Ativistas de direitos dos animais dizem que são pessoas como outras quaisquer

Gwen Florio

Quando alguém diz "ativista de direitos dos animais", a primeira imagem que nos vem à mente é de malucos jogando tinta sobre mulheres vestidas com casacos de peles. Ou arrombando gaiolas em fazendas de criação de martas para libertar os animais (que talvez acabem atropelados por automóveis ou devorados por predadores).

Ou, quem sabe, nos lembremos do protesto mais memorável de Denver, quando uma mulher usando somente a parte de baixo de um biquíni e adesivos tapando apenas os bicos dos seios passou todo o horário de almoço em uma gaiola no shopping da rua 16, há uns dois anos. A idéia era chamar a atenção para o sofrimento dos animais de circo. E isso, com certeza, ela conseguiu.

Jessica Sandler, de Boulder, no Colorado, ativista da organização Pessoas pela Ética no Tratamento de Animais (Peta, na sigla em inglês), ri ao se lembrar desse acontecimento.

"Consegui fazer o meu trabalho sem nunca ter tirado a roupa", afirma.

Ela e outros ativistas da região garantem que são pessoas como outras quaisquer. Ela diz que a única exceção é o fato de serem vegetarianos e não usarem calçados feitos de couro.

Em Denver, o movimento inclui cientistas como Sandler, especialista em saúde ambiental; executivos como Dan Hanley, diretor de vendas de uma empresa; ou advogados como Jennifer Melton, de Boulder, que pratica advocacia criminal como profissão e não cobra nada nos casos que envolvem a defesa de animais.

Embora Hanley não suporte o termo "ativista dos direitos dos animais" (o estereótipo o incomoda), a maioria dos membros do movimento não se importa com a maneira como são chamados, e só pedem que os outros tenham em mente o velho ditado que diz que os loucos de hoje são os visionários de amanhã.

Aqueles que estão por trás de tais ações, e cujo número não pára de crescer, vêem a si mesmos como parte de um movimento inclusivo de direitos civis.

Trish Bangert pede que as pessoas meditem sobre o seguinte fato: "O único status legal dos animais é o de propriedade. No passado, mulheres, crianças e escravos compartilharam tal status".

Bangert leciona legislação de direitos dos animais na Escola de Direito da Universidade de Denver, o único curso desse tipo oferecido no Colorado. Assim como a maioria daqueles que dão aulas similares em todo país, Bangert é professora adjunta.

Talvez apenas meia-dúzia de faculdades de direito ensinem legislação animal, diz Gary Francione, da Escola de Direito da Universidade Rutgers, em Nova Jersey, que é um dos pioneiros nessa área.

"Na minha opinião, a legislação animal não foi realmente integrada ao currículo das faculdades de direito", diz Francione, cujo livro mais recente sobre o assunto é "Introduction to Animal Rights: Your Child or the Dog?" ("Introdução aos Direitos dos Animais: Seu filho ou o Cachorro?").

Isso significa que pessoas como Hanley e Bangert estão na vanguarda de um movimento que, nos últimos anos, conseguiu grandes avanços no campo dos direitos legais.

Em algumas cidades - Boulder foi a primeira -, as pessoas que têm animais são denominadas de guardiões dos bichos, e não de donos.

Várias outras cidades baniram os circos e shows com animais exóticos. Denver fará parte desse grupo de cidades, caso a Câmara Municipal aprove uma legislação que está para ser votada.

Até mesmo a prosaica marmota norte-americana, há muito considerada uma praga em grande parte do Oeste dos Estados Unidos, foi agora assinalada para ser alvo de proteção por parte das organizações de direitos dos animais.

Francione critica essas iniciativas, chamando-as de "maquiagens".

"A verdade é que, ainda que alguém seja um guardião, pode levar o animal ao veterinário e mandar matá-lo", afirma.

Uma pesquisa Gallup realizada em meados do ano passado revelou que quase todos os norte-americanos acreditam que os animais mereçam contar com algum tipo de proteção contra maus-tratos e exploração, e um em cada quatro entrevistados afirmou que os animais devem ter direito à mesma proteção reservada aos seres humanos.

De fato, embora uma crítica comum seja a de que os ativistas dos direitos dos animais não se preocupam muito com as pessoas, alguns - e Hanley está entre eles - participam de campanhas pelos direitos humanos.

Hanley, um vegetariano que não usa ou possui produtos de couro, também é voluntário da Anistia Internacional, da Campanha Internacional pelo Tibete, e do Projeto Colorado Aids.

Mas o seu maior empenho se concentra no grupo Rocky Mountain Animal Defense (um grupo de defesa dos animais das Montanhas Rochosas).

Jessica Sandler enfatiza: "A Peta tem essa reputação de promover manifestações teatrais, de ser exibicionista e ultrajante, atrevida e irritante", afirma. "Mas a organização possui uma faceta muito científica".

Sandler, ex-higienista profissional da Administração de Saúde e Segurança Ocupacional dos Estados Unidos, coleta pesquisas que justifiquem o apelo feito pela Peta para que algumas formas de testes com animais sejam banidos.

Ela e outros ativistas contam que entraram para o movimento de forma gradual.

"Eu tinha um cachorrinho chamado Pepper", recorda. "Um dia fui tomada por uma compreensão súbita. Ali estava um animal que recebia toda a minha atenção e o meu afeto enquanto eu forçava outros bichos a viverem em condições indescritíveis e horrorosas para que eu pudesse comê-los".

No caso de Hanley, as pessoas vêm antes dos animais. Ele se envolveu com trabalhos humanitários após conversar com monges budistas tibetanos que conheceu no exterior, quando servia na Marinha. "Eu não tinha nenhuma idéia da ocupação, da carnificina e do genocídio promovidos pelo governo chinês no Tibete", conta Hanley.

"Mas eu continuava comendo meu hambúrguer, sem dar atenção à enorme dose de crueldade contra os animais que existe neste mundo. Mas um dia olhei para baixo e compreendi o que havia no meu prato", explica.

Já Melton, a advogada de Boulder que trabalha com advocacia criminal e não cobra nada quando os casos envolvem direitos dos animais, só se tornou vegetariana após mudar para o Colorado, depois de terminar a faculdade de direito na Universidade Texas Tech.

"O meu pai é pecuarista", diz ela. "Quanto à questão do tratamento dos animais criados para servirem de alimentos e ao fato de eu me tornar vegetariana, concordamos em discordar".

Os ativistas diferem quanto à forma de tratar aqueles que não compartilham de suas filosofias. Hanley e Sandler preferem atuar dando o exemplo. Já Melton diz que, embora não queira encrenca com ninguém, é incapaz de tolerar pessoas que usem casacos de pele. "É o cúmulo da vaidade e da obscenidade", afirma. "Eu certamente não vou interagir ou me associar voluntariamente a esse tipo de gente".

Todos os três reconhecem que as mudanças nessa área são extremamente lentas. "É fácil se sentir desencorajado", diz Sandler. "Mas veja quanto tempo demorou para que entrassem em vigor as leis proibindo o trabalho infantil".

Francione tem uma postura mais cínica - que alguns chamariam de mais realista. "Não há nada de realmente novo ocorrendo na área de direitos dos animais", afirma. "A verdade é que qualquer ação legal que questionasse de fato o status dos animais como propriedade seria extremamente polêmica. Isso porque tal ação poderia fazer com que também se questionasse a utilização dos bichos como alimentos. E isso é algo que deixa as pessoas extremamente nervosas". Danilo Fonseca

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