Destino do Iraque depende das palavras do enigmático aiatolá Ali al-Sistani

Edward Wong

NAJAF, Iraque - Uma casa austera em uma rua estreita de Najaf se transformou em um centro de poder que rivaliza em importância com o quartel-general da força norte-americana de ocupação, em Bagdá.

Dentro dela, o grande aiatolá Ali al-Sistani, um clérigo solitário de 73 anos, reverenciado por grande parte dos 15 milhões de xiitas iraquianos, recebe a visita e examina os pedidos dos mais proeminentes políticos do país - e frustra os planos cuidadosamente elaborados pela única superpotência mundial.

Na entrada da viela, guarda-costas impedem a entrada da maioria dos visitantes, embora carroças puxadas por burros passem regularmente pelo local. Na manhã de sábado (24/1), mais de 20 homens usando túnicas marrons suplicavam aos guardas que os deixassem ouvir os conselhos do clérigo sobre assuntos de ordem espiritual.

As únicas pessoas autorizadas a entrar foram dois representantes do aiatolá da mesquita Khadimiya, em Bagdá, que foram recebidos com deferência.

A insistência do aiatolá em exigir eleições diretas para uma assembléia nacional transitória antes que ocorra uma transferência de poder, em junho deste ano, tem feito com que o governo Bush lute desesperadamente para preservar os seus projetos de transição política, que prevêem eleições em uma espécie de colégio eleitoral. O aiatolá já desencadeou uma primeira série de mudanças, depois de ter baixado um decreto em junho do ano passado. O forte apoio popular às suas idéias se tornou evidente na segunda-feira passada, quando cerca de 100 mil pessoas marcharam em passeata pelo centro de Bagdá exigindo eleições diretas. Tal influência pode parecer surpreendente, em se tratando de um homem que há seis anos não tem contato com o mundo exterior, raramente dá entrevistas e diz não desejar se envolver com política. Embora ele possua um site na Internet, o www.sistani.org, a página se concentra nos seus pronunciamentos religiosos, que podem girar em torno de assuntos como a permissibilidade inerente a certas práticas sexuais ou a opinião da lei muçulmana sobre o consumo dos esturjões do Mar Cáspio.

Mas, quando se trata de política, a sua casa se transforma em um destino de peregrinação para os líderes iraquianos, assim como a mesquita de Ali (o genro do profeta) - com a sua cúpula dourada -, que fica próxima à residência do aiatolá, atrai devotos xiitas de todo o mundo.

Os homens que visitam o aiatolá compartilham as suas opiniões sobre a ocupação norte-americana e buscam nitidamente o apoio do clérigo no atual vale-tudo político, onde facções competem pela mesma fatia do futuro, mas ainda não delineado, governo iraquiano. Os motivos pelos quais buscam os conselhos de Sistani só são conhecidos por eles próprios, mas esses são alguns dos principais contatos do aiatolá com o mundo exterior, trazendo a eles notícias sobre os últimos acontecimentos e transmitindo as mensagens do clérigo.

Isso faz desses visitantes o único indicador, ainda que incerto, das intenções do aiatolá. Há entre eles ex-exilados políticos iraquianos, imames locais e enviados de Paul Bremer, chefe da Autoridade Provisória da Coalizão.

É inevitável que os líderes mais próximos a Sistani sejam muçulmanos xiitas, muitos dos quais podem obter legitimidade perante a população devido ao apoio do clérigo. Na semana passada, Ibrahim Jafari, xiita venerável, que é o atual chefe do Partido Islâmico Dawa, se encontrou, juntamente com um membro do conselho de governo, com o aiatolá, para discutir um impasse sobre as eleições diretas. Também visitam Sistani com freqüência as autoridades do Conselho Supremo para a Revolução Islâmica no Iraque, um partido político cujos membros retornaram recentemente do exílio no Irã.

Adnam Pachachi, atual chefe do Conselho de Governo, diz que está cético quanto às intenções de alguns dos homens que cercam Sistani. Pachachi se reuniu com o aiatolá há duas semanas para lhe pedir apoio às suas demandas. O aiatolá se recusou a ajudá-lo. Pachachi afirmou em uma entrevista que alguns dos assessores do aiatolá tentam garantir o poder pessoal, enquanto afirmam falsamente que desejam garantir a influência xiita. "Eles querem usar a religião como instrumento para a conquista do poder", disse Pachachi.

Mowaffack al-Rubaie, membro graduado do Partido Dawa na década de 80, afirma agora ser um indivíduo de tendências relativamente seculares. Ele se reúne com o aiatolá uma ou duas vezes por semana e possui uma opinião própria sobre a forma como o clérigo toma decisões.

"A sua maior preocupação é não entregar o país a um governo escolhido pelos norte-americanos", diz Rubaie. "Ele teme que as forças de ocupação imponham ao Iraque um grupo de políticos influenciados pelo Ocidente; liberais fanáticos que vão traçar o futuro do Iraque sem respeitar a cultura e a religião do país".

Talvez para se distanciar das intrigas políticas diárias e para se manter em um nível superior em relação às forças de ocupação, Sistani se recusou a receber Bremer.

O aiatolá, por meio dos seus representantes, também interage regularmente com os outros três grandes aiatolás de Najaf. Eles apóiam as demandas de Sistani, embora nenhum tenha baixado um decreto similar. Muhammad Hussein al-Hakim, filho e porta-voz do grande aiatolá Muhammad Said al-Hakim, diz que os membros da sua organização e os aliados de Sistani se reúnem freqüentemente.

Até mesmo um jovem rival dos clérigos mais velhos, Moktada al-Sadr, aderiu ao movimento pelas eleições diretas. O pai de Sadr, Muhammad Sadiq al-Sadr, um clérigo respeitado, foi assassinado pelo governo de Saddam Hussein em 1999. Agora Sadr está procurando usar o nome do pai - e uma dura retórica antiamericana - para se alçar a uma posição de autoridade.

Embora muita gente sugira que a atuação de Sistani seja uma tentativa de minar uma ação política por parte de Sadr, a organização deste último possui apenas uma fração do apoio popular e dos recursos financeiros do grupo do aiatolá, que conseguiu reunir uma grande fortuna, graças à tradição xiita de fazer doações.

"Conheço Sistani, e estou certo de que ele não está agindo em nome de interesses pessoais", afirma Hakim. "A coisa mais importante para alguém como ele é atuar para atender ao interesse geral do povo. Muita gente talvez simplesmente não consiga entender tal conceito."

Sistani às vezes transmite as suas mensagens por intermédio de líderes políticos, mas o mais freqüente é que utilize os seus representantes religiosos, conforme fez na última sexta-feira, quando mandou um porta-voz dizer aos fiéis em uma mesquita de Karbala que evitassem fazer protestos radicais contra os norte-americanos. O porta-voz disse que a população deve aguardar enquanto a Organização das Nações Unidas (ONU) decide se envia uma equipe para avaliar se seria viável promover eleições diretas.

Os seguidores afirmam que Sistani não quer participar do cenário político, e argumentam que ele usa a política apenas no que diz ao seu dever como marja-al-taqlid, um clérigo graduado com autoridade para interpretar a lei islâmica, a fim de assegurar que o Iraque tenha, no futuro, uma identidade muçulmana. Segundo esses seguidores, ele também está bem consciente de como os xiitas, que compõem 60% da população, foram mantidos durante séculos à distância dos centros de poder na região.

Isso não significa que Sistani queira uma fusão completa do Estado com o islamismo xiita, como ocorre no Irã. Embora o aiatolá tenha nascido na cidade iraniana sagrada de Mashad, começando a estudar o Alcorão aos cinco anos de idade, o seu período de formação teve início aos 20 anos, em Najaf, quando se tornou protegido do falecido grande aiatolá Abu al-Qassim al-Khoei.

Khoei era um defensor da escola "quietista" do pensamento muçulmano, que advoga o distanciamento da política, ao contrário do que foi preconizado pelo aiatolá Ruhollah Khomeini, no Irã.

"Sistani sempre diz algo desse tipo: não encontrei a eleição nos textos de jurisprudência. Não busquei o Alcorão e a tradição profética para chegar ao conceito de eleições. Encontrei tal idéia em um texto sobre democracia", diz Rubaie. Danilo Fonseca

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