Para os sobreviventes, a vida continua depois de Columbine

Kevin Simpson e John Ingold
The Denver Post
Em Littleton, Colorado

Grande parte do semestre já havia se passado antes que o seu colega no laboratório de fisiologia sequer notasse, ou se sentisse suficientemente confortável para perguntar. Com a tampa da sua caneta, ele percorreu com cuidado a cicatriz fina e recortada que vai do pulso direito de Jennifer Doyle à parte posterior da sua mão.

"O que foi isso?"

"Columbine."

Com uma única palavra, a conversa terminou abruptamente. O que ocorre com freqüência é que as pessoas não sabem ao certo o que dizer depois, afirma Doyle, que atualmente tem 22 anos e é aluna da Universidade do Colorado. Cinco anos atrás, ela foi uma das vítimas que escaparam com ferimentos do episódio mais sangrento envolvendo tiroteio em uma escola do país, que custou a vida de 12 alunos e de um professor.

Para Doyle, episódios como o do laboratório simplesmente trazem à tona - sem nenhum efeito nefasto discernível - a experiência de uma garota de 17 anos que se escondeu debaixo de uma mesa da biblioteca, enquanto alguém puxou uma cadeira, apontou o cano de uma arma contra quatro estudantes apavoradas e atirou.

Doyle e as demais 24 pessoas que saíram feridas naquele dia - seja as que estavam fora do prédio, as que correram em pânico pelos corredores, ou as que participaram do espetáculo terrível na biblioteca - ficaram todas marcadas com um rótulo indelével: sobreviventes.

Seu mantra: a Columbine faz parte de mim, mas ela não é um fator que vai me definir.

O episódio da Columbine fluiu rapidamente nos canais da mídia até um nicho mais permanente, composto pelos periódicos acadêmicos, os livros e os anais da cultura norte-americana.

Sean Graves, parcialmente paralisado depois que foi atingido por tiros, mais tarde recebeu e-mails de desconhecidos que faziam pesquisa para os seus próprios trabalhos de escolas de segundo grau. Uma pergunta aparecia invariavelmente: que sensação se tem quando se leva um tiro?

"Para eles, trata-se de história. Para nós, é a nossa vida", diz Graves.

*-*-*

Quando estava debaixo da mesa da biblioteca, Jen Doyle ouviu uma voz dizendo a um aluno para sair e, a seguir, percebeu um par de botas se aproximando.

Ela achou que a polícia havia chegado.

Mas depois de alguns minutos angustiantes, os assassinos - que já haviam deixado vários alunos mortos ou agonizantes na sala - foram até a sua mesa e dispararam. Três balas rasgaram a sua mão direita, e uma delas quase arrancou o seu dedo anular.

A princípio, ela sequer percebeu que estava gritando. Momentos depois, colocou a cabeça sobre o garoto deitado junto a si e fingiu estar morta.

Ela retornou à Columbine para fazer o último ano do segundo grau, entrou na Universidade do Colorado em Boulder, ingressou em uma união estudantil e fez o percurso acadêmico até se formar em psicologia.

No decorrer desse período, passou por três cirurgias, incluindo uma para transplantar um pedaço de osso retirado do quadril para a articulação do dedo danificado e inserir uma placa de metal e dez parafusos. O dedo ainda fica ligeiramente dobrado quando ela estica os demais, e às vezes dói quando o tempo esfria.

Emocionalmente, se recuperou com rapidez - um fato que para ela se deve mais aos amigos, que a ajudaram a falar durante e difícil experiência, e aos pais, que ela descreve simplesmente como "incríveis". Ela se lembra apenas de pequenos episódios de "sentimento de culpa do sobrevivente", apesar da natureza completamente aleatória dos fatos que a deixaram viva, mas que mataram Corey DePooter - a colega de classe que estava escondida ao seu lado.

"Havia quatro de nós sob a mesa", conta Doyle. "Poderia ter sido qualquer uma".

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A casa fica em um tranqüilo beco sem saída. Seu interior, apenas semanas após o ataque na Columbine, foi reformado, devido a empreiteiros benevolentes que instalaram assoalho de madeira de lei, portas mais largas, mesas de cozinha mais baixas, banheiros personalizados e prateleiras espaçosas.

Uma rampa de madeira se estende do estacionamento à porta de entrada, onde fica o botão de campainha, em uma posição mais baixa que o normal - na altura de uma cadeira de rodas. Mas, quando a porta se abre, Sean Graves atende de pé. Ele foi atingido por seis balas quando fugia da lanchonete da escola com dois amigos. Os ferimentos o deixaram paralisado da cintura para baixo.

Cinco anos depois, ele se posta bem acima das bancadas instaladas à baixa altura, e se movimenta com facilidade por uma casa cujos recursos especiais acabaram não tendo tanta utilidade.

"A última vez em que me sentei em uma cadeira de rodas foi na formatura", diz Graves, que tinha 15 anos na época do tiroteio. Ele aceitou o diploma segundo as suas próprias exigências, de pé. Pouco depois, passou a usar muletas e, a seguir, uma bengala.

Foi só recentemente que sentiu que a vida voltou a ganhar ímpeto. "É verdade que sinto que fiquei para trás", diz Graves, que agora tem 20 anos. "Se o tiroteio não tivesse ocorrido, teria saído de casa. Estaria um ano à frente do patamar em que me encontro agora. Mas estou feliz por estar andando. Se não progredir ainda mais, ainda assim estarei feliz. Se eu ainda estivesse em uma cadeira de rodas, estaria feliz por estar vivo".

Em casa, em um ambiente que a mãe encheu de imagens de anjos, Graves disse ter adotado as orações e a arte de perdoar. Mas ele também encontrou a partir de um entendimento simples da motivação dos assassinos, e do seu próprio desejo de negar a eles a satisfação de ter deixado a sua vida em ruínas.

"Eu me recuperei bem mais rapidamente do que muitas pessoas", explica. "Quando passei pela minha última cirurgia, pensei em como Deus nos ensina a perdoar os outros - portanto, eu os perdôo pelo que fizeram, de um ponto de vista religioso. Mas o meu pai fala sempre: "Eles estão no inferno vendo você na televisão, e não querem que você vença".

Para realmente derrotar aqueles que o atacaram, Graves acredita que precisa resistir à tentação de se focalizar no passado. E, assim, ele cresceu.

*-*-*

Richard Castaldo examina os seus CDs até encontrar aquele que procura. Ele o insere na bandeja e aperta o botão para a reprodução do disco. Um som estranho e dissonante sai dos seus alto-falantes e, seguindo certos intervalos, sobe e desce em volume, enquanto uma voz alta e suave canta uma música.

"Tiny Martians all around,

Tiny Martians make no sound..."

É uma das primeiras incursões de Castaldo no campo da gravação musical - ele toca teclado e canta -, que remete à questão da inspiração. O que estimulou esse aspirante a músico a compor uma estranha melodia sobre extraterrestres?

Ele dá gargalhadas.

"É essa a questão", afirma. "Eu não tenho idéia. Na maior parte das vezes, não sei se uma porção de coisas tem qualquer sentido".

Não faz sentido que um garoto de 17 anos, que lanchava no gramado em frente ao portão oeste da Escola de Segundo Grau Columbine, acabasse sofrendo tantos ferimentos causados por projéteis que entraram e saíram no seu corpo que os médicos tenham sido incapazes de determinar com exatidão quantas balas o atingiram. Os tiros perfuraram seus pulmões, fraturaram a sua coluna, romperam nervos do seu braço esquerdo, danificaram um rim e o baço. Ele ainda possui uma das balas dos atiradores dentro de si - alojada em um grande músculo abdominal, selada por tecido cicatricial.

Mas a música lhe ofereceu uma porta de saída, uma plataforma a partir da qual pôde encontrar sentido na vida, ou pelo menos um meio de fazer diferença ao transmitir as suas preocupações em forma de melodia. A música domina a casa que comprou há nove meses - dos pôsteres dos Beatles na parede ao gato de estimação, que ele batizou de Maceo, em alusão a uma música do grupo Jane's Addiction.

O segundo quarto da casinha ficou atulhado com uma bateria, amplificadores e guitarras - em uma evidência de que a residência se transformou no espaço temporário para os ensaios da banda de rock da qual Castaldo faz parte. Ele conheceu os membros do Danger Girl quando estes estavam sem um baixista. Um dos músicos ofereceu aulas de baixo a Castaldo.

"Eles me disseram que o mais importante é perseverar e aprender a tocar bem", diz Castaldo. "Creio que tenho que honrar a minha palavra. Não tenho intenção de desistir".

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Agora as perguntas são feitas a todo o momento pela família, pelos amigos e professores: Quais são os seus planos? Para onde vocês vão? O que vão fazer?

Eles sugerem que houve um novo começo, mas, de certa forma, Val Schnurr voltou ao ponto em que estava há cinco anos. Ela está terminando o seu último ano - desta vez na faculdade. Preparando-se para a formatura. Olhando para o futuro. Pensando em uma carreira como conselheira ou psicóloga.

Mas, agora, ela responde às perguntas sobre o seu futuro com menos certeza do que o fez em abril de 1999. A palavra "talvez" entra sempre na conversa.

"Atualmente, o que mais faço é simplesmente fluir com os acontecimentos, porque as coisas podem mudar a qualquer momento", explica. "Tento não fazer planos para um futuro muito distante".

A Columbine de novo.

A tragédia passou como um tornado por sua vida - escolhendo-a de forma aleatória, e tocando e modificando tantas coisas, mas deixando outras notavelmente intactas.

Ela diz que agora é diferente. É uma pessoa mais confiante, mais extrovertida, mais capaz de ajudar outros indivíduos. Ainda assim, ela ainda é a mesma, ainda religiosa, ainda dona de uma maturidade que vai além dos seus 23 anos.

A Columbine fez com que modelasse um novo conceito de normalidade. Fez com que criasse uma nova personalidade. "Agora não sou completamente eu", diz Schnurr. "Quando a coisa aconteceu, me machucou tanto, e eu senti tanta dor e fui cercada por todo aquele trauma... É algo que domina a sua vida. E cheguei àquele ponto em que o que aconteceu não dirige mais a minha vida, mas se tornou uma parte de mim".

"Você aprende muito sobre si própria após esse tipo de experiência. Grande parte de mim mudou. Mas uma boa parte mudou para melhor". Cinco anos atrás, Schnurr estava estudando para uma prova de inglês na biblioteca da Columbine com a sua amiga de infância, Lauren Townsend, e três outras colegas de classe. Ela viu botas, ouviu vozes e armas sendo disparadas. Schnurr se escondeu sob uma mesa, até que um tiro de espingarda a arremessou para fora do esconderijo.

Ao ver Townsend ferida no chão, Schnurr tentou despertá-la tocando-a na face - mas não obteve resposta. Schnurr sofreu 34 ferimentos nos braços e tórax, provocados por fragmentos e esferas de chumbo de caça, o que fez com que passasse por dois anos de cirurgias. A maior parte dos seus ferimentos físicos já sarou.

"Mas eu me olho todos os dias no espelho e não há uma única ocasião em que deixe de pensar no que aconteceu", acrescenta.

Nesse aniversário da tragédia, o primeiro em três anos que ela passa novamente no Colorado, Schnurr reconhece a linha delgada que separa o alarido da mídia da lembrança solene. Ela quer honrar a memória e minimizar o alarido.

É uma questão de equilíbrio - assim como a sua própria vida, após o que ocorreu na Columbine.

"Agora estou mais em paz quanto àquilo que aconteceu", afirma. "Estou mais feliz. Sigo em frente. Não esqueço nunca. É algo que ainda machuca. Mas não tem mais um peso tão grande sobre quem eu sou". Escola foi palco do massacre perpetrado em abril de 1999 por adolescentes que, sem motivo, metralharam colegas e professores, provocando, no total, 13 mortes Danilo Fonseca

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