Documentário expõe o absurdo da mutilação genital feminina na África

Nancy Ramsey

Em um dia quente de primavera em 2002, Kim Longinotto, diretora de cinema britânica, estava pronta para filmar, com sua câmera, em uma reunião de cerca de 15 mulheres -donas de casa de classe média, algumas professoras. Ela estava em uma casa em Eldoret, Quênia, "uma cidade muito boa, provinciana com uma estação de ônibus e um grande mercado", disse ela, a cerca de quatro horas de carro da capital, Nairóbi.

As mulheres "estavam conversando, havia bebidas, era quase um chá social", lembra-se Longinotto, que tinha viajado para Eldoret com Fardhosa Al Mohamed, enfermeira que dirige uma clínica em Nairobi e tinha-se alistado voluntariamente como guia e tradutora de Longinotto.

A conversa era em somali. "Eu não tinha certeza se saberia quando começar a filmar, mas em certa altura, Fardhosa, que é extremamente inteligente, olhou para mim e sorriu", disse Longinotto, falando por telefone de Londres. "As mulheres estavam falando de suas filhas, sobre educação. Entretanto, assim que Fardhosa mencionou MGF, mutilação genital feminina, a conversa explodiu."

Seu documentário, "The Day I Will Never Forget" (o dia que nunca esquecerei), se passa no Quênia e será apresentando no Cinemax na noite de segunda-feira (05/01). Ele confronta com audácia a questão da mutilação feminina, um termo que se refere à remoção de parte ou toda a genitália externa feminina. O ritual é feito em meninas em muitas partes da África, freqüentemente sem anestesia. Temas de documentários anteriores de Longinotto envolveram tópicos como divórcio no Irã e o feminismo no Egito.

A mutilação feminina, em sua forma mais branda, envolve "picar o clitóris até sangrar", disse Mohamed, falando por telefone de Nairóbi. Em sua forma mais extrema, o procedimento remove o clitóris e dos lábios vaginais internos e externos, e costura a abertura vaginal, "deixando um pequeno orifício do diâmetro de um palito para permitir a saída da menstruação".

A mutilação é feita em meninas de quatro anos em diante; riscos a saúde incluem dificuldade de urinar e menstruar, infertilidade, infecções e hemorragia. De acordo com a Organização Mundial de Saúde, pelo menos 132 milhões de mulheres no mundo sofreram mutilação; no Quênia, apesar da proibição oficial, o procedimento é feito em metade das mulheres.

"The Day I Will Never Forget" cobre o assunto em detalhes, fluindo como se fosse um diário de viagem pelo Quênia, parando ora em um hospital, ora em uma casa onde está sendo feita a mutilação ou em uma escola onde as meninas estão questionando a prática na justiça.

O filme foi apresentado em Nova York, no Walter Reade Theater, como parte da série de Novos Diretores/Novos Filmes, em março. Na época, no "New York Times", Elvis Mitchell chamou o trabalho de "poderoso documentário", acrescentando: "Longinotto sabe que o assunto é tão desconfortável que é melhor deixá-lo revelar-se sem histeria."

O que não quer dizer que o filme não tem seus momentos angustiantes. Em uma cena, o procedimento é feito em duas meninas. "Depois da mutilação, eu estava chorando, e Fardhosa estava chorando", disse Longinotto. "Voltamos no dia seguinte. Eu achava que as meninas iam estar com raiva dos pais. Mas elas disseram: 'Estamos felizes por ter feito.' Isso mostra como a pressão é forte."

Abordando as origens da mutilação feminina e a razão da continuação da prática, Mohamed disse: "Todo mundo culpa outra pessoa. Alguns dizem que acontece desde a criação; outros acreditam que se originou com os faraós. Alguns dizem que é do Alcorão, mas quando você pergunta a eles onde, ninguém tem uma resposta. O principal motivo é que as pessoas querem controlar a vida sexual de suas filhas."

Fouzia Hassan, 12, aparece no filme. Ela se lembra vividamente de sua mutilação: "Lembro-me da minha mãe me dizendo para ficar quieta", disse ela, falando ao telefone de Eldoret. "Eu estava gritando; via sangue em toda parte. Todas as mulheres estavam rindo de mim, me dizendo para não ser tola."

Fouzia é tranqüila e articulada. Ela e Longinotto econtraram-se em uma reunião de mulheres em Eldoret; Fouzia tinha vindo com sua mãe. "Essa doce menina ficou nos olhando com os olhos bem abertos", disse Longinotto. "Ela me procurou depois da reunião e disse: 'Estava esperando você. Quero que você venha a minha casa.'"

Longinotto contou que, em sua casa, "Fouzia disse, 'Kim, você fica aqui' e recitou um poema direto para a câmera". Fouzia então confrontou sua mãe, diante da câmera, pedindo a ela para não mutilar sua irmãzinha. Fouzia é "uma pioneira, uma heroína, realmente", como muitas outras meninas no Quênia que estão, independentemente umas das outras, falando contra as práticas, disse Longinotto.

"The Day I Will Never Forget" é o nome do poema que Fouzia recita. Ela diz: "Três mulheres se sentaram e me crucificaram no chão; eu chorei até não ter mais voz". E termina com as frases: "Meus pais amorosos, será que era isso que eu merecia? Pergunto a todos vocês, eu merecia isso?"

"Minha mãe se arrepende agora de me ter mutilado", disse Fouzia por telefone. "Mas na época, ela achava que era bom, que era parte da cultura. Eu a perdôo. Mas minha irmãzinha não vai ser mutilada. Eu a salvei. Eu disse a minha mãe que se ela fizesse isso, eu nunca a perdoaria." Deborah Weinberg

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