"Alias" mescla espionagem, ação e relacionamentos familiares

Robert Levine

As linhas mestras da trama do seriado de espionagem "Alias" são mantidas num quadro de cortiça na sala dos redatores, em fichas que acompanham o progresso de cada personagem em cada momento da temporada. O programa, transmitido aos domingos pela ABC nos Estados Unidos (no Brasil, passa às 20h das quartas-feiras no canal Sony) é a novela das séries de espião, misturando espionagem internacional com relações familiares torturadas.

Sydney Bristow, por exemplo, a agente da CIA interpretada pela estrela do programa, Jennifer Garner, começou a terceira temporada despertando dois anos após o final da segunda.

Ela fica sabendo que supostamente estava morta, e não tem qualquer lembrança de como passou esse tempo perdido. Sydney passou vários episódios seguintes metida em um triângulo amoroso com seu ex-namorado (um colega espião chamado Michael Vaughn) e a mulher com quem ele se casou enquanto Bristow estava desaparecida. Seu pai, emocionalmente distante (Victor Garber), é um colega, sua mãe é uma ameaça à segurança nacional e Sydney pode ou não ser submetida a uma profecia apocalíptica de um sábio do século 16 chamado Milo Rambaldi.

Dá para entender por que talvez seja útil mapear as coisas em papel. Mas as fichas só levam os escritores até aí. "Eu olho para elas agora e nenhuma é relevante", disse J. R. Orci, que está no programa desde o início. "Utilizamos como um mapa, mas em algum momento acabamos esquecendo-as."

Na sala dos redatores, assim como no escritório fictício da CIA em Los Angeles onde transcorre boa parte do programa, "Alias" é um quebra-cabeça gigante. "Você encaixa todas essas peças aleatórias e depois tem de preencher os buracos", disse Monica Breen, que começou a escrever para o programa este ano.

Nesta temporada, antes que o primeiro episódio fosse gravado, J. J. Abrams (o criador do programa) decidiu uma das grandes linhas da narrativa: que a mãe de Sydney teve um caso décadas atrás com o principal vilão do programa, Arvin Sloane.

Abrams e seus colegas redatores colocaram em vários roteiros pistas de que Sloane, interpretado por Ron Rifkin, poderia ser o pai biológico de Sydney. Eles afinal decidiram não seguir essas pistas, porque não quiseram mudar o relacionamento entre Sydney e seu pai, que é basicamente a dinâmica emocional do programa.

Como já se havia dado muita importância ao caso, porém, os redatores concordaram que precisavam de uma grande compensação - e foi assim que Sydney conseguiu uma meio-irmã até então desconhecida que atende pelo nome de Nadia e estréia nesta temporada.

Nadia (Mia Maestro), também no jogo da espionagem, tem seu próprio papel na profecia de Rambaldi. Segundo episódios anteriores, esse sábio (fictício) do Renascimento estava tão à frente de seu tempo que seu trabalho é muito valioso para as agências de inteligência e para os bandidos internacionais. A mitologia de Rambaldi é de uma complexidade quase cômica, permitindo que os autores concebam tramas sobre a dominação do mundo de maneiras excitantes, jocosas, quase absurdas, que contrastam acentuadamente com os feitos deprimentes da CIA na vida real.

Os autores decidiram que a meio-irmã de Sydney seria "a Passageira" - a pessoa que tem a capacidade de canalizar Rambaldi. "Ela ia ser potencialmente uma visionária catatônica", disse Breen, que escreveu o episódio deste domingo com Alison Shapker e Orci. "Então ninguém ficou realmente satisfeito com isso porque na verdade limita o que se pode fazer com ela." Os personagens vinham fazendo referências a essa vaga entidade há meses, mas segundo Orci "não sabíamos quem era a Passageira. Dominamos a arte de fazer os personagens dizerem coisas que são vagas e abertas porque não sabemos o que vai acontecer depois".

Assim, enquanto na tela Sydney e seus colegas agentes da CIA tentavam descobrir quem ou o que poderia ser a Passageira, nos bastidores os autores do programa faziam a mesma coisa. Isso fez parte do apelo do plano da Passageira, na verdade: como diz Orci, de olho na quarta temporada: "Queremos deixar nossas opções em aberto".

A introdução de Nadia amarra fios soltos da trama, assim como sobre a Passageira, que os aficionados vêm tentando unir. Mas e os espectadores casuais que não têm seu próprio conjunto de fichas? Para mantê-los envolvidos, cada episódio inclui uma cena de resumo, que conta a história até então. E para garantir que cada prestação funcione por conta própria, como uma hora de entretenimento na televisão, cada uma também tem uma missão secreta - na qual Garner usa um de seus disfarces sensuais que são sua marca registrada -, assim como uma missão de ação. "Mesmo que você não entenda os detalhes da trama do personagem, pode assistir as pessoas sendo explodidas", disse Orci.

No episódio deste domingo (25/04) nos EUA, o 20º da terceira temporada, que tem 22 episódios no total, Sydney e seu pai devem encontrar sua meio-irmã. A missão secreta envolve roubar um artefato de Rambaldi do Museu Smithsonian. Quando eles localizam a meio-irmã em uma prisão na Chechênia - em "Alias" ninguém jamais é encontrado em um shopping center em Nova Jersey -, sua tentativa de libertá-la constitui a missão de ação do episódio.

O drama de espionagem fornece o ambiente, mas o que Sydney realmente deseja é a oportunidade de se conectar com sua irmã. Uma das perguntas que os autores fazem é: "O que significa este episódio para Sydney?", disse o produtor-executivo John Eisendrath.

Apesar do ambiente de espião versus espião, "Alias" é afinal um programa sobre família e lealdade, assim como "Os Soprano", e a maior parte do conflito e do suspense vem das relações pessoais, com as quais o público pode se identificar, mais que do mundo distante da espionagem.

Assim como "Alias" acumula fatos improváveis na trama - uma morte fingida aqui, um fantasma maligno ali -, os autores esperam que os aspectos mais pessoais do programa ajudem a evitar o destino de seriados elaborados como "Arquivo X" e "Twin Peaks", que perderam o rumo e o público. "'Alias' tem o fantástico mundo da espionagem, mas tentamos lhe dar uma sólida base emocional", disse Schapker.

A trama secundária deste domingo também se desenrola de maneira que a equipe de redação não planejou originalmente: durante os dois anos perdidos de Sydney, Michael Vaughn (Michael Vartan) se casou com Lauren Reed (Melissa George), uma agente da inteligência que foi concebida originalmente como rival romântica de Sydney.

"Escrevemos 11 episódios nessa direção e então decidimos que seria muito mais excitante se ela fosse má", disse Breen. Então os espectadores descobriram meses atrás, o que Vaughn só fez recentemente, que sua mulher é uma agente dupla de uma organização terrorista chamada Covenant.

Aqui também o maior impacto é emocional. "Pensamos em Lauren trabalhando para a Covenant assim como uma mulher que tem um caso", disse Schapker. A evidência de sua traição consiste em um passaporte falso, e seu confronto com o marido ocorre quando ele está sendo interrogado. "Mas ainda é relacionável, a idéia de ser alvo de mentira no casamento", acrescentou Schapker.

A surpresa faz parte do apelo de "Alias" - o mote do programa é "Espere o inesperado". Ao mesmo tempo, disse Schapker, "não é apenas o que podemos fazer para chocar o público. Tem de sair dos personagens e da motivação". Especialmente no caso de seu personagem principal. "Sydney é sempre a mesma pessoa", disse Breen. "Ela é a base da história, que gira ao seu redor." Série mostra uma CIA eficiente, diferente da que existe no mundo real Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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