Filmes sobre dinheiro abordam o tabu francês da relação com a riqueza

Kristin Hohenadel
Em Paris (França)

Se o sexo é o grande tabu na vida e nos filmes norte-americanos, o dinheiro é o assunto capaz de deixar chocado um francês. Em um país onde é mais comum que as fortunas sejam herdadas do que construídas, e onde a maior parte das pessoas opta por trabalhar para viver, ao invés de viver para trabalhar, o dinheiro é tido, preponderantemente, como um mal necessário. Falar sobre a sua vida financeira, especialmente entre amigos e familiares, é considerado algo de indiscreto, deseducado, vulgar e vagamente norte-americano.

No entanto, no ano passado, vários filmes violaram o supremo tabu francês. A comédia dramática de Philippe Le Guay, "Le Cout de la Vie", ("O Preço da Vida") examina as neuroses financeiras de um grupo de personagens em Lyon.

A trama de "France Boutique" de Tonie Marshall gira em torno de um homem e uma mulher casados que encontraram o sucesso, mas perderam o contato entre si, até que aprenderam a se comunicar por meio dos objetos que vendem em um canal de compras dirigido para residências.

Em "Ah, si j'etais Riche" ("Ah, Se Eu Fosse Rico"), de Michael Munz e Gerard Bitton, um cidadão comum ganha na loteria e exercita a síndrome de riqueza repentina no estilo francês em restaurantes cinco estrelas. E, no filme semi-autobiográfico de Valeria Bruni Tedeschi, "Il Est Plus Facile Pour um Chameau..." ("É Mais Fácil Para um Camelo"), a heroína, interpretada por Bruni Tedeschi, sofre de um sentimento de culpa paralisante por ter nascido muito rica.

Então, como fazer filmes sobre dinheiro em uma sociedade onde até mesmo reconhecer a existência do vil metal é tido como grosseiro?
Le Guay afirmou que não foi muito contundente em "Le Cout de la Vie" para não deixar o filme muito perturbador. O filme se concentra em dois personagens de personalidades opostas: Coway (Vincent Lindon), um dono de restaurante ávido para agradar, com uma perigosa compulsão para presentear as pessoas, e a avarenta patológica Brett (Fabrice Luchini), que deixa a sua paquera em um táxi quando a conta marcada no taxímetro começa a ficar muito alta e abandona seu verdadeiro amor em uma butique quando ele se mostra incapaz de comprar uma blusa cara para ela.

Le Guay introduz a compaixão no tratamento de seus personagens, que incluem uma herdeira órfã adolescente que trabalha como garçonete, um proprietário de fábrica aposentado que descobre que seu dinheiro não lhe permite comprar aquilo que realmente deseja e uma garota de programa que cobra para ministrar a Brett aulas sobre a arte de agradar aos outros. Mas ele não se furta de expor aquilo que considera a "violência" que o dinheiro revela em cada um de nós.

Le Guay diz que não está interessado em explorar a procura e o desejo por riqueza, mas sim a forma como os seres humanos se comportam em relação ao dinheiro. "O que o dinheiro revela a nosso respeito?", perguntou ele, recentemente, em durante um chá da tarde em uma lanchonete local. "Quando compramos um par de sapatos, será que o adquirimos em uma liquidação, o exibimos e, depois, o escondemos?".

Escrever o roteiro do filme, conta Le Guay, se transformou em uma experiência autodidática sobre como o dinheiro influenciar fortemente uma personalidade. "Temos um cinema no qual o dinheiro não existe, exceto no trabalho de Godard", explicou. "Ele talvez tenha sido o primeiro a possuir esse tipo de consciência - talvez porque o pai era um banqueiro suíço, fazendo com que se sentisse culpado".

Le Guay sugere que falar sobre dinheiro é um tabu porque isso ameaça os ideais da Revolução Francesa. "Todo mundo é sentimental em relação aos camponeses", explica. "E, na Revolução Francesa, os ricos eram tidos como inimigos. Creio que ainda existem traços dessa suspeita".

O ator Lambert Wilson, faz um papel em "Il Est Plus Facile Pour um Chameau..." diz que as velhas posturas se manifestam em situações bem modernas. "O que quero dizer é que nós cortamos cabeças", afirma. "E, de certa forma, tornamos a realidade mais igualitária. É claro que as fortunas voltaram - e existem fortunas escondidas na França -, de maneira muito hipócrita. Mas apesar de o dinheiro ser uma obsessão para todos no planeta, na França nós não respeitamos as pessoas que nos ultrapassam na estrada em grandes automóveis BMW. Ficamos ressentidos com esse tipo de gente".

Quando o personagem Aldo ganha na loteria em ("Ah, si j'etais Riche"), ele guarda a notícia para si, aparecendo para reclamar o seu prêmio com óculos escuros e uma peruca ordinária. Na França, os ganhadores da loteria não aparecem em frente às câmeras de TV segurando um cheque gigantesco.

Mas Aldo tem um outro motivo para guardar seu segredo: ele descobriu que sua mulher, da qual está parcialmente separado, o está traindo com seu chefe, e decide não revelar a notícia até que o divórcio seja definitivo. Então ele enche garrafas vazias de vinho de supermercado e se entrega de corpo e alma ao seu emprego miserável, tentando se manter animado com a prática da haute cuisine solitária, compras clandestinas em shoppings e uma prostituta cara.

"Não é verdade que o dinheiro não traz felicidade", afirmou Munz, co-diretor do filme, em um café da manhã com Bitton, no bar do Hotel Lutetia. Bitton acrescentou: "Quando deixamos de nos preocupar com o dinheiro, temos tempo para fazer outras coisas, como amar".

Munz concordou. "O dinheiro é útil", disse ele. "Nós tentamos abordá-lo como um assunto normal, sobre o qual é perfeitamente aceitável conversar".

Mas os franceses têm de percorrer um longo caminho antes de se tornarem tão liberados com relação ao dinheiro quanto o são quanto ao sexo. Jean-Pierre Darroussin, que interpreta Aldo, foi perguntado cerra vez por um entrevistador de TV quanto dinheiro já ganhou. "Eu dei a resposta", conta, com um tom meio duro. "Mas achei a pergunta extremamente rude".

Bitton diz com um sorriso que ficou "chocado" durante uma recente visita a Nova York, quando um famoso colecionador de arte lhe mostrou seu apartamento, gabando-se do preço de cada peça artística durante a apresentação. Os franceses tendem a usar tais episódios para exagerar o papel desempenhado pelo dinheiro na vida norte-americana, sugerindo que essa é a nossa única obsessão.

"Tenho a impressão de que seria mais fácil para um norte-americano lidar com o fato de ficar subitamente rico", opina Bitton. "Mas, em um país onde o dinheiro é tabu, tal fato gera grandes contradições. Há um ressentimento real com relação aos novos ricos na França. Eu realmente admiro o temperamento norte-americano - a capacidade de dizer 'bravo' quando os outros estão vencendo -, porque, na verdade, isso não é algo realmente intrínseco à natureza humana".

No fim das contas, Aldo compartilha o seu prêmio, comprando um carro esportivo para o seu melhor amigo e abrindo um negócio com seus antigos colegas oprimidos. Ele acaba se reconciliando com a mulher, não no Ritz, mas em um hotel de beira de estrada. "Talvez não sejamos capazes de administrar o fato de possuirmos a última imagem em um paraíso terrestre", disse Munz. "Quem sabe ainda haja aquele embaraço que faz com que seja necessário mostrar os ricos em ambientes comuns, de forma que não pareçam ser tão arrogantes".

Estreando como diretora, Bruni Tedeschi não foge desse tipo de embaraço em "Il Est Plus Facile Pour um Chameau..." - cujo título se refere à passagem bíblica que diz que é mais fácil para um camelo passar pelo buraco da agulha do que para um homem rico ingressar no reino dos céus.

Como a filha de uma família italiana riquíssima, que escapou da ameaça representada pelos ativistas das Brigadas Vermelhas se mudando para a França, quando ela tinha nove anos, Bruni Tedeschi interpreta uma versão dela mesma. Chiara Mastroianni faz o papel da sua irmã. A mãe de Bruni Tedeschi, Marysa Borini, é a própria mãe, e muitas cenas são filmadas na casa dos Borini, decorada com pinturas a óleo com qualidade digna de museus e peças antigas caríssimas.

Tal demonstração imodesta deixou a diretora aberta a acaloradas especulações sobre a magnitude da sua conta bancária e sobre o grau de realidade e ficção de seu filme. Mas o filme também recebeu elogio popular e da crítica na França, e ganhou o prêmio de melhor filme e de melhor atriz quando foi mostrado no Festival de Filmes TriBeCa do ano passado em Nova York. (Ele será lançado nos Estados Unidos pelo New Yorker films, no final deste ano).

"Não é politicamente correto dizer: 'Oh, la, la, eu sofro porque tenho muito'", disse Bruni Tedeschi, em seu suntuoso apartamento, e que atendeu a reportagem ao meio-dia, em pijamas de flanela. "Eu tive muitos problemas para conseguir dinheiro, já que os patrocinadores achavam que ninguém se identificaria com uma personagem que se sente culpada por ter muito dinheiro".

Wilson faz o papel do seu irmão, Aurélio, um preguiçoso cuja maior preocupação é saber se fará uma viagem em volta ao mundo partindo rumo ao ocidente ou ao oriente.

"Quando conheci Valeria pela primeira vez, há dez anos, não sabia o quanto ela era rica", disse Wilson em uma entrevista por telefone. "Ela morava em um flat horrível, embora situado em um local nobre. Mas creio que se tivesse visto aquela primeira Valeria rejeitar totalmente o dinheiro, teria me preocupado um pouco mais com a sua história. Foi realmente uma luta para ela, uma complicação real para a sua vida, algo do qual ela se ressente, alguma coisa com a qual ela não sabia lidar".

Bruni Tedeschi equilibra o narcisismo da personagem com seqüências de fantasia que zombam de si mesma, assim como cenas que pertencem ao mundo real. Quando, durante a confissão, diz a um padre católico que é rica, ele pergunta: "Quanto é que você tem?". Em uma outra cena, o seu namorado da classe operária (Jean-Hugues Anglade) faz silêncio na mesa de jantar após revelar que o pai morreu de exaustão na fábrica em que trabalhava.

Bruni Tedeschi insiste que o filme não é somente sobre a sua vida. "Nós também estamos contando a história de todos nós que vivemos em países ricos", afirma. "E a culpa - subterrânea, geralmente não-mencionada, reprimida - que nós temos com relação aos países pobres. E nós achamos interessante ter uma personagem que encara esse fato de frente. Mas é verdade que, na França, se você tem mais dinheiro, tem mais vergonha. Nos Estados Unidos, você se gaba disso. Aqui, você esconde".

No entanto, parece que a juventude francesa, que não faz muito tempo teria aspirado a um emprego em uma agência dos correios, com direito a aposentadoria antes dos 60 anos, está descobrindo novos modelos nos reality shows que fabricam realidades, como o popular "Star Academy", e um novo tipo de empresário denominado "le self-made man".

"Ninguém mais quer virar médico ou advogado", diz Bitton. "O sonho atual é estar na TV. Ser famoso".

O casal de meia idade de "France Boutique", de Marshall, pode ser uma dupla de vendedores ordinários. Mas eles acreditam em cada objeto que vendem. "Para a geração jovem, só existe um objetivo, que é ganhar dinheiro", disse Marshall em uma entrevista por telefone. "Eles são incapazes de falar de outra coisa". Danilo Fonseca

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