Famílias de bebês prejudicados por remédio tentam obter registros médicos de hospitais

Toni Heinzl
DE FORT WORTH, Texas

Tudo o que restou a Jacque Gibson White com relação à sua filha, Rachel, foram as lembranças. Lembranças dolorosas de quando acariciava a cabeça do bebê e segurava as suas mãozinhas, todos os dias, no decorrer das suas quatro curtas semanas de vida, passadas em uma unidade de terapia intensiva para recém-nascidos no Centro de Medicina Infantil Cook.

Rachel Eskew era a sua única filha.

Nascida prematuramente, ela tinha dificuldades para respirar. Mas Rachel era uma lutadora. Em 25 de fevereiro de 1984, três dias após ter nascido, os médicos disseram que as suas chances de sobrevivência eram de 85%. White anotou esse prognóstico no seu diário.

Porém, o estado de Rachel piorou subitamente. Ela morreu em 20 de março de 1984. Os médicos disseram inicialmente a White que a causa da morte foi insuficiência renal e cardíaca, sem razão específica.

Dois anos depois, o hospital descobriu que Rachel foi um entre dezenas de bebês prematuros dos Estados Unidos que morreram após receberem a Solução Aquosa E-Ferol, uma solução de vitamina E para aplicação intravenosa, administrada com o objetivo de ajudar a prevenir a cegueira. Mas o hospital não comunicou o fato a White. Na verdade, ela só saberia qual foi o motivo da morte da filha 11 anos depois.

Muitos outros hospitais, talvez devido ao temor de serem alvos de processos milionários na Justiça, também não avisaram às famílias sobre o vínculo potencial entre as mortes ou incapacitações dos seus bebês e a administração do E-Ferol, que foi comercializado sem a aprovação da Administração de Alimentos e Remédios (FDA, na sigla em inglês).

Agora, há uma ação em andamento na Justiça Federal para obrigar os hospitais a revelar esse vínculo. O que está em discussão é saber se os hospitais devem ou não avisar ex-pacientes ou suas famílias ao descobrirem que algum aspecto do tratamento que dispensaram podem lhes ter causado dano.

Para o Centro de Medicina Infantil Cook, uma notificação feita pelo hospital violaria o pacto de confidencialidade entre médico e paciente. Outros hospitais adotaram a política de notificar os pacientes ou suas famílias naqueles casos em que os médicos do hospital garantem que erros médicos ou farmacêuticos causaram sérios danos de saúde ou a morte. O advogado de White afirma que essa política deveria ser obrigatória para todos os hospitais.

Nos casos que envolveram o E-Ferol, o problema relativo à notificação tem sido tratado com urgência porque o tempo está se esgotando para que os pais e pacientes que sobreviveram possam processar as corporações que fabricaram e venderam o E-Ferol e os hospitais que o ministraram.

O estatuto de limitações nos tribunais estaduais expira 20 anos após os bebês terem ficado enfermos ou morrido. A droga foi recolhida do mercado em 11 de abril de 1984, quando os casos de mortes de bebês se multiplicavam por todo o país.

A tragédia do E-Ferol resultou em processos criminais contra os diretores de corporações. Três executivos de duas companhias que fabricaram e venderam a droga foram acusados por fraude, falsificação e venda de uma substância perigosa não aprovada. Eles foram condenados a cumprir seis meses de prisão em uma penitenciária federal.

A indignação com as mortes gerou comissões de inquérito no Congresso que expuseram as deficiências do sistema nacional de regulamentações de drogas farmacêuticas.

Mas nunca se soube ao certo quantas mortes ou danos à saúde de bebês prematuros foram causados pela droga. Relatórios da FDA indicam que a substância foi ministrada a mais de mil bebês em mais de 100 hospitais. Com base em informações fornecidas pelos hospitais, a FDA relatou que pelo menos 38 bebês morreram, entre os cerca de cem que tiveram reações adversas como cegueira ou danos aos rins, fígado ou cérebro.

Em alguns casos não foram realizadas autópsias, já que os médicos afirmaram que a morte fora causada pela prematuridade ou por problemas a ela relacionados, como pulmões pouco desenvolvidos.

Essa foi a posição assumida por alguns hospitais que se negam a revelar os nomes dos bebês que receberam o E-Ferol.

Carolyn Bobo, porta-voz do Centro de Medicina Infantil Cook, não quis fazer comentários a respeito de qualquer caso específico. Ela preferiu dar a seguinte declaração:

"Em 1984, os neonatologistas do Centro de Medicina Infantil Cook trataram de vários bebês cujas famílias mais tarde se envolveram em litígios relacionados ao uso do E-Ferol, uma droga utilizada para o tratamento de bebês extremamente prematuros. Os neonatologistas seguiram linhas de tratamento padrão para esses bebês. A FDA avisou a médicos e hospitais de todos os Estados Unidos que o E-Ferol deveria ser retirado do mercado. Os Neonatologistas do Centro de Medicina Infantil Cook cessaram imediatamente de usar a droga. O depoimento dos médicos indica claramente que esses bebês sofreram de prematuridade acentuada e de complicações relacionadas à extrema prematuridade, e que o uso de E-Ferol não se constituiu em um fator significante no que diz respeito aos cuidados que receberam, às suas condições de saúde e à sua sobrevivência no Centro de Medicina Infantil Cook". Danilo Fonseca

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