Em novo livro, especialista critica política americana para a Coréia do Norte

Stephen Kotkin

O comunismo entrou em colapso. Bem, não exatamente. Isso não ocorreu em Cuba e em toda a Ásia. É verdade que o sistema caiu na Mongólia e no Afeganistão, ambos satélites soviéticos, mas regimes comunistas nativos ainda persistem na China, no Vietnã e na Coréia do Norte. Porém, no imaginário norte-americano, Pyongyang continua sendo um caso a parte.

Os vizinhos de Kim Jong Il não podem ignorar a retórica agressiva e os refugiados norte-coreanos, mas Japão, China, Rússia e especialmente a Coréia do Sul não parecem ter entrado em pânico. Portanto, por que todos esse alarido dos Estados Unidos? Será que as supostas ogivas nucleares e os mísseis imprecisos norte-coreanos seriam capazes de ameaçar o território norte-americano? E, quanto à possível proliferação de armamentos nucleares por parte de Pyongyang, por que não revigorar a Agência Internacional de Energia Atômica? Será que os Estados Unidos deveriam policiar o planeta? E quanto aos demais países? Deveriam ser modelados à imagem do sistema norte-americano? Por que não deixar que aqueles que moram na vizinhança coreana confrontem ou ataquem o paraíso podre dos trabalhadores?

Bruce Cumings, escritor e professor de história da Universidade de Chicago, insiste em dizer que a Coréia do Norte se constitui de fato em uma preocupação dos norte-americanos - uma posição que é compartilhada pelos seus antagonistas que acreditam na existência de um "eixo do mal". Mas, enquanto os falcões do governo Bush defendem uma derrubada do governo da Coréia do Norte, Cumings escreve, referindo-se aos norte-coreanos, que, "bem ou mal, aquele é o país deles - é um outro país". Ele argumenta em seis ensaios, lançados em um momento apropriado (alguns deles já familiares, semelhantes àquilo que já escreveu nos seus vários livros especializados), que os Estados Unidos contribuíram bastante para a grave situação na Coréia do Norte e que os norte-americanos devem reconhecer esse fato e negociar um acordo permanente de paz. Uma hegemonia benevolente? Tais paradoxos fazem com que o livro se retorça em uma dupla hélice formada por pesquisa acadêmica de primeira e comentários excelentes.

Em algumas das melhores passagens do seu livro compacto, recém-lançado, "North Korea: Another Country" ("Coréia do Norte: Um Outro País"), Cumings cita proeminentes jornalistas norte-americanos quando fala do impasse com a Coréia do Norte - a estimativa da Agência Central de Inteligência (CIA) de que o país possui uma ou duas bombas atômicas; alarmes sobre um armagedom, com o intuito de estimular uma ação bélica imediata - antes de revelar que as citações são referentes ao período 1991-1994. Ou seja, o alarido atual é uma reprise. Ele lança mão de fatos históricos instrutivos, que contrapõe à atual onda de histeria.

Um dos capítulos analisa as raízes da revolução norte-coreana, que remontam à guerra de guerrilha contra os japoneses, na década de 30, na Manchúria, mostrando que não foram apenas os tanques soviéticos que alçaram Kim Il Sung e seus aliados ao poder. Outro capítulo examina a sucessão dinástica do filho do líder, Kim Jong Il, que trabalha em casa, de pijamas, mas que em público usa roupas esportivas de poliéster, sapatos de bico fino e óculos de armação exageradamente grandes, com lentes de uma tonalidade malevolente, que lhe dão o ar de um ídolo decadente. Enquanto isso, o seu filho ilegítimo é louco por uma Ferrari, e a filha adotiva zomba do tédio comunista, levando uma vida sofisticada na Suíça - fenômenos que apontam para defecções por parte das elites.

Essas passagens são servidas com doses liberais de antiimperialismo americano e elogios discretos aos norte-coreanos. "Nas minhas esparsas visitas ao país, sempre fui feliz. A simpatia pelo time mais fraco é algo que não posso evitar, já que sempre fui torcedor dos Cleveland Indians", escreve.

Nas colônias penais estão entre 100 mil e 150 mil pessoas, a metade delas composta de prisioneiros políticos, relata Cumings. Mas ele afirma que esses supostos gulags são menores e menos insalubres do que geralmente se diz no Ocidente. Um dos motivos para isso é o fato de as famílias dos detentos ficarem encarceradas com eles. Os cidadãos adultos são obrigados a servir nas forças armadas por um período de oito anos. Durante os seis primeiros anos, não têm direito a folga. O Estado é um quartel (dos 23 milhões de habitantes, sete milhões estão no exército ou fazem parte da reserva), mas ele observa que os recrutas trabalham em brigadas agrícolas e de construção. Uma onda de fome que já dura vários anos continua a matar. O que mantém o país coeso?

"Politicamente, a Coréia do Norte não é um lugar agradável, mas um país passível de ser entendido, como Estado anticolonial e antiimperial, nascendo a partir de meio século de domínio político colonialista do Japão e de mais meio século de confrontação contínua com um hegemônico Estados Unidos e uma mais poderosa Coréia do Sul", escreve Cumings. Ou seja, os poderes do país, assim como as suas "deformações" (eufemismo do autor), emanam, supostamente, não da ideologia comunista e da censura, mas das provações históricas, especialmente o holocausto - conforme ele define o evento - que o norte teve que suportar durante a Guerra da Coréia.

"Em 1950, coreanos invadiram território coreano", diz Cumings. "O que fazer a respeito?". Ele diz que, em 1945, ao utilizarem os paralelo 38 para demarcar as zonas de ocupação norte-americana e soviética, os Estados Unidos estimularam a eclosão de uma guerra. Assim, ele sugere que não foram Kim Il Sung ou Stalin que incitaram as hostilidades, mas sim Dean Acheson e Harry Truman.

Mesmo assim, ele acaba apoiando a expulsão, em 1951, das forças norte-coreanas que invadiram a Coréia do Sul, argumentando que a resposta apropriada não seria a utilização de um sangrento rolo-compressor que empurrasse os invasores até a fronteira chinesa, mas um cessar-fogo bem executado no paralelo 38, que foi onde as coisas terminaram, em 1953. Nesse ínterim, diz ele, os Estados Unidos bombardearam civis com napalm. Três milhões de norte-coreanos, um milhão de sul-coreanos, quase um milhão de chineses e cerca de 50 mil norte-americanos morreram. "Essa foi a 'guerra limitada" da Coréia", escreve Cumings, com fúria. As forças lideradas pelos Estados Unidos bombardearam intensamente as regiões norte e central da Coréia, deixando para trás um vazio coberto de neve e uma nação determinada, que sobreviveu em cavernas.

Cumings condena o governo Bush - "o maior dos males" - por ter recusado os apelos desse "sagaz" regime despótico para que fosse retirado do seu status pós-soviético e protegido de um processo de deglutição pela Coréia do Sul.

Ele elogia a política de distensão adotada pela Coréia do Sul (Sunshine Policy), porque, assim como a distensão, ela preconiza a coexistência e a mudança evolucionária. Mas, quando se trata das reformas em curso na Coréia do Norte, Cumings observa, com ceticismo, que a burocracia divide o país em feudos estanques, enquanto as forças armadas dominantes se beneficiam do status quo. Talvez o maior obstáculo seja a maneira orgulhosa como as elites se aferram às lembranças de como, até a década de 70, o norte superou o sul. Preso em um passado nostálgico, o sistema aguarda uma inevitável mudança de geração.

Apesar das antigas previsões de um colapso e das ameaças verbais de imposição de uma mudança de regime, a Coréia do Norte resiste. Um regime comunista nativo, o Khmer Vermelho, do Camboja, foi deposto pelo também comunista Vietnã. Os regimes revolucionários domésticos foram demolidos a partir de dentro em duas federações multi-étnicas: a União Soviética e a Iugoslávia. Nesta última, de forma cataclísmica. No entanto, mesmo onde o comunismo se autodestruiu, deixou para trás cacos gigantescos, como as fábricas obsoletas e a KGB. As mudanças gerenciadas na China já duram um quarto de século. A derrocada do comunismo é um processo longo.

(Stephen Kotkin, professor de história européia e asiática da Universidade Princeton, é autor do livro "Armageddon Averted: The Soviet Collapse, 1970-2000" ["Armagedom Evitado: O Colapso Soviético, 1970-2000"]) Danilo Fonseca

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