Casamento continua sob ataques, mas segue firme

Melissa Fletcher Stoeltje
Santo Antonio Express

O casamento é muitas coisas: um contrato legal, um ritual religioso, um espetáculo público. Uma união de duas almas que prometem amar e cuidar uma da outra até que a morte as separe, embora na metade das vezes não cheguem até lá. Mas o casamento também é outra coisa hoje em dia - o epicentro do que promete ser a batalha real nas guerras culturais do país.

Em novembro passado, no rastro da abolição da lei de sodomia do Texas, a Suprema Corte Judicial de Massachusetts decidiu por 4 votos a 3 que é inconstitucional o Estado proibir o casamento entre pessoas do mesmo sexo. De repente, milhares de casais de gays e lésbicas estavam fazendo fila em San Francisco, Nova York e outras cidades para receber certidões de casamento, dadas por autoridades municipais que diziam sentir-se obrigadas a seguir os ditames de sua consciência, e não a lei estadual.

O presidente Bush pediu rapidamente uma emenda constitucional restringindo o casamento à união entre um homem e uma mulher. Os candidatos democratas também foram rápidos a dizer que são contra o casamento gay, embora o indicado John Kerry tenha dito que é contra uma reforma constitucional.

Por todo o país, pesquisas continuam perguntando a uma América atordoada o que acha do casamento gay. As respostas revelam um público que luta para aceitar a idéia: enquanto seis em cada dez americanos são contrários ao casamento entre o mesmo sexo, uma pequena maioria é a favor das uniões civis entre o mesmo sexo - um contrato menor que muitos consideram um compromisso justo.

Agora talvez seja um bom momento para recuar e dar uma boa olhada nessa instituição duradoura, embora sofrida. Uma coisa que se percebe rapidamente quando se coloca o casamento sob um microscópio é que tem sido uma longa e estranha viagem até aqui. E rumores sobre o fim do casamento - juntamente com o da civilização e de todas as coisas boas e decentes - circulam quase há tanto tempo quanto o próprio casamento.

Falar sobre o casamento ocidental é uma empreitada gigantesca. Enquanto seus temas básicos perduraram através dos séculos, a maneira como esses temas são interpretados varia conforme a era, a região, a religião e a situação socioeconômica de cada casal.

Uma constante: seja qual for sua forma, o casamento é comum a todas as culturas. Ele funciona como uma importante força estabilizador na sociedade, dizem especialistas.

Uma estudiosa que fez da história do casamento seu negócio é Marilyn Yalom, que escreveu "A History of the Wife'' (ed. HarperCollins) [Uma história da esposa]. O livro é uma crônica de como o casamento mudou desde os antigos tempos dos gregos, hebreus e romanos até os casais mais igualitários e profissionais de hoje.

Dizer que o casamento começou como um péssimo negócio para as mulheres é colocar as coisas de modo brando. Na Grécia antiga, por exemplo, uma jovem - geralmente de 14 ou 15 anos - era dada por seu pai a um noivo pelo único objetivo de lhe dar filhos legítimos.

Não apenas ela não tinha opinião no assunto, como um marido grego podia mandar matar sua mulher à vontade (assim como seus filhos e escravos). Os homens podiam fazer sexo com qualquer pessoa - escravas, concubinas -, desde que não fosse a esposa de outro cidadão. A forma de amor que se considerava mais elevada era entre um homem adulto e um menino.

Com os hebreus antigos - que praticavam a poligamia - uma nova esposa podia ser apedrejada até a morte se se descobrisse que não era virgem.

As coisas melhoraram um pouco para as esposas romanas - especialmente as da classe alta - porque entrou em moda a idéia de uma mulher consentir no casamento, o que mais tarde abriria caminho até as núpcias cristãs, formando a base do matrimônio ocidental como o conhecemos.

Na maior parte da história do casamento, o coração tinha pouca importância. O casamento arranjado era a norma. Na verdade, a idéia moderna de se casar por amor é um fenômeno relativamente novo, que só surgiu cerca de 200 anos atrás.

Para a classe trabalhadora - que incluía quase todo mundo - o casamento era uma questão laboral. Homens e mulheres se uniam para formar unidades de trabalho, que também incluíam os filhos, que eram sempre muitos, por motivos óbvios. Na fazenda ou no mercado de peixe, os cônjuges viam um aos outro como parceiros de trabalho, e não companheiros sentimentais. Realmente, quem tinha tempo?

Certamente, às vezes as pessoas se apaixonavam. Mas era por mera sorte, e não destino. "Se você vai chamar qualquer coisa de casamento tradicional, deve ser o casamento por dinheiro", diz E. J. Graff, autor de "What Is Marriage For? The Strange Social History of Our Most Intimate Institution'' (ed. Beacon Press) [Para que serve o casamento? A estranha história social de nossa instituição mais íntima].

Outra constante na maior parte da história: as mulheres eram valorizadas principalmente por seus úteros. Vergonha para a esposa que não pudesse produzir frutos, especialmente da variedade masculina.

"Dos tempos bíblicos até a década de 1950, era dever do marido sustentar a mulher", escreve Yalom em seu livro. "Em troca, esperava-se que ela lhe desse sexo, filhos e cuidasse da casa. Era um intercâmbio que não era facilmente compreendido pelas duas partes, mas estava escrito na lei religiosa e civil."

O casamento mostrou-se altamente maleável ao longo dos milênios. Com a ascensão do cristianismo, a monogamia tornou-se a regra, tanto para maridos quanto para mulheres, e o divórcio foi proibido. (Quanto às raízes religiosas do matrimônio, a Igreja só se envolveu no negócio na Idade Média, e mesmo então demorou um pouco para pegar.) E o Estado só se envolveu no licenciamento das uniões cerca de 400 anos atrás. Em 1215, a Igreja Católica declarou o matrimônio um sacramento.

Avanço rápido através das eras. Vem a industrialização, a Reforma Protestante (que dessacralizou o casamento) e o crescimento da liberdade e do individualismo. O capitalismo teve um enorme impacto sobre o casamento. Papai deixou a fazenda ou a oficina para trabalhar na cidade, transformando mamãe de uma trabalhadora igual em um "anjo da casa" espiritual e diáfana - uma precursora vitoriana de todas as mães suburbanas com colares de pérolas nos anos 50. Com as crianças fora do controle do pai na fazenda, o casamento por amor começa a entrar em cena.

Outras grandes mudanças estavam fermentando. Durante a reforma, as mulheres foram ensinadas a ler para que pudessem ler as Escrituras, e isso lentamente levou-as a se agitar por mais poder no casamento. Mas as reformas demoraram para chegar. Quando os Peregrinos chegaram ao Novo Mundo, o casamento americano era governado pela lei comum britânica, um conjunto restritivo de códigos que basicamente tornava as esposas equivalentes a filhos menores.

Elas não tinham direitos legais, por assim dizer. Sob o conceito de "cobertura", o marido e a mulher eram uma pessoa - "e o marido é aquela pessoa", era a definição. Os filhos nascidos sem um chefe de família homem eram rotulados de bastardos - como se não existissem. Os maridos podiam legalmente espancar suas mulheres, desde que usassem uma vara não mais grossa que seu polegar.

Mas o casamento estava prestes a sofrer grandes transformações. Especialistas como Graff indicam quatro mudanças muito polêmicas na lei familiar que moldou o casamento, dando-lhe a forma que tem hoje. Os ativistas gays afirmam que essas mudanças são o que torna as uniões entre o mesmo sexo a evolução natural em nosso conceito do significado do casamento, de sua finalidade.

A primeira grande mudança foi o advento da contracepção. No final do século 19, ninguém precisava mais de uma grande prole para trabalhar na fazenda porque muitas famílias haviam gravitado para as cidades industriais.

As mulheres começaram a usar cada vez mais o controle natal, que era bastante rudimentar mas funcionava. Na década de 1920, a noção de que o sexo marital era para o prazer, e não apenas para procriação, estava firmemente implantada na cultura. (É claro que levou quase um século para se resolver essa batalha: o último estatuto jurídico contra o controle natal no casamento só foi derrubado em 1965.)

Pela primeira vez na história, o sexo no casamento foi separado da procriação. Mais uma vez, é impossível exagerar a importância dessa mudança. "É difícil de imaginar, mas isso foi combatido ainda mais que o casamento entre pessoas do mesmo sexo hoje", diz Graff.

Uma segunda grande mudança surgiu da evolução da idéia de que o casamento tem a ver com amor, e não com trabalho. Esse conceito levou logicamente a outro: se alguém entra no casamento por amor, deve poder deixar o casamento se faltar amor. Nos Estados Unidos, começaram as guerras do divórcio. A batalha durou décadas, com alguns Estados reconhecendo as leis de divórcio de outros, e alguns não. Mas na década de 1960 todos os Estados americanos permitiam o divórcio.

Uma terceira mudança titânica envolveu os direitos das mulheres. Na maior parte da história do casamento, as mulheres eram meros apêndices de seus esposos. Então, mais ou menos no final do século 19, as mulheres começaram a exigir mudanças. (Mais uma vez, a culpa foi da leitura.) A famosa reunião pelos direitos da mulher em Seneca Falls, Nova York, em 1848, teve menos a ver com um lobby pelo sufrágio feminino (que finalmente chegou em 1920) do que com mulheres lutando por coisas como direitos de propriedade, direito de fazer contratos, direito de não ser estuprada no casamento e assim por diante. Essa batalha durou cem anos, mas afinal foi vencida.

"Em 1970", escreve Yalom, "as mulheres casadas haviam-se tornado pelo menos formalmente iguais aos homens no casamento. A lei do casamento havia-se tornado neutra em relação aos gêneros na democracia ocidental."

Essas quatro mudanças constituem os fundamentos para o casamento entre o mesmo sexo, afirmam seus defensores. "Agora nos encaixamos na filosofia ocidental do casamento", diz Graff, que é lésbica. "Os homens gays e as lésbicas estão acompanhando, e não liderando a revolução."

Os que são contra o casamento gay freqüentemente baseiam seus argumentos na Bíblia, que contém passagens que proíbem a homossexualidade, dizendo que é uma abominação para Deus. Está bem, diz Evan Wolfson, da associação Freedom to Marry [Liberdade para Casar]. As pessoas têm o direito de ter suas próprias opiniões e interpretações religiosas. O que elas não têm direito é de impor essas interpretações à lei. E como o casamento civil é um contrato legal manipulado pelo Estado, as objeções religiosas não se aplicam.

"Somos governados por uma Constituição que protege a liberdade de todos", diz Wolfson. "Ninguém está dizendo que as igrejas devem ser obrigadas a sancionar o casamento entre o mesmo sexo. Ninguém força um bispo católico a casar um casal divorciado. Mas ao mesmo tempo o bispo católico não pode proibir o casal divorciado de se casar."

Os conservadores sociais discordam fortemente, e estão mobilizados contra a corrida ao altar de gays e lésbicas, dizendo que isso ameaça o casamento "tradicional".

Mas talvez haja outros motivos para preocupação. O casamento "tradicional" não está tendo muito sucesso hoje em dia, a julgar pelas estatísticas. Cerca de metade de todos os casamentos dão errado. Aproximadamente 2,3 milhões de pessoas se casam todo ano nos Estados Unidos, o que pode parecer muito, mas o número preocupa os especialistas pró-casamento.

"O casamento está em baixa no mundo moderno", diz David Popenoe, professor de sociologia na Universidade Rutgers. "Não sei se 'crise' é a palavra certa, mas o índice de casamentos está caindo ao mesmo tempo que o índice de coabitação está disparando." Popenoe nota que em 1950 - período de maior índice de casamentos na história americana - 95% das pessoas se casavam. Hoje esse número caiu para cerca de 85%.

Paradoxalmente, apesar de todas as notícias sombrias sobre o casamento, somos uma cultura atualmente obcecada pelo matrimônio, desde acompanhar as uniões de celebridades até assistir shows-realidade na TV que enfocam flertes e casamentos. "É interessante que esses programas não vão além do casamento", comenta Popenoe. "O importante é a caçada." Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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