Sucesso ou fracasso dos planos americanos no Iraque depende da maioria xiita

Por John Yaukey
DE KARBALA, Iraque

Com a revolta sangrenta desta semana, os xiitas do Iraque despontaram como a maior ameaça à luta das autoridades americanas para estabilizar o país e eventualmente promover a retirada das tropas americanas.

Até o momento, os ataques contra as forças americanas e policiais iraquianos foram executados pelos seguidores mais pobres do jovem clérigo radical Muqtada Al Sadr, conhecido no Iraque por sua ladainha antiamericana.

Mas se a oposição de Al Sadr à presença americana no Iraque encontrar apoio entre a população em geral, as forças lideradas pelos Estados Unidos no Iraque poderão se ver confrontando uma rebelião total xiita.

Os xiitas são muito perigosos porque eles detêm a maioria dos trunfos. Eles representam 60% dos 25 milhões de habitantes do Iraque. Sua liderança poderosa pode encher as ruas com revolta com um simples decreto. Suas milícias estão bem-armadas, organizadas e preparadas para a ação.

Além disso, a perspectiva de um governo próprio após 14 séculos de opressão política e religiosa brutal deu aos xiitas um senso de que seu momento histórico de auto-afirmação chegou.

"Nossa situação atual é um teste de Deus, mas os xiitas estão acostumados a pescar em águas turbulentas", disse o xeque Methal Al Hasnawai, um clérigo proeminente da cidade sagrada de Karbala. "Se Deus quiser, nós teremos sucesso, e assumiremos nosso lugar de direito aqui no Iraque."

Tal lugar é de grande interesse para as autoridades civis e militares americanas daqui, porque sem a cooperação dos xiitas elas não poderão executar a transferência de soberania para os iraquianos em 30 de junho e iniciar a estratégia para uma eventual retirada.

O levante xiita, que já custou as vidas de pelo menos 20 soldados americanos desde o fim de semana, já fez o alto escalão do Pentágono considerar o envio de mais soldados para o Iraque. O presidente Bush disse que mantém a data de 30 de junho, mas alguns líderes do Congresso acreditam que ele deve considerar o adiamento da transferência até que o Iraque esteja estabilizado.

Os xiitas e os americanos estão agora inextricavelmente atados em um tenso relacionamento que moldará o futuro do Iraque e da presença americana aqui. E cada lado está extremamente desconfiado do outro.

Dois clérigos, dois pontos de vista

Os xiitas do Iraque não são homogêneos. Isto fica evidente em seus dois principais clérigos.

Um é ancião, moderado e recluso.

O outro é jovem, radical e explosivo.

O grisalho grão-aiatolá Ali Al Husseini Al Sistani e o belicoso Al Sadr passaram a personificar a divisão na comunidade xiita que as forças de ocupação e autoridades civis americanas agora devem enfrentar.

Por meses, Al Sistani foi a face dos xiitas iraquianos para o Ocidente.

Seus pôsteres ubíquos se espalham pelas mesquitas e bairros xiitas. Seus decretos definiram a posição da maioria dos xiitas em uma série de questões, do relacionamento entre a mesquita e o Estado ao papel das mulheres no novo Iraque.

"O Iraque se encontra em uma posição altamente sensível no momento", disse Hussein Joward Kardum, um xiita que vive em Hillah, ao sul de Bagdá. "É por isso que muitos de nós se voltam para o aiatolá Sistani. Ele é sábio."

Por motivos de segurança e devoção, Al Sistani raramente deixa seu lar na cidade sagrada xiita de Najaf, a cerca de 160 quilômetros ao sul de Bagdá.

De lá ele emite seus decretos amplamente respeitados, freqüentemente em momentos extremamente inoportunos para as autoridades americanas, que tentam manter o Iraque no caminho para a soberania.

Tão logo o Conselho de Governo Iraquiano, um comitê de liderança provisório que atualmente ajuda as autoridades americanas a administrarem o Iraque, aprovou uma Constituição interina em 8 de março, Al Sistani recuou diante dela. Ele alegou que ela concedia poder político demais de veto para a minoria sunita e para os curdos do Iraque. Em outras palavras, ela não dava controle suficiente para os xiitas.

A crítica de Al Sistani à Constituição interina provocou protestos de estudantes, uma enxurrada de editoriais altamente críticos ao processo político e a possibilidade dos xiitas boicotá-la, um golpe potencialmente debilitador contra o plano de saída americano.

Mas apesar de todas as suas peculiaridades irritantes, Al Sistani permanece uma influência moderada e constante com a qual as autoridades americanas aprenderam a lidar.

Ele alega defender a separação de mesquita e do Estado e até o momento não incitou nenhuma violência.

Al Sadr é, segundo as autoridades americanas, simplesmente um criminoso.

É difícil medir a influência de Al Sadr no momento além da ira que liberou.

Antes de provocar o levante xiita ao pedir que seus seguidores "aterrorizassem seus inimigos", Al Sadr era considerado uma figura áspera, mas à margem, com apelo apenas junto aos jovens xiita raivosos em não à uma comunidade maior.

Al Sadr controla a milícia de 3 mil homens Exército Mahdi, que agora está atacando as forças de ocupação e mantendo uma rede de escritórios baseados em mesquitas nas cidades xiitas.

Seu pessoal insiste que a organização de Sadr é leal à hierarquia xiita estabelecida.

"Nós acatamos a liderança em Najaf", disse o xeque Hussein Al Gharib, um representante de Al Sadr em Karbala. "Se temos diferenças, elas são menores."

Às vezes elas claramente não são.

Diferente de Al Sistani, Al Sadr é reticente de que o Iraque deve ser um Estado islâmico. Sua organização também alega estar abrindo sucursais iraquianas dos grupos militantes pró-palestinos Hamas e Hezbollah, ambas consideradas organizações terroristas pelos Estados Unidos.

Al Sistani tem evitado comentar a situação palestina.

Opressão e traição

A turbulência na comunidade xiita deriva de um passado torturado, recente e distante. Em 2 de março, atentados suicidas atacaram os templos em Karbala e Bagdá durante a Ashura, o dia mais sagrado do calendário xiita, matando mais de 180 peregrinos que adoravam lá.

"Isso foi devastador", disse Juan Cole, um especialista em questões xiitas da Universidade de Michigan. "Foi o equivalente a bombas explodindo no Vaticano no Domingo de Páscoa."

Em agosto, o importante clérigo xiita Mohammed Baqir Al Hakim foi morto em um atentado a bomba contra uma mesquita em Najaf, que resultou em mais de 100 mortes.

Estes foram os episódios mais recentes de uma saga de séculos de violência e opressão contra os xiitas.

Durante seu reinado, Saddam Hussein temia os xiitas do Iraque e seu grande número, então ele rotineiramente os prendia e executava e os proibia de realizarem grandes encontros religiosos.

Em 1991, quando os xiitas iniciaram uma rebelião encorajada pelo primeiro presidente Bush, Saddam matou milhares deles e bombardeou o templo sagrado do imã Hussein, aqui em Karbala.

Os colonizadores britânicos suspeitavam que os xiitas estavam promovendo disputas de poder, então estabeleceram mecanismos duradouros de opressão contra eles.

Por séculos, os wahabistas sauditas desprezaram os xiitas como apóstatas e periodicamente os caçavam.

Muitos xiitas acreditam que os wahabistas estão por trás dos recentes atentados contra mesquitas e que as forças americanas são impotentes para protegê-los.

À medida que a segurança ruía no Sul do Iraque, de domínio xiita, as milícias xiitas passaram a ser mais audaciosas, se recusando a se desarmarem apesar da forte exigência das autoridades americanas.

"Quem nos protegerá? Os americanos?" disse Hadi Au Deed, um guarda miliciano xiita em uma mesquita de Bagdá. "Eles falharam."

É uma mistura potencialmente explosiva para os americanos no Iraque: uma população cada vez mais volátil repleta de armas. George El Khouri Andolfato

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