A arma de doutrinação em massa cubana

Claudia Márquez Linares
DE HAVANA

O que aconteceu com a liberdade de pensamento em Cuba hoje? Deixe-me contar-lhe uma história. Quando a professora do maternal de meu filho pediu-lhe que trouxesse um revólver de plástico para a escola, fiquei surpresa. Perguntei a Cristian, que tinha 5 anos, por que a professora queria esse brinquedo, mas ele não sabia. Fui até a escola para perguntar e encontrei a professora distribuindo armas de plástico e gritando, "Vai! Atira! Bum, bum! Estamos matando o imperialismo!"

Todas as crianças, inclusive meu filho, estavam atirando para o alto e gritando: "Bum, bum!" contra esse fantasma que a professora chamou de imperialismo. Esse é um dos exercícios que os professores cubanos devem fazer com seus alunos, e nós, pais, nada podemos dizer. Se nos opusermos, podemos ser chamados de contra-revolucionários e presos por "atos contra o desenvolvimento natural de um menor".

Impotente, fiquei muda em um canto, até que fui embora. A educação em Cuba é gratuita e obrigatória até os 16, mas é misturada com a ideologia que governa nossa ilha. Cristian hoje tem 6 anos e está aprendendo a ler e escrever. Recentemente, uma de suas tarefas foi escrever cartas para cinco agentes cubanos presos, sob acusação de espionagem, nos EUA. Em Cuba, são conhecidos como "os cinco heróis, prisioneiros do império".

O professor disse ao meu filho que os homens tinham sido presos por defender sua pátria. Quando disse a Cristian que seu pai, Osvaldo Alfonso Valdes, líder do Partido Liberal e dissidente, foi sentenciado a 18 anos de prisão por pedir liberdade para todos cubanos e defender sua pátria, ele respondeu: "Não, mãe, você está errada. Os cinco heróis é que foram presos por defender a pátria." Foi isso que o professor disse. Eu venho trabalhando para que meu filho não se envergonhe do pai.

O diretor da escola informou-me que essas crianças, cujos pais estão na prisão, precisam de tratamento especial -sugerindo algum tipo de retaliação, se as crianças não andassem na linha. Desde a prisão de seu pai, em março, como parte da campanha contra os dissidentes que colocou outros 74 corajosos cubanos na prisão por uma média de 20 anos, meu filho está irrequieto e confuso. Não é de espantar. Ele não consegue explicar ao professor ou aos seus colegas que seu pai é um homem bom, preso por defender a liberdade e a democracia. Ele fala de seu pai apenas para parentes próximos.

Quando disse a ele que seu pai estava preso sob ordens do presidente, ele respondeu: "Ah, mãe, não fale mal de Fidel. Se não, eles vão te levar embora também e eu vou chorar muito!" Da escola primária à universidade, nós cubanos aprendemos que discordar do partido Comunista significa nossa marginalização. Algumas vezes, a simples expressão de nossas esperanças é considerada uma ofensa. Larri Rodriguez Reyes, 21, estudante de computação, está esperando a decisão da comissão disciplinar sobre sua expulsão da universidade.

Ele está suspenso desde 6 de novembro, por "tornar público e notório observações de caráter contra-revolucionário" -ou seja, criticar o processo revolucionário cubano. Ele disse aos seus colegas que a "liberdade precisa chegar a nossa ilha, antes cedo do que tarde". Os pais de Rodriguez Reyes insistem que ele se declare arrependido, para evitar sua expulsão permanente. Ele não quer retirar seus comentários. O estudante sente-se traído por aqueles que o denunciaram em um tribunal público acadêmico, apesar de muitas vezes terem concordado com ele em particular.

Mais tarde, esses mesmos colegas confessaram a ele que tiveram que acusá-lo ou ficariam encrencados. Rodriguez Reyes promete lutar para ser reintegrado porque "ninguém pode me negar educação pelo simples fato de expressar opiniões divergentes". De acordo com a propaganda oficial, o povo cubano é o mais educado do mundo, mas qual é a utilidade da educação se não temos liberdade; para que serve quando se torna uma arma de doutrinação em massa? Claudia Márquez Linares é colaboradora do San Antonio Express-News. Ele é vice-presidente de uma associação independente de jornalistas cubanos e co-editora de sua publicação não oficial, De Cuba. Deborah Weinberg

UOL Cursos Online

Todos os cursos