Empresas de monitoramento eletrônico de animais prosperam nos EUA

Alina Tugend
New York Times News Service

Quer se trate de vacas ou de gatos, o trabalho de encontrar e identificar animais está a cada dia mais fundamentado na alta tecnologia. E isso é uma boa nova para a Digital Angel Corporation, uma empresa de Saint Paul que atua no ramo de monitoramento de animais há seis décadas.

Após dois anos difíceis, a Digital Angel está com uma nova equipe de gerenciamento e pressente o surgimento de uma grande oportunidade com a guerra global contra o mal da vaca louca e a tecnologia para a localização de alvos diversos, como animais de estimação perdidos e pilotos de aeronaves militares abatidas. "Tudo o que é necessário é mais um caso do mal da vaca louca. Daí é só ver as coisas deslancharem", afirma David Talbot, diretor da corretora de títulos Melhado, Flynn & Associates e investidor da Digital Angel.

Em dezembro, após o Departamento de Agricultura ter anunciado o primeiro caso de mal da vaca louca nos Estados Unidos, as ações da Digital Angel dobraram de valor, chegando a US$ 5. Na última quarta-feira as ações da empresa valiam US$ 2,99.
A companhia já está lucrando com os seus microchips Home Again, que podem ser implantados em animais de estimação e lidos com um scanner para que sejam identificados. Cerca de 70 mil abrigos de animais e veterinários de todo o mundo possuem os scanners, e mais de 2 milhões dos 100 milhões de animais de estimação do país possuem esses chips, que têm o tamanho de um grão de arroz e são implantados com uma seringa.

"É um negócio que, para nós, tem sido excelente nos últimos quatro anos", afirma Kevin N. McGrath, que se tornou diretor-executivo da Digital Angel's no mês passado. A companhia prevê que as vendas dos chips aumentarão substancialmente neste ano, em relação aos US$ 8 milhões vendidos no ano passado, quando respondiam por um quinto das receitas da empresa.
Uma empresa rival, a Avid Identification Systems, de Norco, Califórnia, diz ter implantado os seus dispositivos de rastreamento FriendChips em cerca de 5 milhões de animais de estimação nos Estados Unidos.

Mas a Digital Angel diz ser detentora de uma patente de um produto mais avançado, que permite que os veterinários utilizem os seus scanners para medir a temperatura dos animais, como alternativa ao método de introdução de um termômetro no reto, que freqüentemente faz com que os bichos entrem em pânico. O produto, denominado Bio-Thermo, está sendo testado no Reino Unido e deve ser comercializado nos Estados Unidos daqui a seis meses.

A Digital Angel também está cheia de expectativas com relação aos seus aparelhos que localizam helicópteros e pilotos de aeronaves abatidas. Ela adquiriu uma companhia denominada Outerlink, que fornece sistemas via satélite para a localização e comunicação com helicópteros e outros veículos, como caminhões. E, segundo a empresa, existe uma grande demanda pelos aparelhos fabricados pela sua subsidiária Signature Industries, que ajudam na localização de pilotos acidentados que abandonaram as suas aeronaves.

McGrath diz que a Real Força Aérea do Reino Unido comprou 5.000 desses aparelhos, tendo utilizado alguns deles no Iraque, e que planeja substituí-los por novos modelos no ano que vem. A Força Aérea Indiana assinou um contrato no valor de US$ 7,5 milhões para adquirir uma quantidade não especificada dos aparelhos, e, segundo McGrath, a empresa começou a fazer demonstrações para o Exército dos Estados Unidos. Essa tecnologia poderá ajudar os consumidores a encontrarem, por exemplo, adeptos da exploração de trilhas, esquiadores ou navegadores perdidos.

A Digital Angel possui vínculos antigos com agências do governo encarregadas de localizar animais selvagens ou domésticos. Ela possui contratos com o Departamento de Energia no valor de US$ 9 milhões anuais para determinar os efeitos de represas hidroelétricas sobre o salmão, colocando sinalizadores nos peixes e monitorando a sua movimentação. Além disso, fechou também um pequeno contrato com o Departamento de Agricultura para o fornecimento de transmissores de identificação e microchips para a localização de ovelhas, que são vulneráveis a uma desordem degenerativa denominada "scrapie", assim como de veados e alces em cativeiro, que também estão sujeitos à doença crônica conhecida como "wasting disease". As duas doenças são similares ao mal da vaca louca.

Mas, talvez, a maior oportunidade empresarial para a Digital Angel seja a súbita demanda por um programa mundial de contenção do mal da vaca louca, uma doença fatal que, em casos raros, é transmitida aos seres humanos. Nos anos 90, a doença se espalhou pelo Reino Unido, gerando grandes prejuízos para os pecuaristas, já que as vendas de carne desabaram tanto no país quanto no exterior.

Nos Estados Unidos, o Departamento de Agricultura está estudando a possibilidade de exigir que todos os 95 milhões de vacas do país usem tarjas eletrônicas auriculares até julho de 2006, o que representaria um aumento de 10% em relação a hoje, a fim de determinar a origem dos animais. Um sistema nacional de rastreamento desse tipo substituiria as atuais tarjas estaduais, segundo Scott Stuart, presidente da Associação Nacional de Produtores de Animais de Corte. Dependendo de como seja esquematizado, o programa poderá render milhões de dólares à Digital Angel.

"Se conquistarmos 50% do mercado, não venderemos centenas de milhões de dólares em tarjas para animais de corte. Mas, mesmo assim, as vendas poderão dobrar, ou até mesmo quadruplicar, com relação ao ano passado, quando o valor das vendas chegou a US$ 7 milhões", diz McGrath.

A Digital Angel tem tudo para lucrar com o setor de monitoramento de gado, mas há muitos concorrentes, adverte Stuart. A AllFlex USA Incorporation, de Dallas, domina o mercado internacional, embora a sua área específica seja a de tarjas visuais não eletrônicas.

O implante de chips eletrônicos em gado pode um dia se tornar uma técnica popular, mas, provavelmente, ainda demorará muito para que isso aconteça, já que muitos fazendeiros preferem o velho ferro em brasa, diz Stuart. Alguns fazendeiros chegam a considerar as tarjas auriculares uma invasão da privacidade. "Muita gente rejeita essa técnica, mas nós dizemos que, se não contarmos com um bom sistema de monitoramento, todo o rebanho poderá ser dizimado", afirma.

Tanto a Digital Angel quanto a AllFlex dizem que estão recebendo bastante atenção de potenciais investidores, da indústria pecuária e de governos estaduais. "Trata-se de um período muito dinâmico", diz Glenn Fischer, vice-presidente da AllFlex da América do Norte.

Um grande filão para essa tecnologia é o Brasil, que possui 150 milhões de cabeças de gado bovino, sem, no entanto, contar com um sistema nacional de identificação. A Digital Angel tem procurado fazer negócios na América Latina, e também está realizando sondagens na Europa, especialmente na Escócia, que tem planos para a implementação de um sistema de monitoramento de ovelhas.

A nova equipe de gerenciamento da companhia assumiu o comando há seis meses, sendo liderada por McGrath, ex-vice-presidente da Hughes Electronics Corporation. A Digital Angel, cuja acionista majoritária é a Applied Digital Solution (73% das ações), e possui 250 funcionários, fabrica tarjas de plástico para animais de corte há 60 anos. "No início, eram rótulos de papel colados no dorso dos animais", diz Kevin Nieuwsma, presidente da divisão de identificação por rádio-freqüência da companhia. "Depois, foi a vez das tarjas auriculares plastificadas". Este ainda é o método mais popular, embora as tarjas eletrônicas tenham começado a substituí-lo na década de 80.

A Digital Angel passou por um período difícil nos últimos anos, registrando uma redução de US$ 92 milhões nas vendas em 2002, e uma queda de receitas de US$ 4,9 milhões nos primeiros nove meses do ano passado. McGrath atribui a má performance aos custos crescentes de desenvolvimento e a vários negócios mal sucedidos, alguns deles relacionados a compras de outras empresas.

"As perdas operacionais reais estão próximas aos US$ 9 milhões", afirma. "É por isso que posso falar com bastante confiança sobre o futuro." Ele prevê que a empresa deixe de operar no vermelho neste ano.

Outras pessoas dizem que a companhia cresceu demais. "A empresa fez um monte de apostas altas", diz McGrath. "Não é que eles não devessem ter procedido dessa forma, mas o número de iniciativas foi demasiadamente grande."

Um grande desapontamento foi o investimento em um relógio de pulso que utiliza o Sistema de Posicionamento Global (GPS) para monitorar crianças ou parentes idosos que sofrem de Alzheimer. Segundo Talbot, essa tecnologia não fez o sucesso esperado.

"O passado é confuso", afirma. "Mas o futuro parece bem empolgante." Danilo Fonseca

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