Operação Yassin: quando matar é sinônimo de assassinar

Por Susan Ives
DO SAN ANTONIO EXPRESS-NEWS

A coluna de hoje se constitui em uma pequena aula de vocabulário para os meus colegas jornalistas.

A palavra de hoje é "assassinar": verbo transitivo. "Matar (especialmente uma figura pública, como, por exemplo, um líder político ou religioso) por meio de violência traiçoeira".

Eu fiz pesquisas em meia dúzia de dicionários da língua inglesa e, em todos eles, a palavra "assassinar" ficava entre "assassino" e "assassinato".

Mas talvez alguém tenha arrancado a página 129 do seu Oxford English Dictionary. Ou colado com chiclete a página 66 à 67 da cópia oficial do Webster's New Collegiate.

Leio todas as matérias da "Associated Press" sobre o assassinato do líder do Hamas, xeque Ahmed Yassin, e nenhuma delas usa a palavra "assassinar". Ele foi morto. Morreu. Foi alvejado. Bombardeado. Atingido. Mas, assassinado, de forma alguma.

Pergunto-me por que.

O governo israelense tem evitado a palavra "assassinato". Ele chama essas ações de "abate de alvos", "liquidações" ou "ataques preventivos". Assassinato é o ato de matar extra-judicialmente. Em inglês claro, "matar intencionalmente sem um processo judicial". Pelo menos é o que dizem as leis humanitárias internacionais.
É um ato ilegal.

Para mim é perturbador o fato de a mídia fazer rodeios em torno da palavra.

Não sou nenhum fã do Hamas. Trata-se de uma organização terrorista, e tenho horror a terroristas. Se Yassin era de fato o cérebro por trás dos ataques suicidas, ele deveria ser removido. Legalmente.

Sejamos francos. Yassin era um velho tetraplégico de 67 anos que ia para casa após ter rezado em uma mesquita do seu bairro. Arrisco-me a dizer que os israelenses tinham uma idéia bem precisa de onde encontrá-lo na manhã de qualquer segunda-feira.

Yassin não estava se escondendo. Ele tinha uma casa no local que a "Associated Press" identificou como "o bairro Sabra da Cidade de Gaza". Se os repórteres sabiam disso, podem apostar que o exército israelense também sabia. Ele contava com um punhado de guarda-costas. Não me venham dizer que as Forças de Defesa de Israel eram incapazes de capturar um velho em uma cadeira de rodas e trancá-lo novamente na cadeia. Poderiam fazê-lo, caso assim o desejassem. Mas escolheram assassiná-lo.

Por que? Há várias teorias.

O motivo ostensivo é que o primeiro-ministro israelense, Ariel Sharon, acreditava que, sem Yassin, o Hamas definharia. Mas já há ameaças previsíveis de mais violência.

O estudante Iyad Hamdi disse ao "Christian Science Monitor": "É claro que haverá mais operações de martírio. Por causa disso, outros milhões de pessoas se prontificarão a ocupar o lugar do xeque".

Há quem especule que Sharon, sofrendo ataques da direita por ter proposto a retirada unilateral da Faixa de Gaza, precisava demonstrar de forma dramática que não estava amolecendo.

Outros sugeriram que a mensagem transmitida pelo assassinato foi destinada aos palestinos: alguns deles teriam interpretado erroneamente que a proposta de uma retirada de Gaza seria uma vitória, um sinal de fraqueza por parte dos israelenses. A eliminação do xeque teria sido um gesto que visava a acabar com tal idéia.

Alguns analistas trabalham com a hipótese de que Sharon compreendeu integralmente que o assassinato de Yassin serviria para fortalecer o Hamas, e que a sua intenção suprema seria destruir a Autoridade Palestina de Yasser Arafat.

Segundo determinadas estimativas, o Hamas já conta com 40% de aprovação popular. Se os líderes palestinos mais moderados forem eclipsados pelo Hamas, que promete destruir Israel, Sharon poderia abandonar qualquer simulacro de negociação de uma solução baseada em dois Estados e obter o apoio internacional para se apossar de toda a região.

Yassin, dentro do esquema maior da loucura do Hamas, exibia um pouco de moderação. Ele se opunha a ataques terroristas fora do Estado de Israel e não apoiava a Jihad Islâmica de Osama Bin Laden. Sem a sua influência moderadora, os ultra-ultra-radicais poderiam assumir o controle do movimento e levar a intifada a outras costas - incluindo a norte-americana.

Qualquer que tenha sido a motivação de Sharon, o resultado será mais mortes. Mais destruição. No fim das contas, talvez não seja uma idéia assim tão ruim remover a palavra "assassinato" do dicionário. Danilo Fonseca

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