Grandes incêndios na Amazônia podem provocar tempestades violentas na América do Sul

Por Keay Davidson
DO SAN FRANCISCO CHRONICLE

A fumaça gerada por incêndios gigantescos na Amazônia poderia alterar o clima em grande parte da América do Sul, provocando talvez um número maior de temporais e tempestades de granizo, alertaram na sexta-feira cientistas especializados nessa área de pesquisa.

Os habitantes pobres da floresta costumam atear fogo à mata a fim de abrir espaço para pastagens e lavouras. Mas, à medida que as chamas incineram as selvas, oceanos de partículas de fuligem cinza-azulada sobem e interagem com as nuvens de chuva comuns, absorvendo a sua umidade. Dessa maneira, retiram as nuvens do céu, assim como um apagador remove a escrita feita com giz em um quadro negro, disseram pesquisadores na edição da última sexta-feira do periódico "Science".

Esse processo de "apagamento" das nuvens poderia agravar as secas e - considerando que as nuvens normalmente resfriam a Terra, ao protegê-la da radiação solar - contribuir para o aquecimento global. Paradoxalmente, a mesma fumaça poderia desencadear tempestades maiores e mais violentas, ao alterar o índice de resfriamento das "bolhas" de ar quente ascendente que alimentam as tormentas, especulam os cientistas.

Um possível resultado disso seria o surgimento de violentas tempestades, cujos ventos poderiam provocar devastação generalizada. Eles poderiam ainda criar granizo, não do tipo que surpreendeu São Francisco na última quinta-feira, com partículas relativamente pequenas, e que se desfizeram rapidamente, e sim daquela categoria formada por blocos grandes e pesados, capazes de destruir plantações, matar o gado e arrasar vilas em um raio de vários quilômetros.

"Isso aponta para um vínculo entre a destruição das florestas e a mudança climática", avisa Jennifer Krill, diretor de campanhas da organização Rainforest Action Network, com sede em São Francisco.

Os incêndios amazônicos impressionam até mesmo os californianos, acostumados a presenciar os fogos que devoram periodicamente as florestas do Estado.

"Várias centenas de milhares de incêndio consomem a Amazônia todos os anos, durante a estação seca, encobrindo vastas áreas com uma fumaça densa", relataram os cientistas em um dos três artigos publicados na "Science".

"Um incêndio amazônico é algo horrível, mas espetacular no seu horror", disse Yoram Kaufman, co-autor de um outro artigo da Science. Ele trabalha no Centro Goddard de Vôos Espaciais da Nasa, em Greenbelt, Maryland.

Nas expedições de pesquisa, os cientistas viram "a fumaça pesada dos incêndios florestais" destruir as nuvens ou impedir que estas despejassem chuvas, segundo a equipe liderada por M.O. Andreae, do departamento de biogeoquímica do Instituto Max Plank, em Mainz, Alemanha.

Isso ocorre porque as pequenas moléculas de vapor d'água tendem a se condensar nas grandes partículas de fumaça. Portanto, as moléculas de vapor ficam isoladas umas das outras e, assim, é menos provável que se aglutinem em uma quantidade de gotas d'água suficiente para que haja precipitação na forma de chuva.

Por meio de instrumentos instalados em aeronaves, os cientistas observaram a fumaça ascendente "reduzir o tamanho das gotas de chuva, adiando o início da precipitação" em altitudes de até 6.500 metros, revelou a equipe de Andreae.

Normalmente, as nuvens são formadas a partir da condensação do vapor d'água em uma bolha de ar quente e úmido, à medida que esta ascende na atmosfera, onde se expande, se resfria e se condensa em gotas cintilantes de chuva. Porém, quando há incêndios de proporções gigantescas, a fumaça impede que as nuvens quentes de vapor d'água se condensem em baixas altitudes. Assim, em certos casos, a condensação é retardada até que a bolha atinja uma maior atitude, teoriza a equipe de Andreae.

Segundo eles, como resultado disso, as nuvens de chuva influenciadas pela fumaça podem ser mais altas que o normal. E isso é uma má notícia, já que nuvens de chuva altas tendem a gerar correntes de ar ascendentes mais violentas e ventos devastadores no nível do solo.

E o mais assustador é que essas correntes ascendentes carregam as gotas de chuva para altitudes maiores. Lá, em temperaturas abaixo de zero, as gotas se condensam em pedaços de granizo que sobem e descem repetidamente, como em uma montanha russa. Dessa forma, essas partículas vão sendo envolvidas progressivamente por camadas cada vez mais espessas de gelo, até que se tornam tão grandes que caem ao solo. (Quando se corta uma partícula de granizo, as suas camadas semelhantes às de uma cebola indicam quantas vezes ela subiu e desceu no interior da tempestade).

Especialistas independentes reagiram aos artigos publicados pela "Science" com interesse, mas também com cautela. Segundo eles, ainda é muito cedo para que se afirme se e como os incêndios da Amazônia poderiam gerar tempestades mais perigosas, embora tal possibilidade mereça ser detalhadamente estudada. Esses especialistas dizem que até mesmo as precipitações normais continuam sendo um objeto de estudo cercado de mistérios.

Basta pensar nas nuvens marítimas quentes que pairam sobre os oceanos. Até hoje, os cientistas não descobriram como essas nuvens se condensam em gotas de chuva em 15 minutos, como acontece freqüentemente, ao invés de em 40 minutos, conforme o previsto pelos modelos de computador, diz o observador independente Daniel Breed, físico de nuvens do Centro Nacional de Pesquisa Atmosférica, em Boulder, Colorado. Danilo Fonseca

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