smith
Seattle Post-Intelligencer


Seattle - Sofrer de câncer já é muito penoso.

Receber o tratamento não deveria ser algo que tornasse as coisas mais difíceis para o paciente. Mas para uma pequena percentagem dos pacientes, a quimioterapia é mais terrível do que a doença em si, causando falência de órgãos ou até mesmo a morte.

Não se trata apenas de uma loteria de azar que determina quais pacientes reagirão mal à quimioterapia. Existem diferenças biológicas entre eles que, assim que fossem mais bem compreendidas, poderiam ajudar os médicos a elaborar "regimes de quimioterapia individualizados" para os enfermos e eliminar as mortes induzidas pelo tratamento.

É esse o objetivo de George McDonald, um cientista do Centro Fred Hutchinson de Pesquisa do Câncer que, juntamente com uma equipe de colegas, publicou recentemente um trabalho que define um significativo primeiro passo de tal estratégia.

Desde a década de 50, as doses de quimioterapia foram determinadas de uma maneira relativamente grosseira. "O médico aumentava a dose até que a toxidez ficasse muito elevada ou não surgisse nenhuma evidência de benefícios para o paciente", explica McDonald. "Os médicos aumentavam e diminuíam a dose até que curassem grande parte do câncer, evitando porém que o paciente pagasse esse tratamento com a vida".

Mas alguns pacientes ainda assim morriam, ainda que recebessem doses que eram toleradas por vários outros enfermos. E alguns ficaram significativamente mais doentes que outros.

Kathleen Summers não morreu, mas quase cinco anos após receber tratamento para leucemia, ela ainda se recupera dos efeitos da quimioterapia, e precisa tomar precauções com relação ao seu fígado.

Summers, atualmente com 34 anos, descobriu que tinha leucemia no mesmo telefonema que confirmou que estava grávida. Essa moradora de Woodinville, Estado de Washington, esperou para fazer o tratamento até que desse a luz ao seu filho. A seguir, apenas alguns dias após ter se recuperado de uma operação cesariana, começou a fazer um regime intensivo em preparação para um transplante de medula óssea.

"Durante um período de quatro dias fui soterrada com quimioterapia e radiação", conta ela. "Senti como se houvessem fritado completamente o meu cérebro e minhas entranhas".

Em um momento particularmente assustador, o seu corpo começou a desistir da luta. "Tudo parou de funcionar", lembra Summers. "Não estava mais respirando e tinha convulsões".

No entanto, Summers é grata. Todos os pacientes que estavam no seu pavilhão morreram, do câncer ou do tratamento. Ela prometeu fazer algo para aumentar as chances de outros doentes. Summers foi um dos 147 pacientes que participaram da pesquisa de McDonald para determinar como as pessoas reagem diferentemente à quimioterapia.

"Temos seguido tal procedimento por 30 anos", diz McDonald. "E mesmo com uma receita bem elaborada, entre 10 e 15% dos pacientes sofrem danos aos órgãos".

Como hematologista, McDonad dedicou a sua carreira clínica ao estudo daquilo que acontece aos pacientes após o tratamento feito por oncologistas.

No entanto, uma observação fortuita de um tubo de ensaio levou McDonald e seus colegas a sonharem com uma nova abordagem para o problema.

Laurie DeLeve, da Universidade do Sul da Califórnia, uma velha amiga de McDonald, estava procurando determinar como o Cytoxan, uma das drogas quimioterápicas mais antigas e mais amplamente utilizadas, afetava as células hepáticas em tubos de ensaio.

Durante décadas os médicos acreditaram que o Cytoxan não causava mal ao fígado. A droga em si não é tóxica, mas é fragmentada no fígado em vários componentes, um dos quais possui efeito anti-cancerígeno. Esse componente ativo destrói o DNA de células cancerígenas, e é assim que funciona a quimioterapia.

Mas no processo de fragmentar a droga que produz o componente ativo, o fígado cria também um outro subproduto, este sim tóxico para uma célula especializada que reveste partes do fígado.

"Um fígado é como uma esponja, com buracos e sangue que circula por esses orifícios", explica. Os orifícios são revestidos por células endoteliais.

Quando DeLeve colocou o Cytoxan em um tubo de ensaio com célula do fígado, nada de mal aconteceu. Mas quando adicionou a substância a células do fígado e endoteliais, algo atacou e destruiu estas últimas.

Esse foi um dos primeiros indicadores de que a fragmentação do Cytoxan pelas células do fígado estava criando algum produto final que poderia causar danos ao órgão, conta McDonald.

E, o mais importante, isso foi uma pista que poderia modificar a maneira como eram administradas as drogas de combate ao câncer.

"A forma como um indivíduo metaboliza (a droga) é um claro indicador da possibilidade de tal pessoa estar no grupo de 10 a 15% da população doente que sofrerá danos no órgão", afirma.

A pesquisa de McDonald, publicada na edição deste mês da revista "Blood", da Sociedade Americana de Hematologia, demonstrou que houve uma ampla gama de maneiras como os indivíduos estudados metabolizaram a mesma dose da droga e que tal diferença refletiu quem veio a falecer.

"Se um indivíduo é um grande gerador de toxinas, o seu risco de morrer é seis vezes maior", diz ele. No estudo inicial, por exemplo, 15 dos 147 pacientes morreram de complicações relacionadas ao tratamento, mas não se sabia à época quem entre eles corria riscos.

"A forma como cada pessoa metaboliza a droga é um fator crítico", explica.

Os pesquisadores estão utilizando agora novos dados para tentar deduzir uma fórmula para a administração da dose mais alta possível que implique em menor possibilidade de danos aos órgãos. As doses quimioterápicas anteriores ao transplante de medula ou de células-tronco são normalmente divididas em duas partes iguais. Mas McDonald pretende testar se o fato de ajustar a segunda dose, com base na resposta do organismo à primeira, ajudará os pacientes a tolerar melhor o tratamento.

A esperança é que uma abordagem personalizada possa reduzir as mortes durante o tratamento em até 20%, diz McDonald.

De fato, a personalização da forma de administrar as drogas é um tópico bastante discutido atualmente nos círculos médicos, diz John Slattery, professor de farmácia da Universidade de Washington.

"A questão do entendimento da diferente disposição das drogas no corpo é extremamente importante em termos de se otimizar a terapia", diz ele.

Porém, para o futuro pode haver uma abordagem potencial ainda mais notável. Caso os cientistas descubram como a genética determina as diferenças individuais, eles poderão ser capazes de elaborar um teste genético que informaria antecipadamente quem não reagiria bem à quimioterapia.

O Instituto Nacional do Câncer acabou de financiar ume estudo para "responder a questão: Essa grande variação de metabolismos se deve a diferenças genéticas?", diz McDonald. "Vamos partir para uma caçada aos genes".


Tradução: Danilo Fonseca

UOL Cursos Online

Todos os cursos