Líder em New Hampshire, Kerry procura conquistar mais votos

David M. Halbfinger
EM CLAREMONT, New Hampshire

Ao rumar para a sua quarta etapa de campanha, na tarde da última sexta-feira, o senador John Kerry avaliou os últimos resultados das urnas de New Hampshire. Todos eles lhe conferiam uma ampla dianteira, sendo que três em cada quatro por uma diferença de dois dígitos.

"Gosto do rumo que as coisas estão tomando aqui", disse Kerry. "Não confio em números".

Faltando três dias e meio para as prévias que serão realizadas aqui, Kerry, o candidato que surpreendeu com a sua vitória em Iowa, está se empenhando em New Hampshire em uma campanha para conseguir todos os votos possíveis.

Segundo os seus assessores, a estratégia de Kerry não é a de atacar os adversários. Ele optou por fazer propaganda das suas qualidades: a experiência e conhecimento das questões relativas à política externa e doméstica têm sido ressaltados em freqüentes entrevistas. Ele está se cercando de heróis e veteranos de guerra, a fim de capitalizar a sua experiência nas forças armadas. O candidato tem também exibido os nomes de figuras importantes que o apóiam, a fim de provar que possui força eleitoral para a disputa fora da região Nordeste dos Estados Unidos, para além de 3 de fevereiro. A Liga dos Eleitores Conservadores, um grupo ambientalista, deve apoiá-lo neste sábado, em Concord.

Na sexta-feira, enquanto o senador Ernest F. Hollings, da Carolina do Sul, e o ex-senador Max Cleland, da Geórgia, apareceram na companhia de Kerry em um comício voltado para os veteranos de guerra, em Manchester, o seu comitê de campanha revelou que o ex-vice-presidente Walter F. Mondale formalizou o seu apoio ao candidato, afirmando, em um comunicado, que Kerry possui "experiência, ponderação e caráter para desempenhar a função de presidente".

"Essa é uma campanha na qual não se deve aceitar nada como fato consumado, e onde as disputas são reiniciadas a todo momento. O negócio é lutar por cada voto", diz Robert Shrum, consultor para assuntos de mídia e estrategista da campanha de Kerry. Ele está sendo visto com freqüência cada vez maior ao lado do candidato nas últimas semanas. "A campanha terá essas característica até novembro", adverte Shrum.

Da mesma forma que fez em Iowa, Kerry está apelando bastante para os veteranos de guerra na busca pela vitória em New Hampshire. Dentre os 139 mil veteranos do Estado, o comitê de campanha de Kerry identificou 15 mil democratas e independentes habilitados a votar na próxima terça-feira.

Na sexta-feira, Kerry, que é veterano condecorado da Guerra do Vietnã, fez campanha de Manchester a Claremont acompanhado de membros das tripulações da sua lancha de combate, um dos quais aparece em uma propaganda de campanha. "O melhor termo que podemos utilizar para defini-lo é 'irmão'", disse Cleland, que perdeu as pernas e o braço direito no Vietnã, ao se referir a Kerry em um comício em Manchester. "Por quê? Porque ele estava lá, atuando no conflito, tendo saído com alguns buracos na sua camiseta".

Logo depois, Hollings, veterano da Segunda Guerra Mundial, fez uma crítica ao general Wesley K. Clark, o outro candidato que tem utilizado a sua experiência bélica como propaganda de campanha, afirmando que ele era apenas um oficial de baixa graduação no Vietnã. "Vamos ensinar àquele cara na Carolina do Sul que existe um número bem maior de tenentes do que de generais", disse Hollings. "John não deu a sua vida por outra pessoa, mas ele estaria disposto a fazê-lo. E isso é algo que eu posso assegurar."

Enquanto os seus adversários lutam para se adaptar à dinâmica mutante da disputa eleitoral - Howard Dean tenta se recuperar do seu fraco desempenho em Iowa, e da reação devastadora após o seu discurso reconhecendo a derrota naquele Estado, enquanto Clark procura se adaptar à súbita falta de urgência por um candidato anti-Dean -, Kerry está seguindo basicamente a mesma rota na qual se engajou há algumas semanas.

A maior mudança foi o fato de Kerry não se sentir mais pressionado a apontar as diferenças entre os seus currículos e idéias, e aqueles dos seus adversários.

Em vez disso, ele está direcionando os seus ataques contra o presidente Bush. E em uma outra mudança digna de nota, os republicanos começaram a responder a esses ataques. Em um discurso no Comitê de Ação Política Conservadora, na sexta-feira, Ed Gillespie, presidente do Comitê Nacional Republicano, disse que Kerry "está fora de sincronia com a maioria dos eleitores no que diz respeito à política econômica, à segurança nacional e às questões sociais".

"A principal organização que avalia a intensidade da posição liberal dos políticos, a Americans for Democratic Action, deu a Kerry nota 93 em uma escala de 0 a 100", disse Gillespie. "Já o senador Edward M. Kennedy recebeu 88 - cinco pontos a menos. Quem teria adivinhado? Ted Kennedy é o senador conservador de Massachusetts!"

David Wade, porta-voz de Kerry, respondeu de forma quase zombateira. "Se Ed Gillespie e os cães de ataque republicanos quiserem entrar numa briga para mostra quem está fora de sincronismo com os Estados Unidos, que venham", afirmou. "Com 3,1 milhões de empregos perdidos, 2 milhões a menos de norte-americanos cobertos por plano de saúde, a recusa de conceder benefícios aos veteranos inválidos e déficits orçamentários recordes, é George W. Bush o agente que defende os interesses dos ideólogos radicais, e John Kerry é quem está lutando pelo norte-americano comum".

Kerry pode estar falando como um favorito ao se referir às eleições gerais, mas os seus assessores insistem em dizer que ele não age dessa forma. "Ele está se esforçando para ir às ruas, para encontrar e falar com as pessoas", disse Shrum, após um discurso de Kerry para cerca de mil pessoas que o ouviram atentamente na Academia Phillips Exeter, na noite de quinta-feira. "A resposta tradicional de um favorito para tal multidão é acenar de longe. Mas ele parou para dar um alô a todos. Havia cerca de 200 pessoas em uma fila quando Kerry chegou, e ele parou para apertar cada mão."

As multidões que estão saudando Kerry contrastam fortemente com a indiferença à sua candidatura há alguns meses, quando ele se arrastava cerca de 20 a 30 pontos percentuais atrás de Dean nas pesquisas em New Hampshire. Mas foi no difícil outono pelo qual passou que Kerry, longe do foco dos holofotes, começou a cultivar um bom relacionamento com os eleitores, participando de palestras nas quais respondia a todas as perguntas, até mesmo as absurdas, com a mesma atenção.

Atualmente, Kerry está fazendo discursos curtos diversas vezes por dia, e, a seguir, respondendo perguntas por mais de uma hora, de maneira cada vez mais personalizada. Por exemplo, ao ser indagado sobre o programa federal de saúde, ele falou da morte dos seus pais há poucos anos e sobre os desafios de longo prazo para o programa.

As multidões que ouvem os seus discursos não estão apenas maiores. Elas demonstram também mais simpatia pelo candidato. Onde Kerry antigamente precisava enfrentar questionamentos agressivos a respeito do seu voto pela autorização do uso da força no Iraque, ele agora precisa apenas explicar o seu plano para trazer as tropas norte-americanas de volta para casa.

Em Laconia, na manhã da última quinta-feira, Harry Valenciano, 44, funcionários da Secretaria de Habitação, disse que sentiu sinceridade nas respostas dadas por Kerry. "Dentre todos, é nele que eu mais acredito", afirmou. "Posso sentir isso na maneira como fala. Todos os outros candidatos estão engajados nessa campanha apenas para obter ganhos pessoais." Danilo Fonseca

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