Bush precisa corrigir a cegueira com relação à Líbia

Mansour O. El-Kikhia

Os líbios estão sofrendo sob a tirania de Muammar Khadafi, e nada os incomoda mais do que ver a sociedade ocidental pregando altos ideais, mas, simultaneamente, sucumbindo ao charme do seu opressor.

O ditador líbio fez ao presidente Bush uma oferta que poucos estrategistas políticos se dariam ao luxo de recusar. Bush está lutando para resistir ao impulso de seguir o entusiasmo dos europeus pelas iniciativas pela paz tomadas por Khadafi. Entre elas estão indenizações de bilhões de dólares às vítimas de terrorismo líbio, a renúncia ao terrorismo e a destruição das suas não existentes armas de destruição em massa.

Porém, até onde Bush se preocupa com a questão, a melhor oferta talvez seja a utilização das iniciativas do ditador líbio como prova de que a sua guerra contra o terror e a proliferação de armas de destruição em massas está tendo sucesso.

A Líbia é um grande fornecedor de energia para a Europa, controlando o ciclo do combustível desde os campos de petróleo até os reservatórios de gasolina. Os europeus têm se empenhado em tentar trazer a Líbia para a sua esfera de influência. Atualmente, uma das principais metas européias é fazer com que a Líbia participe do Plano de Ação Mediterrânea (MAP, na sigla em inglês), e do Protocolo de Barcelona, que lidam com o meio ambiente regional e com questões econômicas.

Bush pode se consolar com o fato de Khadafi estar interessado nos Estados Unidos, e não na Europa. Os governos europeus, incluindo o do Reino Unido, nunca romperam os laços econômicos com o ditador líbio.

Assim, o alarido feito pela União Européia quanto a "um novo capítulo nas relações com o coronel" é fruto do desejo de garantir que a Líbia aprofunde os seus vínculos com a Europa.

A União Européia está preocupada com a tentativa norte-americana de coagir o Egito e o Marrocos a optarem entre um acordo de livre comércio com os Estados Unidos ou com a União Européia. A organização sofreria um impacto enorme com a perda das economias da costa meridional do Mediterrâneo. Kadhafi tem flertado continuamente com os europeus, mas nunca os levou a sério. O ditador sabe que a Europa precisa bem mais dele do ele dos europeus.

Os Estados Unidos são o único país capaz de ameaçar a sua dinastia e de se opor aos seus planos grandiosos de domínio da África, que não são tão tolos quanto possam parecer. A África está em condições econômicas e políticas tão desesperadoras - às quais se soma a negligência mundial -, que o que quer que Khadafi se disponha a investir pode significar a diferença entre guerra e paz no continente.

Bush ainda é um novato da política, mas está aprendendo. Ele aceitou bem a "reabilitação" de Kadhafi, mas não suspendeu as sanções impostas à Líbia. É de se duvidar que o presidente norte-americano seja capaz de resistir por muito tempo à tendência de restabelecer relações com o ditador. As pressões sobre Bush são muito fortes e se originam de muitas fontes.

Entre essas pressões estão as seguintes:

Kadhafi estruturou o pacote de compensação da Pan Am de maneira a extrair concessões dos Estados Unidos. A família de cada vítima recebe US$ 10 milhões (US$ 4 milhões quando as sanções da ONU forem suspensas, US$ 4 milhões quando acabarem as sanções norte-americanas, e US$ 2 milhões quando a Líbia for removida da lista norte-americana dos países que apóiam o terrorismo). Ele informou às famílias das vítimas e ao governo norte-americano que a oferta só é válida até 8 de maio deste ano.

As companhias petrolíferas dos Estados Unidos alegam que perderam US$ 70 bilhões desde 1986 e estão loucas para retornar à Líbia. Além disso, grandes empresas norte-americanas, como a Halliburton, a Bechtel e a Boeing querem uma fatia da torta líbia. Kadhafi condicionou as concessões e a reentrada das empresas na Líbia à suspensão das sanções norte-americanas.

Alguns estrategistas e assessores políticos sustentam que o interesse nacional do Estados Unidos exige que sejam criados novos vínculos com o ditador reformado. Esse foi o mesmo argumento que eles utilizaram no passado para justificar as relações com Saddam Hussein.

Figuras importantes do governo exercem pressões. Um exemplo é Richard Perle, que defendeu na semana passada, em uma entrevista veiculada pela mídia árabe, que o filho Kadhafi assuma a liderança do país. Ninguém sabe por que ele presunçosamente assume que apenas os iraquianos - mas não os líbios - querem se libertar de ditaduras.

O restabelecimento das relações entre Estados Unidos e Líbia vai depender de onde se localiza a cegueira de Bush: nos olhos ou no coração. Danilo Fonseca

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