Exército americano reflete uma nação de imigrantes

Enrique Rangel
San Antonio Express-News


San Antonio (EUA) - Jose Angel Garibay e Jose Gutierrez fizeram o sacrifício supremo pelos Estados Unidos. Os dois soldados estão entre os primeiros na lista de mortos desta guerra contra o Iraque que a América vem travando desde 20 de março.

De maneira geral, a morte desses dois jovens, de 21 anos e 22 anos respectivamente, não constituiria um caso incomum em tempo de guerra. Afinal, os hispânicos estão fortemente representados nas forças armadas, e as baixas refletem habitualmente a configuração étnica do exército.

O que torna a morte de Garibay e Gutierrez um caso diferente é que ambos nasceram em outros países - o primeiro no México, o segundo no Guatemala.

Se a guerra contra o Iraque se revelar mais longa do que o previsto e se a quantidade de baixas refletir a intensidade do conflito, ouviremos muitas outras histórias semelhantes às que ocorreram com Garibay e Gutierrez. De fato, o sargento do Exército Rodrigo Gonzalez Garza, 26 anos, de San Antonio (Texas), nascido em Sabinas Hidalgo, no México, foi morto antes mesmo do início oficial das hostilidades, durante um acidente de treino no Kuait.

Embora a maioria dos hispânicos que servem no exército tenha nascido nos Estados Unidos, um grande número entre eles é de imigrantes. Alguns deles, assim como é o caso com Gutierrez, são recrutas recém-admitidas.

Estes imigrantes nunca obtiveram o reconhecimento que merecem. Afinal, hispânicos nascidos no exterior têm lutado no nosso exército em cada um dos conflitos envolvendo os Estados Unidos, pelo menos desde a segunda Guerra Mundial.

Durante a guerra do Vietnã, contaram-me inúmeras histórias sobre um grande número de imigrantes do México que foram recrutados e então enviados para o Sudeste asiático. Entre eles estava o meu camarada de colégio, Mario Márquez, e os meus colegas de faculdade, Jesus Gutierrez e Hector Nava.

Assim como muitos outros imigrantes que serviram no exército americano, Gutierrez, Marquez e Nava nem sequer refletiram sobre o que eles estavam fazendo quando se alistaram. Eles sabiam que os imigrantes com idade para ser admitidos no exército podiam ser escolhidos para o combate, assim como ocorre com a maioria dos cidadãos norte-americanos. Esses três rapazes tiveram sorte o bastante para voltar vivos do Vietnã. Alguns dos seus colegas imigrantes hispânicos não tiveram o mesmo destino.

Embora os Estados Unidos tivessem abolido o recrutamento obrigatório para o Exército em 1973, muitos imigrantes latinos continuaram a se alistar pelas mais diversas razões, principalmente porque eles queriam servir o seu novo país. E ninguém se surpreende com o fato de que os imigrantes que servem nas Forças Armadas americanas façam estudos para concorrer à cidadania americana, que eles acabam adquirindo apenas três anos depois de terem sido admitidos a viver nos Estados Unidos, em vez dos cinco anos obrigatórios que a média dos imigrantes legais precisa esperar.

Independentemente das razões que os levam a se alistar, o exército americano recruta milhares de imigrantes legais todos os anos, os chamados detentores do cartão verde ("green card"). Só no ano de 2001, especialmente nos dias que se seguiram aos atentados terroristas de 11 de setembro daquele ano, mais de 18 mil imigrantes, muitos dos quais eram hispânicos, alistaram-se, passando a representar mais de 4% dos homens e mulheres em uniforme, segundo informações do departamento de Defesa dos Estados Unidos.

É por isso que, a partir do ano passado, das 3.458 medalhas de honra outorgadas pelas Forças Armadas, 736, isto é, mais de 21% do total, foram atribuídas a soldados nascidos no exterior. Obviamente, nem todos eram hispânicos, mas teria sido uma barbada apostar que um grande número destes bravos soldados tinha nascido num país de língua espanhola.

Os Estados Unidos são uma nação de imigrantes. De fato, segundo o Centro Americano de Recenseamento, em 2000, um em cada cinco americanos ou era nascido no exterior, ou tinha pelo menos um parente nascido no exterior. Além disso, os hispânicos formam agora a minoria mais importante neste país.

Isso explica por que não surpreende o fato de que soldados como Garibay, Gutierrez e Gonzalez tenham morrido por esta nação. O que surpreende, contudo, é que este grupo de imigrantes não tenha obtido até agora o reconhecimento que ele merece.


Tradução: Jean-Yves de Neufville

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