Aviões comerciais poderão contar com defesas antimísseis nos EUA

Dave Montgomery

Preocupado com a possibilidade de que os passageiros de companhias aéreas estejam cada vez mais vulneráveis a ataques terroristas feitos com mísseis, o governo está elaborando planos para equipar as aeronaves comerciais com as mesmas contramedidas de proteção utilizadas por pilotos militares para neutralizar a ação de mísseis inimigos. Milhares de mísseis portáteis que são disparados do ombro do soldado e que podem ser facilmente escondidos, estão ao alcance de grupos terroristas nos bazares do mercado negro mundial de armamentos. Em agosto do ano passado, agentes do FBI prenderam um cidadão britânico em Nova Jersey, suspeito de tentar vender um míssil russo SA-18, um modelo de míssil terra-ar de nova geração.

"Atualmente as companhias aéreas estão completamente desprotegidas contra tal ameaça", adverte o analista de defesa Loren Thompson. Na semana passada, o Departamento de Segurança Interna selecionou três
companhias que deverão elaborar planos para equipar os cerca de 7.000 aviões comerciais dos Estados Unidos com dispositivos capazes de neutralizar ataques com mísseis. Os testes e o desenvolvimento desses dispositivos levarão dois anos e custarão quase US$ 100 milhões. Os feriados da virada de ano demonstraram que há potencial para ataques terroristas, algo que ficou patente quando a British Airlines cancelou
repetidamente os seus vôos de Londres a Washington, D.C., e o secretário de Segurança Interna, Tom Ridge, elevou o nível de alerta contra o terrorismo no país. Na última sexta-feira o nível de alerta foi baixado na maior parte dos Estados Unidos.

A senadora Barbara Boxer, da Califórnia, e o deputado Steve Israel, de Nova York, ambos do Partido Democrata, estão pressionando para que seja adotada a legislação que determina a instalação de sistemas antimísseis nos aviões das companhias aéreas domésticas. Segundo os dois parlamentares, o estudo conduzido pelo Departamento de Segurança Interna vai demorar muito a fazer frente à ameaça crescente.

Mas funcionários das companhias aéreas dizem que é necessária uma avaliação rigorosa para evitar que se adote de forma apressada uma tecnologia não testada que vai sobrecarregar o setor, que já acumula prejuízos, com custos extras na casa dos bilhões de dólares. A instalação do equipamento custaria entre US$ 1 milhão e US$ 3 milhões por aeronave. A Associação de Transporte Aéreo, que representa o setor, garante que os custos totais poderiam chegar a US$ 100 bilhões. A American Airlines, com sede em Fort Worth, teria que equipar mais de 700 aeronaves. Embora a companhia não tenha expressado uma oposição direta à idéia, o seu porta-voz, Carlo Bertolini, disse que uma medida mais eficiente seria impedir o acesso dos terroristas aos mísseis. Como "medida secundária", Bertolini afirmou que os norte-americanos apóiam a criação de "perímetros de segurança" em torno dos aeroportos, que garantiriam a segurança das aeronaves durante decolagens e aterrissagens, momentos em que os aparelhos são mais vulneráveis aos ataques com mísseis portáteis.

Funcionários do Departamento de Segurança Interna autorizaram a Northrop
Grumman, a BAE Systems e uma equipe liderada pela United Airlines a passar os próximos seis meses avaliando a possibilidade proteger aeronaves comerciais com sistemas militares de defesa antimíssil. O programa seria então dominado pelas duas companhias, que passariam os
próximos 18 meses realizando pesquisas e desenvolvendo equipamentos e sistemas. A Northrop e a BAE estão planejando uma nova geração de defesas a laser, que são usadas em aeronaves militares desde a Guerra do Vietnã. O sistema ficaria acondicionado em um recipiente, também chamado de canoa, devido ao seu formato, localizado na parte inferior da fuselagem. Sensores garantiriam uma vigilância de 360º do espaço em torno da aeronave. Quando uma ameaça fosse detectada, um intenso feixe de raios laser seria direcionado para o míssil, alterando o seu rumo para longe do avião. A equipe liderada pela United está trabalhando em um projeto alternativo, que prevê o uso de dispositivos incandescentes e falsos alvos para afastar o míssil da aeronave, um outro conceito que é utilizado há décadas nos aviões militares. Uma das participantes de expressão da equipe é a Avisys, de Austin, no Texas, uma companhia fundada há 13 anos, que fabrica sistema de proteção para aeronaves não militares.

O presidente da Avisys, Ron Gates, um ex-comandante da Marinha, disse que o sistema seria similar àqueles que a companhia está desenvolvendo para as aeronaves de grande porte utilizadas pelos chefes de Estado do Oriente Médio. Os dispositivos incandescentes seriam lançados automaticamente a partir de compartimentos da aeronave, e, em conjunto, formariam uma "assinatura térmica" maior do que a do avião, fazendo com que o míssil mudasse de curso. Ao contrário da tecnologia mais antiga utilizada em aviões militares, esses dispositivos queimariam tão rapidamente que seriam invisíveis, evitando assim que os passageiros fossem expostos a uma exibição horrível de fogos de artifício defronte às suas janelas.

Todos os sistemas em estudo operariam automaticamente e seriam projetados para neutralizar a ameaça em um período de segundos, antes mesmo que os passageiros ou a tripulação se dessem conta de que estariam correndo perigo. Um indicador no painel de instrumentos notificaria o piloto sobre o que ocorrera. O Departamento de Segurança Interna está também exigindo que as informações sobre tais incidentes sejam enviadas instantânea e automaticamente a Washington, para que as autoridades possam alertar outras aeronaves e divulgar um alerta de terrorismo. Thompson, analista do Lexington Institute, em Arlington, Virginia, disse que "há bastante apoio no Congresso" à idéia de instalar sistemas antimísseis nas aeronaves. "A maioria dos especialistas acredita que, caso não tomemos essa providência, os terroristas se sentirão encorajados a atacar aviões", afirmou. "A questão não é determinar se o faremos, mas quando contaremos com um sistema que seja suficientemente confiável e barato". Em um relatório de novembro, o Congressional Research Service, um departamento da Biblioteca do Congresso, mencionou outras opções, como, por exemplo, aumentar ainda mais as medidas de segurança nos aeroportos, modificar as operações de vôo e reprimir a proliferação de mísseis terra-ar no mercado negro.

"No entanto, essas providências, por si sós, não são capazes de mitigar o risco de ataques domésticos e não protegeriam as aeronaves dos Estados
Unidos que decolassem ou pousassem em outros aeroportos", disse o relatório. Os mísseis terra-ar (SAM, na sigla em inglês) disparados do ombro são produzidos desde a década de 60. Tem entre 1,5 e 1,9 metros de comprimento, pesam entre 15 e 18 quilos e são capazes de atingir alvos a 6,5 quilômetros de distância, guiados pelo calor emitido pelas turbinas. Qualquer avião voando a menos de 4.500 metros de altitude seria um alvo potencial. Um relatório recente divulgado pela Organização das Nações Unidas (ONU) estima que existem mais de 500 mil mísseis terra-ar portáteis, vários deles nas mãos de terroristas. No mercado negro eles custam de US$ 5.000 a US$ 250 mil, dependendo do ano de fabricação e do modelo.

"A possibilidade de que tais mísseis sejam utilizados por grupos terroristas como a Al Qaeda continua muito alta e persistente", advertem funcionários da ONU. Eles também se preocupam com o fato de esses mísseis poderem ser facilmente escondidos em contêineres de seis metros de comprimento, usados rotineiramente para transportes marítimos. Entre os mísseis mais disponíveis estão os SA-7, fabricados pela antiga União Soviética. Em novembro de 2002, dois deles por pouco não acertaram uma aeronave israelense que decolou do aeroporto de Mombassa, no Quênia. Um outro SA-7, que se acredita ter sido proveniente do mesmo arsenal, foi disparado contra um avião militar dos Estados Unidos que decolava da Base Aérea Prince Sultan, na Arábia Saudita, mas aparentemente apresentou problemas de funcionamento e não ameaçou a aeronave. Danilo Fonseca

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