Terno substitui o jeans na moda masculina

GUY TREBAY

Para tornar a vida mais alegre, o mundo da moda pode sempre recorrer às anotações feitas pelos designers enquanto concebem suas criações. Partindo do pressuposto de que os consumidores precisam de histórias antes que possam compreender uma nova roupa, os designers embarcam nas coloridas viagens da fantasia.

Para a coleção masculina de outono, cuja mostra foi encerrada nesta quinta-feira em Milão, Jill Sander recorreu à inspiração teutônica para conclamar uma Nova Ordem de cavalheiros; Ralph Lauren recorreu aos clássicos ternos escolares para evocar uma Antiga Ordem de cavalheiros; e Versace cedeu novamente ao costumeiro "Rock Glam", desta vez com "uma pitada de anglomania" (uau!).

Neil Barret invocou a malograda exploração da Antártida por Ernest Shackleton. "Sempre gostei de um pouquinho de neve", ele explica em uma entrevista. Ennio Capasa, designer da Costume National, abandonou sua fixação por Mick Jagger e tratou dos heróis de filmes de ação. A atmosfera escocesa predominou na Pringle. Na Etro, o espectador era convidado a reencontrar o "verdadeiro espírito" dos cavaleiros medievais em um exercício chamado "Il Gioco dell'Oca", ou o Jogo do Ganso.

Mas por que não? O "Jogo do Ganso" é um artifício bem mais sedutor do que a verdade nua e crua: todos eles conspiram pelo retorno do terno.

A idéia talvez pareça estranha, ao menos a partir de um ponto de vista exclusivamente material, pois os rendimentos da indústria de moda masculina, que movimentava US$ 55 bilhões, vêm caindo há vários anos. A venda de ternos, em especial, caiu 11% nos Estados Unidos desde o início de 2002, segundo atesta pesquisa do NPD Group. Apesar da crise, a última temporada foi excelente para as roupas masculinas italianas, que inebriam vendedores e revelam que uma narrativa subjacente pode novamente alavancar o mercado da moda masculina.

Em grande parte trata-se de um "retorno aos alfaiates" - uma referência indireta à tradição italiana que por muito tempo comandou a moda mundial. Desde a adesão italiana à União Européia, cresce uma nostalgia pela Itália do passado, um lugar mítico que agrega diversas culturas e que, a despeito de sua força histórica, talvez não resista à avalanche do mercado global. "Eles possuem os moinhos, o tear, os artesãos e os alfaiates", diz Robert Burke, diretor de moda da Bergdorf Goodman. No entanto, destaca Burke, está em marcha um movimento pela substituição do rótulo "Made in Italy" pelo rótulo "Made in Europe" - que permitiria, por um preço muito baixo, a terceirização em países da União Européia.

E logo veio a reação dos designers italianos, que prontamente se mobilizaram para defender a cultura nativa. O mais sincero exemplo partiu de Dolce & Gabbana, cujas coleções masculinas e femininas são acompanhadas por imagens de um passado que se esvai. A Roma de Fellini, aludida em sua propaganda pela imagem da Fontana di Trevi, não passa hoje de uma imagem nebulosa da madrugada televisiva. A grande maioria do público é jovem demais para saber que Rie Rasmussen encarnava Anita Ekberg no momento em que saía da fonte.

Mas esta ressurreição, a bem da verdade, pode resultar em amostras como a da Dolce & Gabbana, que lançou ternos garbosos em lãs de Jacquard, malhas de veludo para gigolôs, tweeds e jaquetas de pela à la Marcello Mastroianni com bolsos largos (adaptados à cena do hip-hop). Entre todos os atuais designers, os da Dolce & Gabbana são os que reúnem as melhores condições para vestir uma nova geração de trabalhadores com seus apertados uniformes. Manoel Fontoura

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