Arquivos sobre o 11/09 revelam que alertas eram urgentes e persistentes

David Johnston e Jim Dwyer

Washington - No início deste mês, a comissão independente que investiga os ataques de 11 de setembro reproduziu quatro minutos de uma ligação telefônica feita por Betty Ong, tripulante do Vôo 11 da American Airlines. A força do seu depoimento não poderia ser mais evidente: em voz calma, Ong informou seus supervisores sobre os seqüestros, as armas dos terroristas e os assentos em que se localizavam.

No início, porém, a fala de Ong foi recebida com ceticismo por algumas autoridades em terra. "Eles não acreditaram nela", disse Bob Kerrey, um membro da comissão. "Eles perguntaram se ela tinha certeza do que estaria acontecendo e pediram que confirmasse se não se tratava de um caso de 'air rage' ("fúria a bordo"). Nossos funcionários em terra não estavam preparados para lidar com um seqüestro".

Para a maioria dos norte-americanos, a incredulidade foi a mesma. Os ataques de 11 de setembro de 2001 foram como uma onda desnorteante vinda do nada. Mas agora, após duas semanas de extraordinárias audiências públicas e doze relatórios detalhados, os volumosos relatórios documentais deixam claro que as previsões sobre um ataque da Al Qaeda foram comunicadas diretamente aos mais altos escalões do governo.

Os relatórios de inteligência falando sobre ameaças foram mais claros, urgentes e persistentes do que se acreditava anteriormente. Alguns deles se concentravam nos planos da Al Qaeda para usar aeronaves comerciais como armas. Outros diziam que Osama Bin Laden pretendia realizar ataques em solo norte-americano. Vários foram enviados à Administração Federal de Aviação.

Embora alguns dos relatórios de inteligência tivessem sido escritos anos atrás, outros alertas - incluindo um que dizia que a Al Qaeda parecia interessada em seqüestrar um avião dentro do Estados Unidos - foram encaminhados ao presidente em 6 de agosto de 2001, apenas um mês antes dos atentados.

As novas informações divulgadas até o momento pela comissão levaram seis dos seus dez membros a afirmar ou sugerir que os ataques poderiam ter sido prevenidos, embora não haja um consenso sobre quando, como ou por quem. O presidente da comissão, Thomas H. Kean, um republicano, descreveu falhas em todos os níveis do governo, sendo que qualquer uma delas, caso fosse evitada, poderia ter alterado o desfecho final. Kerrey, do Partido Democrata, disse: "A minha conclusão é que os ataques poderiam ter sido prevenidos.".

Embora a comissão tenha sido criada para diagnosticar erros e recomendar reformas, a análise por ela realizada tem forte ressonância política. Ela examinou os registros de dois presidentes, Bill Clinton e George W. Bush.

Bush, que está no meio de uma campanha pela reeleição, disse na semana passada que nenhum dos alertas forneceu qualquer pista sobre a hora, o local ou a data de um ataque. "Se eu soubesse que haveria um ataque nos Estados Unidos, teria movido montanhas para impedi-lo", disse o presidente.

Durante duas semanas de trabalhos intensos neste mês, a comissão abriu alguns dos compartimentos mais bem guardados do governo, revelando o fluxo e os detalhes de informações sigilosas anteriormente desconhecidas, e o desempenho da comunidade de inteligência e das autoridades policiais.

O inquérito foi além do relatório elaborado por uma comissão conjunta da Câmara e do Senado em 2002, que registrou as falhas nos níveis intermediários das burocracias. Pressionada por vários familiares das pessoas mortas nos ataques, a comissão Kean utilizou uma mistura de vantagem política e moral para extrair as comunicações e os testemunhos presidenciais. Entre os novos temas que remodelaram fundamentalmente a história dos ataques de 11 de setembro estão:

- A Al Qaeda e o seu líder, Osama Bin Laden, não pegaram os Estados Unidos totalmente de surpresa, tendo sido uma ameaça reconhecida e discutida regularmente pelas mais altas instâncias governamentais durante quase cinco anos antes dos ataques, em milhares de relatórios de inteligência, muitas vezes acompanhados de alertas urgentes de especialistas menos graduados.

- Os presidentes Clinton e Bush receberam informações regulares sobre a ameaça representada pela Al Qaeda e as intenções da rede de Bin Laden de atacar no interior dos Estados Unidos. Os dois presidentes fizeram da luta contra o terrorismo uma prioridade declarada, não encontraram uma solução diplomática e encararam a força militar como um último recurso. Ao mesmo tempo, nenhum deles tomou providências quanto às falhas estruturais e disfunções paralisantes que minaram a CIA e o FBI, as duas agências das quais a nação dependia para sua proteção. Ao final do seu segundo mandato, Clinton e o diretor do FBI, Louis J. Freeh, mal se falavam.

- Ainda quando as duas agências cooperavam, os resultados eram pífios. Kean, o presidente da comissão, disse que viu os relatórios sobre as agências como sumários de culpa. Ao final de agosto de 2001, George J. Tenet, diretor de inteligência central, descobriu que o FBI havia prendido Zacarias Moussaoui após este ter se inscrito em uma escola de pilotagem de aviões. Tenet recebeu um memorando intitulado, "Extremista Islâmico Aprende a Voar". Mas, ao testemunhar, ele disse não ter tomado nenhuma iniciativa, e ainda que não informou a Bush sobre o caso.

A comissão descobriu que, durante os anos da administração Clinton, particularmente no Conselho de Segurança Nacional, não se tinha certeza de que a ameaça representada pela Al Qaeda e por Bin Laden justificariam uma ação militar. Grande parte do debate foi provocada por Richard A. Clarke, que liderou os esforços antiterroristas nos governos Clinton e Bush, tendo defendido ações agressivas.

"Ex-funcionários do governo, incluindo membros do Conselho de Segurança Nacional que trabalhavam para Clarke, nos disseram que a ameaça dava a impressão de poder provocar centenas, e não milhares, de baixas", segundo um relatório da comissão interina. "Tais diferenças afetam os cálculos sobre a necessidade de se recorrer ou não à guerra. Até mesmo as autoridades que reconheceram intelectualmente a existência de uma ameaça vital podem não ter se sentido preparadas para agir segundo tais crenças, arcando com grande custo ou alto risco".

A comissão descobriu que, nos primeiros oito meses do governo Bush, o presidente e seus assessores receberam um número bem maior de informações, grande parte delas em linguagem direta e com conteúdo detalhado, do que geralmente se pensava.

A mais dramática delas foi veiculada em um relatório de inteligência de 6 de agosto, apresentado durante uma reunião na Casa Branca, a pedido de Bush. Intitulado "Bin Laden Determinado a Atacar nos Estados Unidos", o relatório perdeu o seu grau de sigilo no início deste mês, devido às pressões exercidas pela comissão. Após ter se referido a uma informação passada pelos serviços de inteligência britânicos em 1998, que dizia que fundamentalistas islâmicos desejavam seqüestrar um avião, o relatório faz a advertência: "No entanto, as informações do FBI desde aquela época indicam a existência de padrões de atividades suspeitas neste país, consistentes com a preparação para seqüestros de aviões e outros tipos de ataques". Bush disse que o relatório não forneceu detalhes específicos sobre quando e onde um ataque poderia ocorrer.

Kerrey disse que Bush demonstrou ter "bons instintos" ao pedir o material, mas afirmou que o telefonema de Ong, a atendente de vôo do Vôo 11 da American Airlines - que se chocou contra a torre norte do World Trade Center, no primeiro ataque do dia -, revelou que as ameaças e os alarmes não foram retransmitidos às autoridades competentes.

"Não vejo nenhuma evidência de que os nossos aeroportos estavam em estado elevado de alerta", disse ele. "Esses seqüestros não foram raios caídos de um céu azul". Danilo Fonseca

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