Aerosmith volta às raízes em novo disco

Por Steve Morse
The Boston Globe

Os fãs impenitentes do Aerosmith podem finalmente erguer seus punhos em sinal de triunfo. Eles andaram esperando por este álbum por anos. Eles ficaram observando, desconfiados, de que maneira os antigos "bad boys" de Boston tentaram desesperadamente surfar sobre a onda do momento, gravando baladas açucaradas para o gosto padronizado da MTV, e até mesmo se arriscando a interpretar uma música sem graça e sem qualquer potencial assinada pela cantora Diane Warren.

Portanto, é o fruto de muitas reivindicações ver hoje o Aerosmith retornar às suas raízes e gravar composições que outrora haviam sido sucessos nas mãos de Bo Diddley, Sonny Boy Williamson, Mississippi Fred McDowell e Fleetwood Mac, quando esta última ainda era uma banda de blues-rock.

Contudo, a melhor coisa que se possa dizer de "Honkin' on Bobo", o novo álbum do Aerosmith, a ser lançado (nos Estados Unidos) nesta terça-feira, é que ele não soa datado.

O Aerosmith havia previsto realizar um álbum minimalista de "garage-blues" mas, em vez disso, a banda aumentou bastante o volume e fez um disco de rock dinâmico e sem concessão que pode ser considerado como um dos melhores trabalhos da banda. O álbum incorpora o blues mas ele não trata este gênero de maneira preciosista ou conservadora.

Enquanto o novo CD de blues de Eric Clapton, "Me and Mr. Johnson", não passa de um manifesto insípido de um discípulo respeitoso reverenciando o seu mestre (Robert Johnson), o novo disco do Aerosmith é muito mais aventureiro e despreocupado. É um disco do Aerosmith, não um disco-tributo - o que faz uma senhora diferença. Este álbum mostra que a banda não perdeu a sua energia - estes são os mesmos caras, alguns milhões de dólares depois, que costumavam tocar blues quando eles compartilhavam um apartamento na avenida Commonwealth, muitos antes de se tornarem ricos o suficiente para comprar mansões no bairro de South Shore.

Este amor inato pelo blues faz de "Honkin' on Bobo" um álbum pra cima. A primeira faixa, "Road Runner", dá o tom que irá predominar em todo o disco. Os guitarristas, Joe Perry e Brad Whitford, prestam uma homenagem extasiada a Bo Diddley (os solos bombásticos de Perry lembram muito Eddie Van Halen improvisando sobre um blues), enquanto o líder e vocalista Steven Tyler mostra toda a sua selvageria cantando os versos seguintes: "I'm a road runner, honey, and you can't keep up with me... Here's mud in your eye, eat my dust!" ("Sou aquele que corre pelas estradas, querida, e você não pode acompanhar o meu ritmo... Tome lama nos seus olhos, coma a minha poeira").

As quatro primeiras músicas detonam uma festa de blues-rock digna do Led Zeppelin. Depois de "Road Runner", vem a escaldante "Shame Shame Shame" (na qual Tyler deixa escapar um gemido, como se fosse para indicar toda a paixão que ele investiu neste projeto), seguida por "Eyesight to the Blind", de Sonny Boy Williamson (sobre os charmes de uma certa namorada) e "Baby Please Don't Go", de Big Joe Williams, que é uma versão tão boa quanto à versão até então "definitiva" de Van Morrison com o Them.

As faixas apresentam uma sonoridade despretensiosa e orgânica, por terem sido gravadas no estúdio caseiro de Joe Perry, que tem por nome "the Boneyard" (o Cemitério), e com os equipamentos caseiros de Steven Tyler. Tyler e Perry parecem estar incrivelmente felizes por terem sido deixados de lado pelo rock corporativo, e por não terem nenhuma obrigação de alcançar o Top 40 das paradas, nem sofrerem a imposição de qualquer camisa-de-força estilística, enquanto o outro guitarrista, Brad Whitford também avança até a linha de frente ("Ele é o nosso trunfo principal neste disco", afirma Tyler), contando com a sólida retaguarda do baixista Tom Hamilton e do baterista Joey Kramer.

Surgem então dois blues com sabor de gospel que proporcionam um prazer que todos achavam esquecido - "Back Back Train" (uma canção que lembra um pouco Ry Cooder, e que conta com uma participação emocionada da cantora Tracy Bonham, bem no estilo de Bonnie Raitt) e "You Gotta Move", que também havia recebido uma versão inesquecível dos Rolling Stones. Além disso, Tyler mostra que ele está em grande forma na explosão soul de "Never Loved a Girl", uma recriação masculina do hit de Aretha Franklin "I Never Loved a Man (The Way I Love You)", um clássico do final dos anos 60.

O Aerosmith oferece ainda uma música nova de sua autoria, "The Grind", uma canção emotiva sobre uma separação romântica, antes de apresentar a sua versão de "I'm Ready", de Willie Dixon (na qual Tyler dá livre curso à sua fanfarronice de ex-menino de rua), seguida por "Temperature", de Little Walter (a qual ressuscita toda a febre de salão de bar que havia sido consagrada por ZZ Top, e tem a participação de Johnnie Johnson, o pianista de Chuck Berry), e por "Stop Messin' Around", do Fleetwood Mac, na qual Joe Perry surge com uma poderosa performance vocal. O disco termina com os climas intensos de "Jesus Is on the Mainline", que traz vocais em forma de coro, os quais demonstram o quão profundamente o Aerosmith se envolveu em pesquisas na preparação deste projeto gratificante.

Para ouvir trechos de áudio do álbum "Honkin' on Bobo", basta acessar o endereço www.boston.com/ae/music. Jean-Yves de Neufville

UOL Cursos Online

Todos os cursos