Polícia de Nova York se prepara para atentados terroristas de dimensões catastróficas

William K. Rashbaum e Judith Miller
New York Times News Service

O Departamento de Polícia de Nova York, trabalhando em conjunto com funcionários municipais de saúde, autoridades federais e membros de outras agências, está se preparando para um possível ataque com armas nucleares, biológicas ou químicas. Essa talvez seja a mais assustadora ameaça com que se deparam as cidades norte-americanas na conjuntura que se seguiu ao 11 de setembro.

Reunindo-se em sigilo e realizando simulações complexas, membros do departamento aglutinaram agências governamentais, em uma iniciativa de grandes dimensões, durante grande parte do ano passado. Ao proceder dessa forma, a polícia nova-iorquina colocou em prática um programa que alguns funcionários das áreas policial e de segurança nacional descrevem como não tendo paralelo em outras cidades norte-americanas.

Os policiais dizem que unidades especiais foram treinadas e passaram por simulações como a abordagem de navios de cruzeiro a partir de helicópteros e píeres, além de terem revisado as plantas da maior parte dos teatros da área de Midtown. Essas unidades realizaram exercícios no interior de alguns desses teatros, a fim de aprimorar a sua capacidade de resposta a um possível ataque, já que a lição aprendida com a tomada por extremistas de um teatro em Moscou, há dois anos, não foi esquecida. Neste trimestre, segundo autoridades municipais e federais, a polícia trabalhará juntamente com o departamento municipal de saúde e outras agências para inaugurar um programa piloto que eles esperam que, no futuro, permita às autoridades analisar o ar em toda a cidade para descobrir agentes biológicos de forma rápida e consistente.

O departamento começou também a se preparar para o papel que deverá desempenhar em um amplo plano municipal para a distribuição de antibióticos ou vacinas para todos os moradores, caso ocorra um ataque com armas biológicas. Além disso, o órgão está elaborando planos de segurança para cerca de 200 locais que poderiam funcionar como centros de distribuição desses medicamentos.

Oficiais da polícia dizem que o departamento chegou até mesmo a deslocar alguns de seus membros para participarem de uma simulação em conjunto com o departamento municipal de exames médicos, a fim de se preparar para um ataque com armas químicas, que faria com que as ruas da cidade ficassem coalhadas de corpos contaminados.

"Estamos pensando no impensável - naquilo que há alguns anos era o impensável", disse em uma entrevista recente o comissário de polícia, Raymond W. Kelly, ressaltando que os preparativos não são uma resposta a uma ameaça direta ou específica. "Trata-se de algo que estamos tentando encarar de frente, mas a escala e a magnitude dos problemas envolvidos são impressionantes."

Oficiais do departamento disseram que grande parte do planejamento ainda é de caráter preliminar, e que existe muito ainda a ser feito. E eles admitem que já se sabe que algumas das medidas podem simplesmente ser impossíveis de se colocar em prática. O departamento, por exemplo, está tomado de profundas preocupações quanto à sua capacidade para impor uma quarentena em toda a cidade, ou mesmo em partes dela.

"Eles estão tentando fazer é aquilo que Washington deveria, mas não está fazendo", disse Richard A. Clarke, um ex-assessor de segurança nacional dos governos Bill Clinton e George W. Bush.

As semanas de reuniões entre os oficiais do departamento e os meses de exercícios e simulações, quando as autoridades se debruçaram sobre os problemas inéditos que um ataque poderia representar, revelam tanto os desafios colossais com os quais a cidade se defronta, quanto a dimensão dos planos de segurança discutidos.

Entrevistas extensivas revelam, entre outras coisas, que o departamento se programou na quarta-feira passada para dar início ao treinamento contra ataques químicos e biológicos para unidades inteiras, com o objetivo de contar com 10 mil policiais de prontidão à época da Convenção Nacional Republicana, que acontecerá de 30 de agosto a 2 de setembro no Madison Square Garden. O departamento está também ajudando a preparar as diretrizes para que detetives policiais e agentes do FBI sejam capazes de conduzir investigações conjuntas com epidemiologistas do departamento municipal de saúde, caso ocorra um ataque biológico.

Alguns funcionários do departamento de saúde obterão credenciais de segurança ultra-secreta, de forma que eles também possam usar informações sigilosas como parte dessas investigações, disseram as autoridades policiais.

O departamento está também elaborando um plano para abrigar e alimentar milhares de policiais - em alguns casos em escolas municipais -, para ajudá-los a continuar trabalhando após um ataque catastrófico.

As lições do 11 de setembro

O desempenho passado da agência ao responder a catástrofes não foi exatamente o que se poderia chamar de um sucesso absoluto. De fato, alguns críticos disseram que grandes lacunas com relação à coordenação e ao planejamento ficaram evidentes nas respostas aos ataques de 11 de setembro. Mas as autoridades dizem que foi, em parte, para lidar com vários desses problemas, e para fazer planos para enfrentar as ameaças futuras que se convocou uma equipe de especialistas, incluindo David Cohen, ex-funcionário graduado da Agência Central de Inteligência (CIA), e Michael Sheehan, chefe da divisão de contra-terrorismo do Departamento de Estado no governo de Bill Clinton.

Os oficiais reconhecem que, após um grande ataque, as responsabilidades do Departamento de Polícia seriam enormes e que poderia haver uma carência significativa de pessoal, apesar de a força contar atualmente com cerca de 37 mil policiais, sendo a maior agência policial municipal do país. Os policiais seriam necessários para fornecer segurança aos hospitais, aos centros de distribuição de medicamentos e a outros locais. Eles desempenhariam ainda um papel na tarefa de proteger e transportar os medicamentos a partir da reserva farmacêutica estratégica, que é onde a cidade obteria os antibióticos e vacinas que seriam distribuídos após um ataque biológico.

Outros policiais seriam necessários para manter a ordem em uma cidade em estado de pânico, que poderia vivenciar um êxodo maciço, ao mesmo tempo em que o departamento estaria procurando aumentar o número de patrulhas, a fim de evitar um possível ataque secundário, enquanto estivesse investigando aquele já consumado.

Um muro de defesa de alta tecnologia

Os especialistas argumentam há muito tempo que a detecção precoce seja talvez o aspecto mais importante de uma resposta a um ataque químico ou biológico. E, assim, durante meses Nova York vem tentando adquirir o mais sofisticado equipamento de detecção disponível.

Tendo esse objetivo em mente, os administradores da cidade têm trabalhado com o Laboratório Nacional Lawrence Livermore, que desenvolveu o Sistema de Detecção Autônomo de Patógenos (APDS, na sigla em inglês). Esses dispositivos não só monitoram continuamente o ar, mas também detectam e identificam automaticamente, por meio de testes múltiplos e simultâneos, a presença de mais de 100 bactérias e vírus diferentes em apenas 45 minutos.

Totalmente automatizados, eles operam 24 horas por dia, por uma semana inteira, sem manutenção ou intervenção humana, explica John M. Dzenitis, o engenheiro do Livermore que é encarregado do programa.

J. Patrick Fitch, chefe do Programa de Segurança Biológica e Química Nacional do Livermore, diz que a capacidade do detector de testar mais de 100 agentes, ao buscar as características de proteínas e DNA, é o que diferencia o sistema de outros detectores. Ele diz que Washington investiu mais de US$ 20 milhões desde 1998 no desenvolvimento do sistema, que foi testado nos aeroportos de Albuquerque e São Francisco, e também no sistema de metrô de Washington, D.C.

"Isso é o mais próximo que qualquer sistema pode chegar da detecção instantânea", afirma Dani-Margot Zavasky, a especialista médica em doenças infecciosas que foi contratada pelo departamento municipal de contra-terrorismo como diretora médica, em 2002.

Devido ao fato de os germes se disseminarem rapidamente, um intervalo de algumas horas pode significar a diferença entre conter uma epidemia e permitir que ela se alastre. Se a cidade fosse atacada com varíola, teria apenas quatro dias para vacinar as pessoas potencialmente expostas ao vírus, que mata cerca de um terço dos indivíduos infectados.

Mas autoridades municipais e federais advertem que o sistema APDS ainda não está pronto para operar ao ar livre de forma autônoma, porque, entre outras coisas, precisa passar por testes mais rigorosos. "O que acontece é que não sabemos se o sistema funcionaria se houvesse gelo, calor, ventos forte ou se alguém subisse nele", explica uma autoridade federal.

Funcionários federais e municipais do setor de contra-terrorismo dizem esperar que vários dos novos detectores possam ser instalados a tempo de serem utilizados durante a convenção republicana.

Assim, por ora, a cidade continua confiando naquela tecnologia que está sendo aplicada em cerca de 30 cidades do país. Esse sistema, conhecido como "Biowatch", utiliza o conceito de monitores atmosféricos ambientais para determinar a presença de cerca de 15 patógenos potencialmente letais no ar. Dez desses monitores portáteis estão espalhados pela cidade.

Mas as autoridades reconhecem que o Biowatch não possibilita a "detecção em tempo real". Funcionários federais ou trabalhadores contratados precisam coletar os filtros dos monitores todos os dias - ou com maior freqüência, durante um período de alerta elevado - e levá-los aos laboratórios do governo para a realização de testes. Isso faz com que demore pelo menos 24 horas até que os resultados sejam conhecidos.

Oito milhões de vacinas

"Nenhuma cidade está tão ansiosa quanto Nova York para receber tudo o que temos à disposição", diz Penrose "Parney" Albright, do Departamento de Segurança Interna.

O plano da cidade para vacinar os moradores ou distribuir medicamentos após um ataque biológico maciço ou um surto de doença infecciosa, inicialmente formulado antes dos ataques de 11 de setembro, continua se constituindo em um desafio logístico formidável que envolveria mais de doze agências e, segundo as autoridades, dezenas de milhares de funcionários públicos municipais e voluntários.

No pior cenário possível, em um ataque de grandes dimensões, o plano prevê o funcionamento de mais de 200 pontos de distribuição nos cinco bairros para os quais cerca de 8 milhões de pessoas se deslocariam em busca de medicamentos e vacinas.

O plano, conhecido como "plano POD", que é o acrônimo em inglês de Ponto de Distribuição, foi criado pelo Departamento de Administração de Emergência (OEM, na sigla em inglês), que começou a funcionar em 1998. Funcionários do OEM e do Departamento Municipal de Saúde, que talvez seja a organização que desempenharia o principal papel no caso de uma catástrofe, dizem que permitiriam que a cidade vacinasse ou distribuísse medicamentos para toda a população, atendendo cerca de 40 mil pessoas em cada um dos 200 PODs em um período de cinco a dez dias.

As autoridades reconhecem que o objetivo - proporcionar à cidade a capacidade de fornecer medicamentos de maneira suficientemente rápida para salvar vidas - seria extraordinariamente difícil de ser alcançado em meio à atmosfera de crise que seria criada por um ataque com varíola ou outro patógeno.

Mas o comissário de saúde, Thomas R. Frieden, assim como funcionários do OEM e de outras agências, dizem que o plano é flexível, bem planejado e abrangente. Segundo eles, tal plano daria conta do recado.

"Não estou minimizando as dificuldades que surgiriam", afirma Frieden. Mas ele cita, como exemplo, a campanha maciça de vacinação contra a varíola em Nova York há 50 anos. "Em 1947, a cidade vacinou 6 milhões de pessoas em três semanas. Portanto, é algo que já foi feito anteriormente." Danilo Fonseca

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