Powell pede maior atuação da Otan no Iraque

Christopher Marquis

Bruxelas, Bélgica - O secretário de Estado dos EUA, Colin L. Powell, pediu na quinta-feira (04/11) que a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) avalie a possibilidade de expandir as suas atividades no Iraque. Esse foi o apelo mais direto do governo Bush por ajuda internacional desde o início da guerra, no segundo trimestre deste ano.

Powell não chegou a dirigir um pedido específico à Otan. Ele apresentou a proposta como uma idéia que mereceria ser discutida. O secretário também pediu um papel "mais vigoroso" da Organização das Nações Unidas (ONU) no Iraque.

Ministros da organização militar, da qual fazem parte 26 nações - algumas das quais se opuseram veementemente à guerra que derrubou o governo iraquiano -, reagiram com frieza à proposta, e alguns deles chegaram a sugerir que a Otan já está sobrecarregada com as operações no Afeganistão. Mas nenhum deles teria se oposto diretamente à idéia.

A discussão, ocorrida em uma reunião normal de diplomatas da Otan, foi a indicação mais clara até o momento de que o governo Bush deseja dividir os custos e os sacrifícios da reconstrução do Iraque com parceiros internacionais, ainda que isso signifique que Washington tenha que abrir mão de parte do controle operacional.

Sabendo que têm até julho para transferir a administração do país a um governo interino, segundo um prazo que os próprios norte-americanos impuseram, as autoridades de Washington parecem ansiosas para conferir uma maior legitimidade internacional às suas ações, em um momento em que enfrentam desafios políticos e ataques da resistência iraquiana.

O governo está avaliando a situação após uma série de ataques devastadores contra os aliados que apoiaram os Estados Unidos no Iraque, que recentemente causaram baixas a Itália, Reino Unido, Turquia, Espanha e Japão. Todos esses governos disseram que não vão deixar de apoiar a ocupação norte-americana, embora o repúdio popular à ação militar esteja aumentando nesses países.

"Os Estados Unidos querem um papel mais amplo da Otan na estabilização do Iraque", disse Powell aos seus colegas em um discurso na sede da organização, em Bruxelas. "Queremos também uma atuação mais vigorosa da Organização das Nações Unidas".

Ressaltando que os Estados Unidos já aprovaram uma resolução que encoraja a participação de grupos multilaterais e regionais na reconstrução do Iraque, Powell pressionou os ministros para que se preparem para agir por volta de junho do ano que vem, quando os chefes de Estado da Otan se reunirão na Turquia.

"À medida que nos preparamos para o Encontro de Istambul, pedimos à aliança que examine como poderia atuar mais para contribuir para a paz e a estabilidade no Iraque, algo que todos os líderes reconheceram que é essencial para todos nós", afirmou.

Ao falar da ONU, que reduziu drasticamente as suas operações no Iraque, após o atentado a bomba contra a sua sede em Bagdá neste ano, Powell disse que uma nova resolução do Conselho de Segurança não seria necessária para que a organização exigisse para si um papel de destaque na reconstrução. Powell disse que, em um encontro com Kofi Annan no mês passado, pediu ao secretário-geral da ONU que a organização retornasse ao Iraque.

Alguns especialistas em política externa dizem que o governo está agindo rapidamente no sentido de se eximir de um cansativo e assustador projeto de reconstrução por estar a menos de um ano das eleições presidenciais.

Durante uma visita a Bruxelas na quinta-feira, o senador Joseph R. Biden Jr., de Delaware, um nome proeminente do Partido Democrata na Comissão de Relações Exteriores do Senado, disse que um papel mais amplo da Otan no Iraque é praticamente inevitável.

"Dentro de um ano, veremos a Otan se envolver mais com operações no Iraque, ou pelo menos dando início a esses envolvimentos", garantiu Biden a um grupo local de analistas políticos.

Biden também previu que a Autoridade Provisória da Coalizão, chefiada por L. Paul Bremer, seria substituída por aquilo que o senador descreveu como um "alto comissariado" subordinado ao Conselho de Segurança da ONU.

Atualmente, o papel da Otan no Iraque se limita ao fornecimento de apoio logístico à divisão multinacional liderada pela Polônia. Nos últimos dias, Powell e outras autoridades do governo sugeriram que a organização militar poderia assumir essa divisão, como parte da expansão do seu papel no Iraque.

"O que chamou a minha atenção hoje foi o fato de - enquanto discutíamos a possibilidade de a Otan assumir um papel ampliado no Iraque - nem um único membro ter se manifestado contra a idéia ou ter apresentado motivos para que essa iniciativa não fosse tomada", disse Powell. "A única questão levantada foi no sentido de determinar se, nesse ínterim, no curto prazo, deveríamos nos concentrar no Afeganistão e pensar no que seríamos capazes de fazer no Iraque nos próximos meses".

França e Alemanha, dois importantes pilares da aliança transatlântica, se opuseram vigorosamente à guerra. Mas ao envolver a Otan mais profundamente no Iraque, o governo norte-americano teria que dividir o controle com esses dois governos céticos, que têm pedido que a transferência de poder a autoridades iraquianas seja implementada o mais rapidamente possível.

Lord Robertson, secretário geral da Otan, confirmou que nenhum membro da organização militar descartou a hipótese de desempenhar um papel mais importante no Iraque. Mas ele ressaltou que vários ministros manifestaram preocupação com a possibilidade de a Otan dispersar muito as suas tropas, no momento em que amplia as suas atividades no Afeganistão.

"Nenhuma decisão foi tomada até o momento devido à preocupação da aliança com o Afeganistão, e à necessidade de operarmos corretamente naquele país", explicou Lord Robertson, que neste mês deixará a liderança da organização, após ter passado três anos no cargo. Ele será substituído por Jaap de Hoop Scheffer, o ministro holandês das Relações Exteriores. Danilo Fonseca

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