Pesquisa no Quênia questiona índice de infecção de Aids

John Donnelly
EM PRETÓRIA, África do Sul

Uma pesquisa de saúde no Quênia sugere que o número de pessoas infectadas com o HIV é bem menor do que se estimava antes. O resultado levantou questões entre especialistas sobre a precisão das taxas globais de infecção.

A pesquisa do Quênia, que envolveu 8.561 residências em oito Estados, completada em setembro de 2003, concluiu que cerca de 6,7% dos adultos estavam infectados com o vírus da Aids. A estimativa da Unaids divulgada em uma conferência em Barcelona em julho de 2002 era de 15%.

As autoridades do Unaids disseram, na quarta-feira (14/1), que tinham revisado sua estimativa de incidência de HIV no Quênia para 9,3% este ano, com base em informações melhores, de testes em mulheres grávidas freqüentando clínicas públicas de acompanhamento pré-natal. Elas disseram que as estimativas anteriores baseavam-se nas melhores informações disponíveis na época e que qualquer alegação que os números anteriores exageraram a epidemia era "infundada".

Kevin DeCock, diretor queniano do Centro de Prevenção e Controle de Doenças dos EUA, que patrocinou a mais recente pesquisa, disse aos repórteres, na semana passada, que os índices de incidência do HIV no país eram "mais baixos que anteriormente estimados", com base em "dados melhores e mais precisos".

As estimativas fornecem informações críticas para o desenvolvimento de uma resposta eficaz à Aids. Em países com índices de infecção menores, especialmente abaixo de 5%, a ênfase é na prevenção. Quando a incidência pula para dois dígitos, a resposta precisa ser de emergência, envolvendo tanto a prevenção quanto o tratamento, dizem os especialistas.

Os índices globais de infecção também estão sendo questionados. Em Barcelona, no final de 2001, a Unaids estimou que havia 40 milhões de pessoas infectadas no mundo. No final do ano passado, em vez de dar um número, a agência forneceu uma faixa: haveria entre 34 e 46 bilhões de pessoas infectadas.

O ajuste das estimativas foi provocado, principalmente, por pesquisas residenciais em vários países -inclusive Zâmbia e Mali- que revelaram que as estimativas anteriores nas áreas rurais eram altas demais.

"Não consideramos as estimativas exatas. Há muita incerteza em torno delas. A faixa demonstra essa incerteza", disse Dominique de Santis, porta-voz da Unaids, em entrevista telefônica de Genebra.

Nos últimos anos, a Unaids também cortou suas estimativas do número de crianças órfãs pela Aids, de 14 milhões ao final de 2001, para 13 milhões, no ano passado.

Apesar desses ajustes, mesmo os críticos das estimativas dizem que a epidemia global é temível. Eles a comparam com a situação em 1990, quando o número de órfãos pela Aids estava em 1 milhão e a África do Sul tinha cerca de 1% de infecção. Hoje, estima-se que cerca de 15 a 20% dos adultos estejam infectados, ou entre 4,6 milhões e mais de 5 milhões de pessoas (o número menor é do governo sul-africano, o maior, da Unaids).

No Quênia, a nova pesquisa estima que 1,4 milhão de adultos estejam infectados; a estimativa da Unaids, divulgada em 2002, era de mais de 3 milhões.

"Mais de um milhão de pessoas com HIV é um problema sério. Três milhões é um problema sério. Qual é o número correto, não sei. Mas, de qualquer forma, é sério", disse Anthony D. Mbewu, diretor executivo de pesquisa do Conselho Médico da África do Sul, organização semiprivada que acompanha questões da saúde.

A forma mais comum de estimar a disseminação do HIV no mundo em desenvolvimento é testar mulheres grávidas em clínicas de acompanhamento pré-natal. A Unaids, a Organização Mundial de Saúde, o Escritório do Censo dos EUA e outros grupos assumem que esses resultados traduzem aproximadamente o índice de infecção de adultos.

No entanto, nos últimos anos, com base em pelo menos sete pesquisas demográficas envolvendo exames em homens e mulheres -grávidas ou não, essa premissa começou a ser criticada. As pesquisas em áreas rurais incluem um grupo muito reduzido. As mulheres grávidas podem ter índices de infecção ligeiramente superiores do que a população adulta em geral, porque ao menos uma vez tiveram relação sexual sem proteção. As mulheres estão contraindo o HIV com mais freqüência que os homens. Por fim, em alguns países, uma percentagem significativa de mulheres não freqüenta clínicas públicas.

"Os números mais confiáveis são das pesquisas representativas, que incluem homens, mulheres, crianças, pessoas sexualmente ativas, todo mundo", disse Olive Shisana, diretora do programa de HIV/Aids do Conselho de Pesquisa de Ciências Humanas da África do Sul.

Esses estudos, entretanto, são caros. As autoridades da Unaids e OMS dizem que estão aprendendo com cada pesquisa e ajustaram seus modelos estatísticos com base nelas.

As pesquisas residenciais também têm problemas. No Quênia, 30% das pessoas entrevistadas se recusaram a fazer o exame de HIV. A pesquisa revelou que 8,7% das mulheres testadas eram HIV positivas e 4,5% dos homens.

"As pessoas perguntam se as pesquisas de população são o padrão de ouro. A resposta é não. As pesquisas também têm suas falhas. Mas acrescentam um dado valioso", disse Tiés Boerma, coordenador de avaliação de monitoramento e pesquisa do departamento de Aids da OMS.

Para Mbewu, da África do Sul, a pesquisa tem uma vantagem indiscutível, que não está nos números.

"Não uso os números absolutos. Uso os resultados para estudar a tendência da epidemia", disse ele. Na África do Sul e vários outros países sub-saarianos, uma tendência é a estabilização dos índices de infecção pelo HIV. Outra tendência é tenebrosa: as mortes por Aids estão aumentando.

donnelly@globe.com Deborah Weinberg

UOL Cursos Online

Todos os cursos