Brasil se coloca em primeiro lugar quando negocia acordos comerciais

Por Bonnie Pfister
San Antonio Express-News

O Brasil é diferente.

No palco da política de comércio entre Washington e grande parte da América Latina, a história tradicionalmente tem sido países pequenos produzindo bens como têxteis e eletrônicos para os consumidores americanos, e os produtores e provedores de serviços americanos obtendo acesso aos mercados estrangeiros.

Mas o quinto maior país do mundo em geografia e população, com um mercado consumidor sofisticado de 182 milhões de pessoas, tem um destino próprio.

Enquanto 85% das exportações do México vão para os Estados Unidos, isto vale apenas para cerca de um quarto das do Brasil.

Como colocou Jose Barrionuevo, diretor de estratégia de mercado do Barclays Bank de Nova York: "A questão do México é o acesso ao mercado americano. A questão do Chile é a exportação de cobre. A questão do Brasil é o próprio Brasil".

Há uma década, os líderes dos Encontro das Américas em Miami propuseram uma Área de Livre Comércio das Américas (Alca) para unir os mercado do Canadá até a Terra do Fogo. Mas hoje, mesmo uma versão substancialmente reduzida desta proposta dificilmente será implementada dentro do prazo previsto de janeiro de 2005, em grande parte porque o maior envolvido além dos Estados Unidos não está cedendo.

"Se você vai ter uma Área de Livre Comércio das Américas, é melhor que seja um acordo que seja benéfico para os brasileiros", disse Barrionuevo.

"Lula (o presidente Luiz Inácio Lula da Silva) está promovendo a idéia da reciprocidade. É claro que ela existe nas relações exteriores, mas nunca foi aplicada antes ao comércio."

Quando Lula assumiu em janeiro de 2003, isto marcou um momento decisivo nas relações entre Brasília e Washington. O ex-líder sindical socialista conseguiu pôr fim aos medos de Wall Street de responsabilidade fiscal sem abrir mão de seus duros talentos de negociação.

E cada vez mais o Brasil parece estar falando em nome da América Latina -ou pelo menos da porção sul-americana dela. Compartilhando fronteiras terrestres com todos os países do continente, exceto Chile e Equador, o Brasil provou ser capaz e disposto a enfrentar Washington.

A liderança do Brasil despontou durante as negociações da Organização Mundial de Comércio em Cancún, em setembro, que fracassaram quando uma nova coalizão de países em desenvolvimento e de grande mercado se recusou a relaxar as regras de investimento e políticas antitruste em seus países.

Em vez disso, um novo "Grupo dos 20" países em desenvolvimento se manteve unido, devolvendo a atenção à questão dos subsídios agrícolas aos agricultores dos países ricos.

O Brasil, juntamente com a África do Sul e a Índia, despontou como líder.

A assertividade na política externa também é evidência.

Segundo notícias vindas do Paraguai no início deste mês, a decisão de não enviar tropas ao Iraque foi baseada em um consenso regional chegado pelos presidentes do Paraguai, Argentina e Brasil.

Além das preocupações em transformar o Cone Sul em alvo de futuros ataques terroristas, os relatos citaram um desejo de demonstrar unidade diante da Alca.

O ceticismo regional em relação à agenda comercial de Washington, que azedou com o colapso econômico na Argentina em 2001 apesar da -alguns dizem que devido a- orientação do FMI, permanece alto.

Uma pesquisa realizada no outono passado pela Zogby International e pela Universidade de Miami indicou que 51% dos formadores de opinião latino-americanos -empresários, jornalistas, acadêmicos e autoridades do governo- acreditam que a Alca será mais benéfica para os Estados Unidos. Apenas 8% disseram que ela beneficiará a América Latina.

E no Brasil estes números são ainda maiores, com 76% dizendo que os Estados Unidos se beneficiarão mais. Apenas 3% dos brasileiros acham que ela beneficiará a América Latina.

Ainda assim, há dividendos a serem colhidos pelo Brasil em caso de um acordo com Washington.

Apesar de por muito tempo o Brasil ter tido uma economia auto-suficiente, voltada para o mercado interno, os agricultores e líderes empresariais gostariam de poder vender seus bens para os consumidores americanos.

O problema é que o Brasil e os Estados Unidos são ricos em muitas das mesmas coisas, incluindo gado, aço e suco de laranja.

Isto deixou em impasse a produção de aço da região. O mesmo em relação à soja e produtos relacionados, gado e aves. Conseqüentemente, os interesses agrícolas americanos estão temerosos. Os produtores de laranja da Flórida, já sofrendo com a queda dos preços, não estão ansiosos em permitir que o maior produtor mundial de suco entre em seu quintal.

"Nós acreditamos no livre comércio", disse Maurice Costin, diretor de relações internacionais e comércio exterior da influente Federação das Indústrias de São Paulo, conhecida como Fiesp. "Mas nós queremos que o comércio seja benéfico para o Brasil, e não apenas para os Estados Unidos." George El Khouri Andolfato

UOL Cursos Online

Todos os cursos