Fórum Econômico Mundial em Davos leva as marcas da crise iraquiana

Afsané Bassir Pour e Babette Stern
EM DAVOS, Suíça

Dedicado ao tema da "parcerias pela prosperidade e a segurança", a reunião dos dirigentes da economia mundial discute uma saída para a crise em Bagdá, conciliando a força americana com a legitimidade internacional.

Enquanto a reunião anual dos militantes por um mundo alternativo, o Fórum Social Mundial, terminava nesta quarta-feira (21/01) em Mumbai, a dos dirigentes da economia mundial iniciou-se em Davos, na Suíça, onde foi anunciada a participação de numerosas personalidades políticas e de especialistas em economia. O Fórum Econômico Mundial escolheu por tema neste ano "Parcerias pela prosperidade e a segurança". Logo no primeiro dia, ficou evidente que o Iraque, um símbolo das fraquezas econômicas, políticas e geopolíticas do planeta, figuraria em destaque nos debates. Com efeito, não menos de 38 sessões foram dedicadas ao país no decorrer dos cinco dias de duração previstos para o Fórum.

Embora o administrador americano no Iraque, Paul Bremer, tivesse cancelado o seu comparecimento na última hora, destacando com isso ainda mais a urgência dos assuntos a serem tratados em Bagdá, várias personalidades diretamente envolvidas encontram-se em Davos ou confirmaram a sua presença: o vice-presidente americano, Dick Cheney, o secretário geral da ONU, Kofi Annan, o presidente do Conselho de Governo iraquiano, Adnan Pachachi, além de vários ministros e do chefe da diplomacia britânica, Jack Straw.

Inaugurando a 34ª edição deste fórum, o presidente iraniano Mohammed Khatami argumentou em favor de "uma verdadeira parceria, um verdadeiro diálogo", os quais, segundo ele, são os únicos garantes da segurança. "Por meio da força militar, talvez se possa invadir um país, porém a paz não deixa de ser efêmera", declarou. Então, durante uma coletiva de imprensa, ele reagiu ao discurso sobre o Estado da União no qual George W. Bush havia justificado a sua política externa, na véspera, em Washington: "A administração americana invadiu o Afeganistão para achar Bin Laden. Mas, onde está Bin Laden? Os americanos ocuparam o Iraque sob pretexto de instalar a democracia neste país e de encontrar armas de destruição maciça. Mas, onde estão essas armas? E onde está a democracia?", perguntou.


Encontrar a fórmula certa

Na manhã daquele dia, Jack Straw havia respondido antecipadamente a essas perguntas. A coalizão dirigida pelos Estados Unidos pretende dotar o Iraque de um governo federal amplamente representativo, insistiu o chefe da diplomacia britânica. "A nossa tarefa não é ditar o futuro do Iraque e sim apoiar o consenso que existe na opinião iraquiana". Straw manifestou a vontade de que o processo de transição em curso desemboque "num governo federal mais estável e reconhecido internacionalmente". A uma pergunta sobre a ausência das armas de destruição maciça naquele país, o ministro britânico preferiu responder com uma outra pergunta. "Será que nós podíamos permanecer de braços cruzados? A decisão de entrar em guerra foi controvertida mas se nós não tivéssemos feito nada, o mundo teria sido muito mais perigoso", disse, sem entrar em detalhes.

Esta opinião é compartilhada pelo antigo presidente americano, Bill Clinton: "É possível não concordar com a maneira com a qual este caso foi conduzido, mas é fato que o Iraque não apresenta mais perigo para os seus vizinhos", afirmou.

O Irã, por sua vez, enxerga o perigo sobretudo no confronto entre Paul Bremer e o principal dirigente xiita. "O aiatolá Ali Al Sistani exigiu a democracia direta, o que os americanos recusam. Nós sempre dissemos: 'um homem, um voto'", disse o presidente Khatami, que acrescentou, contudo, estar "contrário a toda dominação étnica".

O Iraque está também onipresente nos corredores da fortaleza de guerra onde ocorre o fórum. Antes da chegada de Dick Cheney, prevista para este sábado (24/01), a direita americana já está representada pelo politólogo americano Richard Haas, presidente do centro de estudos e de análises americano Council for Foreign Relations (Conselho para as Relações Exteriores). O desafio para o governo americano é encontrar uma fórmula aceitável pelos xiitas, mas também pelos sunitas e os curdos, "uma vez que se tornou evidente que nós precisamos partir o quanto antes [do Iraque]", disse. O republicano é um dos poucos, em Davos, a mostrar um certo otimismo. "A grande maioria do país está estável e todo mundo fala em eleições primárias e em eleições gerais; ora, estes são assuntos positivos num país onde as pessoas nunca conheceram a democracia".


"Muito instável"

Por sua vez, John Ruggie, um professor de assuntos internacionais da universidade de Harvard e um conselheiro de Kofi Annan, pertence sobretudo ao campo dos pessimistas. "Ao que tudo indica, a administração Bush não mudou. O Iraque é um teste no qual a comunidade internacional corre o risco de falhar, uma vez que a atitude dos americanos não incentiva ninguém a cooperar com eles", explica.

Mostrando-se também preocupado, o egípcio Amr Moussa, secretário geral da Liga Árabe, qualifica a situação de "muito instável e muito perigosa". Segundo Amr Moussa, o futuro do Iraque depende de quatro elementos: uma agenda de compromissos razoável para a retirada das forças estrangeiras, a restauração da soberania, um processo justo para a reconstrução do Iraque e um verdadeiro papel para a ONU, sendo que esses quatro pontos são aceitáveis para o povo iraquiano.

Kenneth Roth, o diretor executivo da associação americana de defesa dos direitos humanos Human Rights Watch (HRW), insiste por sua vez no destino que será reservado a Saddam Hussein. "Ele não pode ser julgado por um tribunal composto apenas por iraquianos que o condenarão à pena de morte. Seria preferível deixar o ditador atrás das grades, já que executá-lo equivaleria a fazer dele um mártir. Mas a ideologia americana faz obstáculo ao pragmatismo". Jean-Yves de Neufville

UOL Cursos Online

Todos os cursos