Por que o Oscar às vezes não premia os melhores filmes estrangeiros

Bryan Curtis
New York Times News Servic

Para se ter uma idéia do absurdo que é a categoria de melhor filme em língua estrangeira, premiada pela Academia, basta examinar a história de "Cidade de Deus". Em 2002, o Brasil submeteu o filme de suspense urbano de Fernando Meirelles para concorrer ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Os júris da Academia não se mostraram impressionados, e, em vez do trabalho brasileiro, cinco outros filmes receberam a indicação para a categoria.

No ano seguinte, com um empurrãozinho da Miramax, "Cidade de Deus" estreou em mais de 150 salas de exibição nos Estados Unidos, gerou críticas empolgadas e terminou na lista dos dez melhores filmes do ano de alguns críticos. Quando o filme foi novamente lembrado para o Oscar, desta vez para a competição geral, conseguiu quatro indicações importantes, incluindo ao prêmio de melhor diretor e ao de melhor roteiro adaptado. Portanto, aquele que há um ano não era um dos melhores filmes estrangeiros, agora o é. Ponto. Um jurado disse, referindo-se a "Cidade de Deus": "Isso, por si só, se constitui em um insulto real ao nosso comitê. Nós sequer indicamos 'Cidade de Deus' para concorrer ao prêmio de melhor filme estrangeiro, e agora o filme recebe quatro indicações."

À medida que se aproxima a noite da cerimônia de domingo, a categoria de língua estrangeira continua sendo o problema anual do Oscar. Quem perguntar a qualquer membro da indústria cinematográfica sobre os indicados deste ano - entre os quais está um sucesso importante, "As Invasões Bárbaras", do Canadá, e quatro outros filmes que mal foram notados - perceberá que existem vários graus de confusão. Ken Rudolph, um ex-diretor de documentários e jurado da categoria língua estrangeira desde 1980, admite: "Não estou dizendo que acredito que esses sejam os melhores filmes estrangeiros. Não creio que ninguém esteja afirmando tal coisa. Trata-se de uma categoria muito estranha".

E a academia é a primeira a concordar. Mark Johnson, diretor do comitê de seleção dos filmes de língua estrangeira, disse, na semana passada: "É uma queixa e uma reclamação que possui um mérito real. No momento, não sei como lidar com o problema de maneira efetiva".

Para ser indicado para o prêmio de melhor cinematografia ou figurino, um filme precisa conquistar uma grande porção dos votos. Alguns vão para melhor atriz ou diretor. Mas os concorrentes a melhor filme estrangeiro estão sujeitos a um conjunto de "regras especiais" marcado por vulgaridades, instruções bizarras e procedimentos atrapalhados. O efeito disso tudo foi que, ano após ano, alguns dos melhores filmes do mundo ficam de fora da competição.

Examinemos a regra mais básica da categoria: cada país deve submeter apenas um filme por ano. A determinação foi baixada em 1957, um ano após o "filme em língua estrangeira" ter se tornado uma categoria competitiva, a fim de evitar que os pequenos países, que tinham frágeis indústrias cinematográficas, se perdessem em meio à confusão. Porém, aquilo que foi elaborado como uma maneira de tornar a disputa mais justa para os contendores, parece tê-la nivelado de tal forma que a deixou irreconhecível.

Por que a França ou o Japão, que seriam capazes de apresentar vários filmes dignos do Oscar todos os anos, precisam se conformar à escala de produção do Peru? Atualmente, a Academia chega a encorajar os "quase-Estados", como Palestina e Porto Rico, a disputarem o prêmio.

Além do mais, não há regras estabelecidas para determinar como os países devem fazer a sua seleção. Em alguns casos, isso fica a cargo de uma academia no estilo norte-americano. Em outros, a tarefa cabe a um "apparatchik" do Ministério da Cultura (a escolha nem sempre é difícil, é claro: a participação da Mongólia neste ano, com "The Story of the Weeping Camel", se deve, em parte, ao fato de este ser um dos poucos filmes narrados que o país produziu em sua história). "Cada país que submete um filme possui os seus próprios critérios", explica Urman. "Assim, de saída, não estamos lidando necessariamente com os melhores filmes estrangeiros."

As negligências têm sido lendárias. Em 1985, o Japão se esqueceu de "Ran", um dos clássicos de Akira Kurosawa. E, no ano passado, a Espanha esnobou "Fale com Ela", um filme de Pedro Almodóvar bem recebido pela crítica, preferindo um drama chamado "Segunda-feira ao Sol". Neste último caso, a razão prevaleceu, e a academia premiou "Fale com Ela" com o Oscar de melhor roteiro original (e indicou Almodóvar ao prêmio de melhor diretor).

Outros lapsos da Academia fazem ainda menos sentido. As regras estipulam que, em quase todos os casos, um indicado estrangeiro precisa ser filmado "predominantemente na língua oficial do país que submete o filme". Em 1993, a Polônia submeteu "A Liberdade é Azul", de Kryzysztof Kieslowski, parte da sua trilogia "Três Cores". A Academia o rejeitou porque o filme foi feito em francês, com atores franceses - aparentemente ele não era suficientemente polonês. No ano seguinte, a Suíça tentou indicar o filme "A Fraternidade é Vermelha", de Kieslowski - filmado na França e ambientado na Suíça. O trabalho também foi rejeitado porque, desta vez, o filme foi tido como demasiadamente polonês.

No ano passado, o britânico "The Warrior" foi rejeitado porque grande parte das suas falas ocorre em hindu. Em vez disso, o Reino Unido submeteu um filme falado em galês, que a Academia aceitou, embora o universo de britânicos que falam hindu supere em cerca de um milhão de habitantes o grupo dos que falam galês. A contagem dos votos também traz outros problemas. Quando os membros da Academia votam em uma categoria, como melhor diretor, eles submetem as suas cinco principais escolhas em ordem numérica. Na maior parte dos casos, os cinco diretores que recebem mais votos para o primeiro lugar são os indicados. Portanto, se uma ampla facção de jurados adorar Fernando Meirelles, ele ganhará a indicação, não importando o que os outros pensem do diretor brasileiro.

No entanto, na categoria língua estrangeira, os júris dão a cada filme uma nota de seis a dez, e os cinco indicados são os filmes que conseguem as médias mais altas. A Academia afirma que confere notas à categoria desta maneira porque nem todo mundo viu todos os filmes. Mas, há um problema com essa metodologia. Uma facção que tenha adorado "Cidade de Deus", e conferido nota máxima ao filme, pode ser anulada por jurados que detestaram a violência explícita e saíram da sala de exibição antes do fim. Com o passar do tempo, isso pode fazer com que a Academia passe a indicar os trabalhos mais convencionais e menos ameaçadores.

Porém, se todo mundo concorda que as regras que regem as indicações para melhor filme estrangeiro são precárias, não existe acordo quanto à forma de resolver o problema. Algumas soluções são óbvias: acabar com a obrigação de que seja utilizada a língua nativa. Incluir filmes com procedência nacional ambígua. Utilizar, no caso de filmes estrangeiros, um critério de contagem de votos semelhante ao das outras categorias do Oscar. Mas, mesmo assim, ainda haveria o problema do conjunto dos candidatos à indicação. Como garantir que filmes como "Ran" não sejam preteridos pelos próprios países onde foram produzidos? Talvez a resposta seja permitir que a Academia acrescente uns 12 filmes extras em "eleições informais".

O processo funcionaria da seguinte forma: após os países estrangeiros terem submetido os seus filmes, um comitê da Academia poderia selecionar 12 filmes adicionais para a lista dos candidatos à indicação - não importando qual fosse o país ou o idioma. Neste ano, por exemplo, o comitê poderia ter corrigido erros como a ausência de "Borboleta Púrpura", que não foi submetido pela China, ou "Ouro Carmim", filme premiado no Festival de Cannes, e que foi banido das salas de exibição iranianas. Qualquer que fosse o caso, entre esses 12 filmes e aqueles apoiados pelos respectivos países, haveria ao final um conjunto suficientemente internacional e distinto.

É claro que essa solução não é perfeita. É quase certo que ela favoreceria os filmes estrangeiros vinculados às grandes distribuidoras norte-americanas. Conforme observa Urman, "deveria ser possível que um filme sem nenhum pedigree tivesse as mesmas chances de concorrer ao Oscar que um trabalho que trouxesse a logomarca de uma grande corporação norte-americana". É verdade. Mas será que não deveríamos garantir, pelo menos, que concorressem aqueles que são de fato os melhores filmes? Danilo Fonseca

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