Futuro do Iraque pode ser a democracia ou o caos

John Aloysius Farrell
The Denver Post
EM BAGDÁ

O motorista deixou-me no meio da tensa e fervilhante capital do Iraque, no mesmo dia em que um mártir dirigindo uma picape Toyota branca atacou na Porta dos Assassinos (Assassins' Gate, a entrada principal da superprotegida Zona Verde, no Centro de Bagdá, que dá acesso ao palácio Republicano, a fortaleza do ex-ditador Saddam Hussein, onde operam as forças da coalizão).

Naquela manhã fria e nevoenta, o homem-bomba disparou meia tonelada de explosivos ao lado do arco de pedra em forma de redoma que serve de guarita e dá acesso à área onde as forças da coalizão instalaram seus quartéis-generais, civil e militar.

Nenhum soldado americano foi morto, uma vez que as barreiras mantêm os veículos não revistados fora dos limites de um perímetro de segurança.

Mas a bomba ceifou 30 vidas entre as pessoas que passavam de carro em pleno horário de rush e uma multidão de trabalhadores iraquianos, funcionários e empresários que faziam negócios com os americanos. Estes formavam uma fila diante do cordão de segurança.

Duas semanas mais tarde, os homens-bomba atacaram os quartéis-generais de dois partidos políticos curdos em Arbil, no norte do Iraque, matando cerca de 100. Além disso, na semana passada, depois de eu ter deixado a cidade, uma dupla de carros-bomba deixou mais uma centena de mortos em ataques suicidas contra uma delegacia de polícia ao sul de Bagdá, que era também um centro de recrutamento do exército na capital.

A fúria dos atentados ofusca a sua real gravidade e a sua relevância em termos estratégicos. Embora eles não tivessem revelado a sua fonte, os comandantes do exército em Bagdá anunciaram que a campanha de atentados à bomba constituía uma mudança desesperada de tática por parte dos insurgentes iraquianos. Era tanto um sinal de sucesso dos americanos quanto uma indicação de que tempos de tormentos e sangrentos estão por vir.

Numa longa e furiosa carta, Abu Musab al-Zarqawi, um terrorista jordaniano que opera atualmente nesta capital, escreveu, em meados de janeiro, a colegas da Al Qaeda, que a estratégia dos americanos estava dando certo: aos xiitas e aos grupos étnicos curdos que receberam com satisfação a derrubada de Saddam Hussein estão agora se juntando membros da minoria sunita, em busca de paz, o que está privando as guerrilhas de muitos recrutas potenciais.

"O Iraque não tem montanhas onde se pode buscar refúgio, nem florestas onde é possível se esconder. A nossa presença é visível e as nossas movimentações ocorrem a céu aberto. Por toda parte, há olhares à espreita", escreveu al-Zarqawi nesta carta que as forças americanas interceptaram. "O nosso futuro está ficando assustador (...) Estamos correndo contra o tempo."

Antes que os Estados Unidos devolvam o poder civil ao povo iraquiano, em junho próximo, os insurgentes têm uma chance final, acrescentou al-Zarqawi, de "redistribuir as cartas" e "deflagrar uma guerra civil por meio de operações suicidas e (...) carros-bomba que alvejem iraquianos, e todas essas instituições corruptas que apareceram por aqui, em atentados que incentivem a maioria xiita a tomar o caminho sanguinário da vingança"...

"A América não tem a menor intenção de deixar o Iraque", prosseguiu al-Zarqawi na sua carta. "E as extensas colunas de tropas e de veículos americanos que pululam nas estradas são a prova de que eles estão trazendo forças novas para tomar o lugar daqueles que vão voltar para casa depois de um ano de serviço. Os americanos também estão encaminhando material e equipamentos destinados a transformar os postos avançados temporários em bases iguais àquelas que eles montaram na Bósnia ou em Kosovo, onde as barracas há muito deixaram o lugar para trailers, quartéis e outras estruturas permanentes..."

"Eu acho que nós vamos ficar por aqui por 20 anos", diz o tenente-coronel Joseph Lofgren, um comandante de logística da equipe da 3ª Brigada de Combate. "Se nós implantarmos uma democracia e se ela não desandar numa guerra civil, isso será uma boa coisa. Mas nós formamos um ótimo alvo para eles, então as baixas nas nossas fileiras irão continuar."

Se Al-Zarqawi e os outros insurgentes conseguirem o seu intento, Bagdá irá ferver assim como Belfast ou Jerusalém, ou ainda ser arrasada pela guerrilha urbana assim como aconteceu em Beirute. Para detê-los, nós temos de arriscar a vida de um número cada vez maior dos nossos homens e mulheres.

Muitos desses garotos estão voltando para casa agora, no quadro de um imenso revezamento de tropas. Alguns estão voltando para encarar um divórcio. Outros para enfrentar noites de insônia ou de pesadelos. Muitos irão assumir as tarefas caseiras e a educação de seus filhos no lugar da esposa, de quem agora será a vez de fazer as malas, vestir um uniforme caqui e embarcar para o Iraque.

Recebam-nos bem, com muito carinho. As tropas que eu visitei mantiveram seus ideais, mesmo nas condições mais adversas. Elas prestaram serviços árduos em nosso nome. Elas ofereceram a um povo que vivia sob o regime de um tirano uma chance de conquistar a sua liberdade.

E tratem com muitas honras os que agora estão partindo, cujas famílias não sabem em que estado voltarão, e se eles voltarão.

A paz esteja com aqueles que estão próximos, disse o profeta, e também com aqueles que estão distantes... Allahu akbar.

* John Aloysius Farrell é diretor de redação do "The Denver Post" em Washington Jean-Yves de Neufville

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